10@norte

10@norte com Fátima Araújo

Tradição, gente calorosa, genuína e sem papas na língua, comes e bebes de babar e recantos onde podemos esconder-nos do reboliço dos dias, mas também misturar-nos com multidões de forasteiros. São características que fazem Fátima Araújo sentir o Norte como seu. Na geografia dos afectos e na busca do que a liga aos outros, a jornalista e pivot da RTP procura sempre as images e os sons mais improváveis e mais inesperados. Porque, como ela diz, há um “Xico Fininho” em cada um de nós e porque o melhor do mundo tem vista sobre os nortenhos!

O melhor refúgio do norte?
Ponte de Lima é um refúgio-maravilha… Pela herança medieval que ostenta, pela paisagem bucólica que respira serenidade e pela deliciosa gastronomia que me enche de gula (sobretudo o arroz de sarrabulho com rojões de porco, o bacalhau de cebolada, o arroz doce, o leite creme queimado e o queijo limiano)! É um destino a que regresso todos os anos, seja para passear, seja para experimentar os restaurantes da região.

A melhor frase que ouviu?
A frase que mais me fez gargalhar foi a de um português, emigrante em França, que usou a expressão “punheta cerebral” para se referir aos momentos em que ele pensa, pensa, pensa, puxa pela cabeça e não sai nada, até que, de repente, se lembra de algo que faz sentido no seu pensamento. Essa metáfora “punheta cerebral” é um misto da capacidade dos nortenhos misturarem, de forma tão suigeneris, a linguagem vernaculosa com o discurso corriqueiro, sem que esse vernáculo seja ofensivo!

A melhor figura desta região do país?
São muitas, felizmente, e em todas as áreas: da ciência, às artes, passando pela política, pelo tecido empresarial e pelo desporto… Mas, assim de repente, ocorrem-me três nomes: o médico legista, Professor José Eduardo Pinto da Costa, pela capacidade de desconstruir o discurso científico em algo próximo de nós e perceptível ao entendimento popular, pelo humor com que fala de coisas sérias e por nos fazer perceber o que dissecar a morte nos ensina sobre a vida! Todas as vezes que o entrevistei e que moderei debates em que ele participou, ouvi-o sempre com muito prazer e com atenção redobrada.
Ocorre-me também o Professor Sobrinho Simões, por ser um dos patologistas mais influentes do mundo e um dos mais prestigiados investigadores na área do cancro, uma doença que já me entrou pela casa dentro.
Menciono, ainda, o saudoso Professor Daniel Serrão, cuja simpatia e sorriso retenho de todas as entrevistas que lhe fiz e cuja calma apaziguadora com que falava das questões de bioética me faziam sempre querer saber mais!

A música que representa o Norte?
Acho que a “Xico Fininho”, do Rui Veloso, encaixa nesta categoria! Porque descreve a postura de algumas figuras do Norte, em sentido literal e também em sentido figurado. Porque, sinceramente, acho que há um pouco de “Xico Fininho” em cada português e não apenas nos nortenhos! Porque a letra da canção fala da irreverência que carateriza os nortenhos. Porque tem uma energia tripeira fulgurante que inaugurou o movimento do Novo Rock português.

O melhor espectáculo que viu no Norte?
Inúmeros, quer no Coliseu do Porto, quer no Parque da Cidade, quer no Festival Primavera Sound, quer no Festival de Paredes de Coura, quer no Festival de Vilar de Mouros, quer no Festival Marés Vivas. Para quem, como eu, é festivaleira compulsiva, é difícil escolher o melhor espectáculo… Mas tenho na minha memória mais longíngua o electrizante concerto dos Suede, no Festival de Paredes de Coura, em 1999, o ano de uma das melhores edições de sempre deste festival. Na minha memória mais recente está o espectáculo do Benjamin Clementine, nesse mesmo festival, no ano passado. Pela solenidade e humildade com que Benjamin Clementine se apresentou em palco e pela forma desconcertantemente simples e intimista como interagiu com o público.

Com que figura nortenha gostava de jantar?
Com o presidente do Futebol Clube do Porto, Pinto da Costa… Como nunca o entrevistei e como imagino que ele seja uma daquelas pessoas que conte mais em off do que em on, julgo que um jantar daria uma conversa muito reveladora e interessante.

O melhor prato?
Tripas à moda do Porto. Uma delícia! Adoro!

O monumento mais interessante?
Não sendo propriamente um monumento de tijolo, cimento ou betão, elejo a Região Vinhateira do Douro como “o monumento” nortenho da minha preferência. Pelas paisagens bucólicas e sublimes, pelas quintas e solares, pela gastronomia, pelos excelentes vinhos, pelos cruzeiros no rio Douro, pela simplicidade das pessoas, pelas mãos calejadas do povo que trabalha a terra e não deixa morrer a sua identidade.

Um episódio caricato que viveu nessa região?
Uma vez, andava eu em reportagem e a fazer directos e uma senhora, de avançada idade, perguntou-me: “A menina é a jornalista da RTP, não é?!”. Respondi-lhe que sim e ela, entusiasmada, soltou um expressivo: “Foda-se, eu sabia… Mas você é tão magrinha e parece mais rechonchudinha na televisão”! A forma como esta senhora me abordou é curiosa pelo facto de aliar duas características muito vivas nas pessoas do Norte: o uso das expressões vernaculosas como interjeições e não como indelicadeza de trato e o dizerem o que pensam e sentem na cara dos outros, sem medos e sem pruridos!

Se escrevesse um livro sobre o Norte que título teria?
Chamar-lhe-ia “O melhor do mundo tem vista sobre nós”!

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2 Comments

  1. Gosto muito de a ver na televisão. Das jornalistas da RTP Porto – é a que melhor dicção tem. Gostei muito das respostas dadas.
    Muito bonita nas fotos.
    João Silva
    Barcelos

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