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Com Vídeo: Raul Minh’alma o autor de “Os Mistérios de Santiago”

Eis o jovem. O jovem estudante de engenharia que tem como paixão a escrita. Aos 17 anos edita o seu primeiro livro de poesia e, agora, aos 22, lança o primeiro romance: «Os Mistérios de Santiago». A história desenrola-se em torno de Santiago, uma criança de poucos recursos, vítima de maus-tratos e desprezo familiar que, apesar da vida de sofrimento, encara a vida sempre com um sorriso. O autor chama-se Pedro Miguel Queirós, é natural de Marco de Canaveses, e assina os seus livros como Raul Minh’alma. Diz que escreve e quer continuar a escrever para toda a gente, com mais ou menos estudos, com mais ou menos cultura, mas acompanhada sempre de uma mensagem. Conheça nesta entrevista mais sobre o seu percurso literário e sobre os sonhos de um jovem que começou a trabalhar muito cedo para ajudar a família, mas nunca desistiu dos seus sonhos.

AIN – Qual é a melhor forma de descrevermos o Pedro Miguel Queirós?
Raul Minh’alma – Considero-me uma pessoa simples, humilde, madura e lutadora. Fui criado num meio sem grandes possibilidades e em que as oportunidades não abundavam, para além de que perdi o meu pai muito cedo. Por isso, a vida obrigou-me a crescer e a lutar a dobrar para alcançar os meus objectivos.

Assume-se um autor com uma escrita simples, em muitos casos quase falada, e muito próximo de quem lê os seus livros. É esta a diferença relativamente a outros escritores da sua geração?
Alguns jovens escritores esforçam-se para escrever da forma mais “cara” possível, numa tentativa de mostrar cultura e maturidade, invocando ao leitor, desde logo, um maior respeito. Não é esse o meu caminho. Escrevo de uma forma simples, porque é a forma que sei, e também sei que, assim, não estou a selecionar classes sociais. Eu escrevo e quero continuar a escrever para toda a gente, com mais ou menos estudos, com mais ou menos cultura, quero que toda a gente seja capaz de ler e entender o que digo. Esta é a melhor forma do leitor apreender a mensagem que procuro transmitir e esse é o meu principal objectivo. Como digo, o meu forte é a imaginação, não propriamente o português, o meu foco são a história e a mensagem do livro.

Como, e em que altura, a escrita surge na sua vida?
Durante todo o meu secundário trabalhei à noite, em conjunto com uma irmã, tomando conta de três crianças. E, durante o meu 12º ano, contava eu 17 anos, comecei a estudar na escola alguns poetas. Ao final do dia, depois de os miúdos que tomava conta já estarem a dormir, eu aproveitava o silêncio e a inspiração da noite para “rabiscar” algumas coisas. Comecei pela poesia (influenciado pelo tema das aulas de português), mas, inicialmente, não passava de alguns versos soltos. Aos poucos fui aperfeiçoando o meu estilo de escrita e fui criando cada vez mais poemas. Surgiu a possibilidade de lançar um livro de poesia e agarrei-a, mas, depois, a minha mente exigia-me uma desafio ainda maior e decidi avançar para um romance.

É um apaixonado pela arte, música, teatro e escrita. Onde se encaixa a paixão pela Engenharia Mecânica?
Infelizmente para se viver da arte em Portugal é preciso ser-se um génio ou ter boas “cunhas”. E, tendo em conta o panorama actual, eu tinha que tomar uma decisão consciente e mais segura para o meu futuro, e, no final do secundário, optei por ingressar em engenharia e fazer arte nos tempos livres. Contudo, não estou em engenharia só porque é uma opção (mais) segura, fazer engenharia mecânica é também para mim um sonho porque as máquinas fascinam-me. Para além de que preciso deste lado “frio” em mim, no sentido em que as máquinas são despojadas de sentimentos, e me endurecem como pessoa, buscando eu o equilíbrio no calor das pessoas e das palavras que lhes transmito. Este contraste de mundos e realidades faz-me sentir uma pessoa mais completa e mais preparada para os momentos duros e sensíveis da vida.

Segundo sabemos a sua estreia literária surgiu em 2011 com a apresentação pública do livro de poesia “Desculpe Mãe”. Neste livro está tudo aquilo que sempre quis dizer à sua mãe?
O livro é, no fundo, uma justificação do seu título. Ou seja, o livro não fala sobre a minha mãe, fala de tudo um pouco, naturalmente, mas mais sobre mim, embora de uma forma subentendida…. No livro abordo algumas atitudes, acções e sentimentos que me levam a pedir desculpa à minha progenitora. Tudo isto, como referi, subentendido na poesia e nas suas metáforas. Todos nós temos muitos obrigados e muitos pedidos de desculpa para as nossas mães, e não só, e esta foi uma forma diferente de lhe pedir desculpas pelo filho que lhe fui diversas vezes. Mas não, não está tudo o que sempre quis dizer à minha mãe, mas, o que me faltar dizer, dir-lhe-ei pessoalmente.

“ É da minha alma que vem tudo o que escrevo”

Mais do que os poemas são mensagens?
Não considero que sejam poemas com mensagens, mas antes mensagens em forma de poemas. Como já referi, a minha prioridade e paixão é transmitir uma mensagem importante para quem lê o que escrevo, seja sob a forma de poema, prosa ou uma simples frase. Essa é a minha verdadeira motivação, apenas uso as palavras como elo de ligação entre mim e as pessoas.

Porquê a escolha de Raul Minh’alma como pseudónimo?
Escolhi Raul porque é um nome de que gosto muito e que não é muito usual, ou, pelo menos, não tanto como Pedro, o meu nome de baptismo. E escolhi Minh’alma por uma razão muito simples, porque é da minha alma que vem tudo o que escrevo.

“Os Mistérios de Santiago” é a sua mais recente obra literária editada no início de 2014. Que romance é este?
A história passa-se na década de 1980 e desenrola-se em torno de um rapaz, o Santiago. Santiago é um rapaz muito especial, porque é uma criança pobre, que sofre de maus tratos e desprezo familiar. No entanto, apesar de uma vida de sofrimento que tem, arranja sempre uma forma de olhar em frente, de ver a vida com um sorriso e tem sempre uma mensagem de força e esperança para quem com ele conversa. Para além disso, tem uma maturidade fora do comum para a sua idade e só pensa em fazer o bem pelo próximo, contribuindo para que todos à sua volta realizem os seus sonhos. Ao longo da história, o personagem principal vai-se deparando com inúmeros mistérios sobre a sua vida, e não só, e vai resolvendo os mesmos com a ajuda do seu diário. Esta narrativa aborda diferentes temáticas, desde a violência doméstica, a vida na rua, o alcoolismo, vida nos orfanatos, tráfico de crianças e o êxodo rural.

Um romance que fala de uma época que o Pedro não viveu. Só por isso, o desafio foi maior?
Procuro sempre novos desafios, tentar superar-me todos os dias, e, como se já não fosse desafio suficiente o salto da poesia para o romance, eu quis ainda escrever uma história sobre uma época em que não tinha vivido. A época que eu gostava mesmo de escrever era ainda mais antiga do que aquela que acabei por escolher, mas como não queria dar um passo maior do que a perna, decidi-me pela década de 1980. Foi naturalmente mais difícil porque tive que fazer alguma investigação sobre a época, assim como muitas “entrevistas” a conhecidos meus que viveram nesse tempo. Mas foi muito agradável, senti-me como se estivesse a vivê-la.

Segundo sabemos trata-se de uma história que fala da vida de Santiago, uma criança sem grandes posses, vítima de maus-tratos, com falta de afectos mas que, apesar de todas as dificuldades, tenta sempre sorrir. Esta é também a história de vida do Pedro Miguel Queirós?
A história tem traços das minhas experiências, da minha vida. Muito do que pensa e vive o Santiago foi baseado na minha pessoa e na minha vida, só que o quê, exactamente, é um mistério do livro que não se desvendará e que ficará guardado em mim. Muitos leitores do livro, como já aconteceu, podem julgar que o Santiago sou eu, no entanto, essa é uma ideia errada, o Santiago é sim um “eu” melhorado. Ou seja, quem me dera a mim ser como o Santiago, mas não desejo certamente passar pelo que ele passou nesta narrativa.

Romance repleto de mistérios

O romance tem como pano de fundo as margens do Douro…
É uma região na qual me considero inserido, que eu gosto muito, e, por isso, quis que este meu primeiro romance se passasse numa das margens deste lindo rio. No entanto, as aldeias e cidades em que se desenrola a história são fictícias.

O Santiago tem um diário onde escreve poemas em forma de enigma tudo enquanto dorme. Poderá ser este um dos segredos do livro?
Este é de facto um dos mistérios, dos primeiros, senão o primeiro, a ser desvendado. Contudo, o livro está repleto deles, do início ao fim, que vão surgindo e vão-se resolvendo, e ainda outros que percorrem toda a história. Curiosamente, o último mistério terá que ser desvendado pelo próprio leitor, porque não é revelado no livro. Sempre gostei de mistérios e penso que a maioria das pessoas gosta. Foi uma das minhas formas para agarrar o leitor do início ao fim desta obra, e, segundo o feedback que tenho recebido, tem dado certo.

Disse recentemente numa entrevista que não procura dinheiro nem fama com os seus livros. O que procura realmente?
Seria até ridículo, um jovem escritor, muito pouco conhecido ainda, como eu, pensar fazer muito dinheiro com a escrita. Não é, de todo, isso que me move. A fama acaba por ser uma consequência da necessidade de divulgação das minhas obras que vão arrastando com elas o meu nome enquanto autor, contudo, também não é isso que me move. O que procuro realmente é transmitir uma boa mensagem às pessoas, dar-lhes momentos de prazer com as minhas palavras, mudar um bocadinho que seja as suas vidas. Alguém que vem ter comigo e me diz que adorou o livro faz-me sentir realizado, porque sinto nessas pessoas que as minhas palavras significaram algo para elas.

Já tem novos projectos na área da escrita?
Só ideias vagas, ainda nada propriamente definido, ou, pelo menos, que possa revelar já. Neste momento estou concentrado n’Os Mistérios de Santiago e num curso de Engenharia Mecânica que tenho de terminar, como sempre disse para mim próprio, o curso está em primeiro lugar. Mas continuarei a escrever e a editar obras, se tudo correr bem…

Escrevo de forma simples, porque é a forma que sei”

Há quem afirme que faltam bons escritores em Portugal. Será falta deles ou uma abordagem digna aos livros?
Este mercado, o mundo das editoras de hoje em dia, mudou consideravelmente quando comparado com alguns anos atrás. Actualmente, “qualquer um lança um livro”, como já certamente ouvimos alguém dizer, e contra mim falo. Este fenómeno deve-se a uma abordagem diferente por parte das editoras, o que não é propriamente mau, porque, muito à conta disso, se descobrem novos grandes escritores. Não faltam bons escritores. Obviamente, a percentagem desses bons escritores é que diminuiu face ao aumento de outros escritores ou de “pessoas que escrevem”.
Mas ainda há aquele preconceito miudinho, relativamente a escritores desconhecidos, entre eles os jovens, em que alguém começa a ler um livro seu, partindo do princípio que não terá qualidade suficiente, e acabam por não gostar. Por outro lado, ao lerem livros de autores (re)conhecidos, mesmo que até nem tenham muita qualidade, as pessoas acabam por gostar, sem muito bem saber como, porque, à partida, esse escritor conceituado sabia o que estava a fazer e, se escreveu dessa forma, é porque achou que seria a melhor.

Que importância tem o Facebook ou o blogue na sua vida?
O meu “mundo online” começou pelo blogue, foi através dessa plataforma que cheguei pela primeira vez ao público, com as minhas poesias. Contudo, actualmente, tenho-me concentrado no facebook, através da minha página de autor Raul Minh’alma. É através desta página que dou a conhecer o meu trabalho e tudo o que faço, dedico muito tempo às pessoas que me seguem nesta rede social, que já ultrapassam os dois milhares. Elas gostam e identificam-se com os meus pensamentos e eu faço questão e trabalho para as manter cativadas a visitar a minha página diariamente, como uma boa parte delas o faz…

Foto: DR

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