Entrevistas

Cristina Bacelar: “Este disco não foi uma urgência, foi uma oportunidade”

Apresentação do disco dia 24 de março na Fnac do Norte Shopping

Fala do disco “que sempre quis fazer” com vaidade e com vontade. “Nem Tudo é Fado” é o novo trabalho a solo de Cristina Bacelar, uma viagem pelo fado e pelo flamenco, que resulta das várias experiências musicais vividas nos últimos anos pela cantora. Não gosta de discos iguais, mas das diferenças e das consequências e assegura que se trata de um disco para “quem me quiser ouvir”. O primeiro single da cantora portuense, guitarrista, compositora, letrista e docente é uma versão “que mais luta me deu” do clássico “Meu Corpo”, criado para Beatriz da Conceição por Fernando Tordo (música) e José Carlos Ary dos Santos (poema). O disco vai ser apresentado dia 24 de março na Fnac do Norte shopping, às 18h00.

Por: Fernanda Castro
Fotos: Alberto Almeida

Agência de Informação Norte – Este é o segundo álbum a solo da sua carreira. Oito anos depois de “Descartabilidade”, em que cantava Florbela Espanca, o que é que mudou na criadora de canções portuense?
Cristina Bacelar – Os discos para mim só fazem sentido quando sentimos necessidade de fazer música e quando vivemos situações que nos levam a escrever e a compor. Foi isso mesmo que aconteceu, as minhas experiências, as minhas vivências ao longo destes últimos tempos estão neste meu novo disco “Nem tudo é fado”; está o meu gosto também, sobretudo nas versões dos fados que escolhi. Considero que a música faz todo o sentido quando evoluímos, quer musicalmente, quer pessoalmente. Não gosto de discos iguais, gosto das diferenças e das consequências.

Interprete, guitarrista, compositora e letrista. Passou por projetos como Frei Fado D’el Rei e As Três Marias. Posso concluir que este seu regresso a solo era agora ou nunca?
Este disco a solo não foi de todo uma urgência, foi uma oportunidade. Achei que estava na altura de fazer o meu percurso em nome próprio. Há muito tempo que o fado andava na minha cabeça e apetecia-me concretizar essa minha vontade. E fui obediente a essa vontade. Eu adoro desafios. Na realidade, acabo por não estar “sozinha”, tenho os músicos que gravaram comigo, mas neste momento é por aqui que quero ir e ficar, em nome próprio.

“Nem Tudo é Fado” é uma autêntica viagem pelo fado e pelo flamenco, resultado de uma longa experiência musical vivida ao longo dos anos. Este é o disco que faz sentido neste momento na sua carreira?
Completamente. É o disco que sempre quis fazer. O que eu mais gosto na música, é a possibilidade de lhe ver o “esqueleto”, ou seja, pouca produção. É mais fácil ver a sua essência e também a sua qualidade. Estou muito feliz com o trabalho final e orgulho-me deste disco. Adoro flamenco e tenho investido muito no estudo da guitarra flamenca nos últimos anos. Encantei-me com o fado e gostos são gostos, ponto final. Não sou fadista, nem guitarrista de flamenco mas consegui fundir estes dois géneros que tanto gosto. Obviamente, que a minha vivência musical sempre foi uma abordagem a estas duas identidades culturais, o que tornou todo o processo criativo mais fácil. Já o disse muitas vezes, não sobrepus, fundi-os mesmo. Nem é fado, nem é flamenco mas as sonoridades estão lá. E juntei-lhe o jazz, através do saxofone…

Mas esta fusão entre o fado e o flamenco com um guitarrista de flamenco não é uma experiência nova para si uma vez que esteve sempre ligada a esta fusão. Juntar estas duas expressões musicais de Portugal e Espanha num disco além do risco é principalmente um desafio?
É fundamentalmente um desafio. Um desafio, não um impulso musical. Foi tudo muito pensado, refleti bastante mas senti um desejo enorme em fazer estas versões dos fados. Respeitei-os com toda a dignidade que eles merecem. Não há pretensão nenhuma nestes arranjos, há apenas uma vontade de os tocar e cantar de uma outra forma. Mostro os fados desvinculados dos intérpretes originais. Caso contrário, era uma cópia e eu não pretendo imitar ou copiar ninguém. O fado e o flamenco são duas linguagens que estão muito próximas não só geograficamente. Fazem todo o sentido juntas e ligadas. Traduzem-se numa sonoridade bonita quando se juntam. Para mim, não é difícil porque sempre o fiz, se calhar nunca fui tanto às suas essências como neste disco. Mas convém dizer também que não é só fado e flamenco, a súmula do disco é essa mas tenho os meus originais que se distanciam de tudo isto. Para mim, este «Nem tudo é fado» é música, a música que eu de facto gosto.

Mas posso concluir que a música para si só faz sentido dessa forma?
A música para mim, faz sentido porque gosto de música, é tão básico quanto isso. Esta é a minha leitura, são as minhas referências, aquelas que eu aprecio. Aprendi e sempre trabalhei em projetos de fusão. A fusão traz inerente a si mesma, inovação, estimula a criatividade, dá imensas possibilidades e eu gosto disso. Pode ser visto como uma provocação mas não é, é mesmo por vocação.

A crítica a este disco tem sido muito positiva. Cada trabalho tem uma história. Qual é a deste disco?
São muitas histórias, histórias simples, pelo menos na minha forma de as ler (cantar e tocar). São as histórias que cresci a ouvir, no caso dos fados, cantados por outras pessoas, no caso dos originais, são as minhas pessoais. Mas na realidade, todos nós temos histórias parecidas, todos choramos, rimos e fundamentalmente vivemos. As histórias das canções, têm a vantagem das pessoas se identificarem com elas. As canções são isso mesmo. No caso dos instrumentais, gosto de dizer que é uma oportunidade de cada um escrever a sua história. Só há a música e cada um pode viajar como quiser e mentalmente criar a sua própria história. É a magia da música.

É por isso que diz que tem um gosto musical muito eclético?
Digo que tenho um gosto muito eclético porque gosto de muita música diferente e ouço coisas muito díspares.

O disco é composto por versões de temas de Beatriz da Conceição e de Amália Rodrigue e às quais se juntam a canções originais assinadas por si. De onde surgiu a inspiração para este disco?
Da minha vida, da forma como a construí e de toda a minha educação musical. Nunca fui uma pessoa que estivesse ligada a um só estilo de música, tal como já disse ouvia muita música diferente. Adoro Zappa, adoro Brad Mehldau, Paco de Lúcia, Vicente Amigo, Gardel, Piazzolla, Beatriz da Conceição, Argentina Santos, Pink Floyd…Isto é uma mescla de géneros… mas foram sempre as minhas inspirações, a minha verdade eclética.

Escolheu para single o tema “Meu Corpo” com letra de Ary dos Santos e música de Fernando Tordo. Conseguiu separar a grandiosidade desta canção?
Impressionou-me foi a grandiosidade da música, da letra. Este fado, foi o que mais “luta” me deu a fazer o arranjo, nunca gostava do que fazia. Estive um mês e tal, todos os dias a tentar fazer o arranjo. Quanto mais ouvia a música mais me envolvia com a letra com a melodia e muita coisa passava na minha cabeça. Foi o último arranjo que fiz para este disco. É absolutamente genial, este tema.

É por tudo isto que afirma que este disco é a sua vida?
É, sem dúvida nenhuma. Daqui a cem anos, voltarei aqui para o reafirmar! Sinto-me com maturidade para ter feito este disco, surgiu na altura e no momento certo da minha vida. É muito bom, quando olhamos para trás e percebemos que somos felizes porque fazemos aquilo que queremos. E eu sinto-me completamente preenchida e feliz com este disco: Voltaria a repeti-lo e faria exatamente a mesma coisa. É a minha coerência. É um disco com temas heterogéneos do princípio ao fim e no final percebemos que há uma imensa homogeneidade. É um disco que me completa e me enche a alma, logo, é fado!

Está por inteiro neste disco assumindo a produção e os arranjos dos fados e dos temas originais…
A produção deste disco foi do José Lourenço, um grande pianista e produtor. Quando lhe apresentei a minha ideia, ele percebeu de imediato o que eu queria fazer. Foi muito fácil trabalharmos os dois e foi sobretudo muito bonito. Vivi com ele e com os músicos que me acompanham, o Armando, o Rui e o Pedro, momentos fantásticos em estúdio. Inicialmente era para ser um disco só de versões; mas convenceram-me a gravar também originais.

O fado é uma paixão recente na sua vida…
Sempre gostei de fado. Sempre ouvi fado. Não com a regularidade com que ouço agora, sempre que posso vou “ao fado”. Adoro o ambiente intimista das casas de fado, adoro o respeito, o silêncio que se faz nas casas de fado. Fiz amigos nos fados e conheci excelentes profissionais, aprendi muito com eles.

Para que tipo de público se dirige este disco?
Para quem me quiser ouvir, como digo num dos meus originais que se chama fado de papel. “Fado branco, é uma ideia sem idade…” não há um público-alvo. Não quero alimentar o preconceito que só a partir de determinada idade é que se pode ouvir fado.

Mas em termos de espetáculos o que está a ser preparado e pensado?
Quero muito tocar em Portugal mas quero sobretudo tocar lá fora. Estou neste momento a preparar a minha agenda de concertos. Vou apresentar o disco, dia 24 de março na Fnac do Norte Shopping, às 18h00 e dia 5 de Abril no lounge do Casino do Estoril. Pelas 21h30.

Qual é o lugar que o ensino ocupa neste momento na sua vida?
O mesmo de sempre Gosto de dar aulas e gosto de aprender com os meus alunos. Não sou uma professora convencional, daquelas que tirou o curso e lhes ensina as notas musicais (risos).

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One Comment

  1. Entrevista muito agradável e de fácil leitura. Parabéns Cristina pelo novo disco. Marca a diferença no panorama musical.
    Rosa Silva /Cantanhede

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