Entrevistas

Ruy Silva: “Os meus quadros são o espelho da minha alma”

Artista plástico assinala 30 anos de carreira

O seu ar jovem esconde uma carreira de 30 anos. Aos 45 anos, o artista plástico Ruy Silva assume que a palavra “obrigado” é a que melhor define todos estes anos de carreira, que nem sempre foi fácil de “sustentar” e da qual não se apercebeu do tempo passar. Homem sensível, de emoções fortes, de abraços, que gosta de pintar a vida. A sua vida. Ao longo de 2019, diz ter pela frente alguns desafios que o deixam a “fervilhar”. Projectos inéditos, muitas exposições, viagens e o regresso aos livros. E como não existe amor como o primeiro, não esquece a primeira oportunidade que teve quando propôs realizar a sua primeira exposição com apenas 15 anos de idade. Um sim que ainda perdura, com a cor laranja sempre presente nas suas obras.

 

Agência de Informação Norte – Ao longo destes anos, tem sido responsável por diversas iniciativas ligadas às artes. Conta com dezenas de exposições em Portugal e no estrangeiro, onde tem alcançado vários prémios. A sua obra encontra-se inserida em várias coleções públicas e privadas. Numa altura em que assinala 30 anos de profissão, o que lhe apetece dizer?
Ruy Silva – Obrigado. Acho que esta é a palavra que melhor resume tudo aquilo que foi este meu percurso enquanto profissional. Foi uma luta enorme, muita dedicação e amor permanente naquilo que na verdade gosto de fazer.

Mas que Ruy Silva é aquele que está na minha frente?
Uma pessoa normalíssima com as suas particularidades, como toda a gente. É uma pessoa que gosta de fazer o bem, de pintar a vida, de viver e aproveitar a vida. Gosto de estar rodeado essencialmente de pessoas que estejam de bem com a vida e que possam ser uma mais-valia e uma influência para a vida, para a minha vida.

Destes 30 anos, destacam-se vários convites e desafios em diversas áreas que, para além da pintura, passam também pela ilustração, mobiliário, iluminação, culinária, joalharia e linha casa. O que podem os seus clientes e admiradores esperar de si em 2019?
Podem esperar muita coisa. Para além de todas as áreas já abordadas – e porque entendo sempre que um criativo nunca se deixa ficar pela sua área de incidência, que no meu caso é a pintura – neste ano que agora começa posso destacar uma exposição de pintura em parceria com a BMcar. Será uma exposição muito especial, na medida em que  o mote para a exposiçãoé a primeira vez por mim abordada. A figuração desaparece e a inspiração são os automóveis BMW e o Roll Royce. Temos ainda uma parceria com a Ergovisão. Pela primeira vez vou desenvolver um projecto que nunca fiz. Estou super motivado. Trata-se de um desafio daqueles que me deixa a fervilhar desde o início.

Está ainda programado o regresso aos livros…
Este regresso prende-se com publicação de um catálogo biográfico destes 30 anos. Será um livro de capa dura, que terá cerca de 100 páginas e que vai retratar todo o meu percurso enquanto profissional. Está ainda pensado um outro livro, mas de receitas de cozinha, para o final do ano.
Não, não vou ser nenhum chefe de cozinha (risos).Sempre gostei muito de cozinhar e acho que a cozinha é também um espaço de arte, de amor, que passa logo pela própria confecção, empratamento e de tudo o que envolve a preparação de uma refeição. Este livro será composto por receitas que ao longo dos anos fui reunindo, fui fotografando as mesmas e neste momento está tudo pronto para as partilhar, falta apenas escolher uma editora para publicar. Destaco ainda a continuidade da parceria com a MontBlanc.

O by Ruy Silva – ArtGallery nasceu para expor as suas obras e tem recebido profissionais dessa área de vários países…
É verdade. Nasceu com esse objectivo e de eu expor sempre ali em primeira mão as minhas obras e de receber colegas que ali também podem dar a conhecer o seu trabalho.

Nota muita diferença no feedback dos portugueses e dos estrangeiros perante o seu trabalho?
Existe alguma diferença. Em Portugal tenho dois tipos de clientes. Mas acho que tenho a sorte de encontrar em Portugal um público sensível aos temas que eu pinto, independentemente do conceito de arte -pois até podem nem ser pessoas muito entendidas ou até especializadas-mas os temas e a sensibilidade conjugam-se e criam alguma identidade com as obras. Tenho também outro tipo de clientes com um grande conhecimento de arte, investem na minha arte. O cliente estrangeiro tem uma cultura de base muito mais ligada à arte.

Mas entende então que é mesmo uma questão cultural?
Não tenho dúvidas disso. Acho que o estrangeiro começa mais cedo a visitar museus e a própria cultura é muito diferente.

Uma vida dedicada ao ensino e à pintura. As duas paixões completam-se?
Já se completaram mais enquanto pessoa. Já gostei muito de ensinar – mas a determinada altura da minha vida tive que optar por aquela que é na verdade a minha maior paixão, que é a pintura. Eu fiz a minha primeira exposição quando tinha 15 anos e não foi por acaso. Já nessa altura pintava e fiz questão de mostrar essa minha paixão. Mas, respondendo em concreto à sua pergunta: estas duas paixões não se completam.

De que forma se transmite emoções num quadro?
Belo é tudo aquilo que dá prazer aos nossos sentidos. Posso olhar para uma tela branca e ela mexer com os meus sentidos. No entanto, para  outras pessoas essa imagem pode até ser considerada fria e nada inspiradora.

Quer com isso dizer que o segredo está na alma e numa forte intensidade de viver?
Sim, claro. Sabe que a idade também nos trás sabedoria. Relativamente à sua pergunta, eu acrescento que o segredo passa ainda por uma forte qualidade de viver. Eu tenho muito pouco tempo livre e o que tenho gosto de o passar com amigos e com qualidade, que pode passar, como falámos há pouco, pela organização de um simples jantar. Cabe a cada um de nós saber viver com intensidade, pois na verdade tudo faz parte de um crescimento.

Qual é a sua maior inspiração para pintar?
Tudo para mim é inspirador. Inspiro-me nas pessoas, em mim próprio, naquilo que me rodeia e até num simples abraço.

Já pintou uma série de quadros a que chamou abraços…
É verdade. Um abraço é algo tão comum e muitas vezes nos questionamo-nos de há quanto tempo não abraçamos as pessoas de quem gostamos muito. E, se pensarmos bem, se não temos ou não damos um abraço, isso não deixa de ser grave. Sempre fui uma pessoa muito ligada aos sentimentos, às emoções, aos afetos e pinto na verdade aquilo que me dá prazer. A inspiração para mim é estar de bem com a vida.

De que forma evoluiu a sua carreira, que começou em Viseu, sua terra Natal?
Eu quando penso que faço 30 anos de carreira por vezes questiono-me se são mesmo todos estes anos, porque não dei pelo tempo passar (risos). A carreira foi evoluindo de forma muito natural, sem que eu fizesse por isso. Sempre lutei  pelo sonho. Já o disse publicamente que pintar é aquilo que eu gosto verdadeiramente de fazer. Vou dar-lhe um exemplo. Quando vou de férias, não imagina as saudades que sinto de pintar e dos meus materiais e a dedicação a este meu trabalho que amo de paixão.

Mas pinta todos os dias?
Todos os dias.

O que tem sido mais difícil ao longo dos anos?
Acho que foi mesmo sustentar a carreira porque em Portugal isso não é de todo fácil. O mesmo se aplica ao processo de conquistar mercado em galerias, que são lóbis.

Mas algum dia pensou de como seria a sua carreira fora de Portugal?
Claro que já. Mas nisso tenho uma postura firme. Se tomei a decisão de fazer carreira em Portugal é isto que eu quero e acabo por não pensar muito no resto, porque acabo por andar pelo mundo inteiro. Acho que a vida encarrega-se de nos colocar as pessoas certas, os contatos certos para a vida profissional crescer e essa tem sido sempre a minha grande aposta e confiança. Nestes 30 anos, tenho-me relacionado com pessoas de todo o mundo, viajo muito, em breve vou andar pela América Latina e a minha vida tem-se pautado desta forma.

Mas ainda faz sentido ser conhecido como o «pintor das laranjas»?
Foi com essa imagem que entrei no mercado de Paris, onde exponho já há 15 anos, mas gosto de reforçar que o Ruy Silva tem uma imagem de marca que é a cor laranja não a laranja. Antes do aparecimento das laranjas, essa cor já se destacava. E se me perguntar nesta altura se pudesse identificar uma imagem de marcada na minha carreira escolheria com toda a certeza a cor laranja, porque é uma cor obrigatória em todos os meus quadros.

Que semelhanças existem entre o artista e o homem?
São todas. Pinto aquilo que eu sou, espelho-me nas minhas obras, toda a minha sensibilidade está lá e isso significa que quem compra os meus quadros leva um pouco de mim lá para casa.

É por isso que diz que pinta a vida?
Sem dúvida e digo também muitas vezes que o corpo não é revestido de pele é forrado a sentimentos.

O belo é para muitos uma figura estética e também ética. De que forma descreve a sua pintura?
De forma mais hermética, sou um artista figurativo, pois, como já disse anteriormente, pinto aquilo que na verdade eu sou, pois os meus quadros são o espelho da minha alma.

Tem ideia de quantos quadros pintou ao longo destes 30 anos?
Eu gostava de saber mas é impossível (risos). Muitos, muitos e alguns ainda hoje me enchem a alma.

Existe quem diga que a arte no nosso país já conheceu melhores dias. Partilha dessa opinião?
Não é fácil responder a esta pergunta. Tudo depende da educação cultural que cada um de nós tem ou teve. Acho, e sempre defendi, que a melhor forma de educarmos alguém a ser apreciador de arte  é contando-lhe uma historia,   pois todos os artistas têm a sua historia, um percurso de vida e esse é, na minha opinião, o melhor caminho, um trabalho que me orgulho ter feito já em televisão.

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10 Comments

  1. Conheço a obra do Ruy. Gosto dos seus quadros, gosto do laranja. os seus quadros (não todos) podem e ficam bem entre o clássico e moderno. Gosto em particular nesta entrevista das fotos e da forma certifiva a que respondeu às perguntas da jornalista.

  2. Confesso que gosto mais destas novas linhas do pintor. Não aposta tanto no nu o que não dava para colocar em todas as casas. Gosto da imagem da Amália Rodrigues, o quadro da Mona Lisa está brutal e acho piada ao pormenor das rugas no quadro da Simone de Oliveira. Gosto de mudanças.

  3. Parabéns Ruy Silva.
    Caminho maravilhoso o até aqui percorrido e certo que a estrada que se segue trará mais inspiração para que nossos olhos se deliciem com a já qualidade a que nos habituou.
    Certamente um grandioso artista de arte contemporânea.

  4. Tenho o privilégio de seguir a carreira do artista plástico há varios anos e é sempre com agradável entusiasmo que constato a coragem com que abraça novos projectos e capacidade de sair da zona de conforto em termos criativos, dando sempre o seu cunho pessoal e talento às suas obras.
    Desejo continuar o talento deste artista conceituado da nossa praça. Bem haja…

  5. Sou um seguidor atento da carreira do artista plástico Ruy Silva, há já bastantes anos, para além de contar na minha colecção de arte com 6 obras deste magnifico pintor, entre outras obras suas. Nunca me canso de admirar o trabalho do Ruy Silva, um homem atento, com uma sensibilidade fora do comum e que nunca pára de me surpreender pela positiva, alterando ao longo do seu percurso artístico, as temáticas da sua tão vasta obra, sem medos nem constrangimentos de sair da sua linha de conforto e enveredar por caminhos sempre diferentes, de renovação, sendo sempre um bálsamo para a alma e uma alegria para o olhar.
    Parabéns pela entrevista e que nunca deixe de nos surpreender. Um muito obrigado!

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