Cultura

Coleção portuguesa de Arte Bruta leva a Madrid “fórmulas e códigos secretos”

O centro cultural espanhol “La Casa Encendida”, em Madrid, tem patente ao público até 5 de janeiro a exposição “El Ojo Elétrico”, com obras sobre “fórmulas e códigos secretos” pertencentes ao fundo de Arte Bruta do Centro de Arte Oliva, instalado em São João da Madeira.
Comissariada pela italiana Antonia Gaeta e pela espanhola Pilar Soler, a mostra reúne no espaço gerido pela Fundación Montemadrid um total de 78 obras de 41 criadores de diferentes nacionalidades, todos eles selecionados para o efeito entre os cerca de 1.700 trabalhos e 350 autores que integram a Coleção Treger Saint Silvestre, em depósito na Oliva.
Fonte oficial da Casa Encendida defende que as obras reunidas por Richard Treger e António Saint Silvestre constituem “uma das coleções privadas de Arte Bruta mais completas do mundo” e adianta que, após uma análise a todo esse espólio, a mostra “El Ojo Elétrico / O olho elétrico” decidiu apostar em “artistas de difícil classificação” que se destacam por “abrir a porta ao ‘maravilhoso’”.
Essa temática terá começado a afirmar-se no final do século XIX, após o que que artistas como Wolfli, Scottie Wilson, Lesage, Friedrich Schröder-Sonnenstern e Fleury-Joseph Crepin se tornaram referências “da vanguarda da primeira metade do século XX”.
Até 5 de janeiro, os visitantes do centro cultural madrileno também poderão conhecer, contudo, “a força dos processos subjetivos, obsessões compulsivas e visões fantásticas” de artistas mais tardios como Martín Ramírez (México, 1895-1963), Jaime Fernandes (Portugal, 1899-1968), Óscar Morales (Chile, 1951), Agatha Wojciechowsky (Alemanha, 1896-1986), Friedrich Schröder-Sonnenstern (Lituânia, 1892-1982) e Madge Gill (Inglaterra, 1882-1961).
A forma como cada um desses autores questiona “os limites da razão” resulta numa mostra com “diferentes mensagens codificadas, fórmulas, figuras inventadas e códigos secretos” – algo oculto “que se converte em enigma”, evocando “mistério, esoterismo e coisas que, na arte, têm sempre uma componente mágica e transcendental”.
Desse modo, os artistas selecionados para “El Ojo Elétrico” também atuam como “mediadores entre o mundo racional e o outro, desconhecido, fazendo uma viagem de ida e volta entre diferentes dimensões ou entre uma realidade visível e uma invisível”.
A diversidade, ainda assim, mantém-se: se é certo que no século XXI a Arte Bruta se converteu “numa das vertentes mais vivas da arte contemporânea” e criadores como Bruly Bouabré, Albino Braz e Vasilij Romanenkov passaram a ser presença frequente em bienais de arte, outros autores marginais continuam a demarcar-se por um registo mais restrito e pessoal.
É o caso dos artistas que dizem ser “médiuns, como Madge Gill, Agatha Wojceiechowsky, Anna Zemánkova, Guo Fengyi, Nina Karasek e Margareyhe Held”; dos que nas suas obras revelam “profecias, como Aníbal Brizuela e Adelhyd van Bender; dos que propõem ao público as suas “cosmogonias, como Janko Domsic e John Urho Kemp; dos que exibem na tela “mensagens secretas e encriptadas, como Harald Stoffers, Melvin Way e Berverly Baker”; e dos que optam por representar “elementos mágicos, como Hort Ademeit e Raimundo Camilo”.
A exposição “El Ojo Eléctrico” materializa assim “uma intenção deliberada de misturar artistas de diferentes épocas, sem ordem aparente, para manter a aura de mistério que eles encerram” e permitir que os relatos do seu inconsciente possam continuar a assumir-se como “reflexos subversivos perante a ordem estabelecida”

Alexandra Couto

Fotos: DR

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