Opinião

Mundo de Princesas V/XV

Cinco

Oh meu valente e militar amigo: o nosso mundo não é uma boneca de trapos nas mãos de Catarina, nem cabe, sendo todavia tão delicado, em quaisquer das bolas de cristal, modernas ou antigas, de maias astrologias, nem na visão grega do olhar e sentir a terra dos cidadãos antigos: estranha maneira de incluir os estrangeiros na cidadania: todos a vermos o cosmos no interior dos apertados limites da democracia ateniense. A fingir que não há escravatura.

O tráfico de seres desumanos é um espetáculo que dá na televisão.

E, todavia, não sendo os governantes dos séculos que agora são porvir simples bonecos nas mãos do poder, e cultos sejam os da governança que nos vão a governar com o ministro das finanças – maestro da alta finança –, abundantes partes do mundo andam a se darem por barrancos e mercados, onde dançam farrapos de gente de colarinho branco, sangue pintalgado de azul, casacos polidos em espantalhos de carnaval, todos unidos a se conceberem e desumanamente a se e a nos doerem: a dar ao mundo crises, José Campos: a ver quem rouba mais o outro: mais valias do trabalho em que te meteste: servidão na casa própria e dos outros.

Cosmogonias para descobrir: o mundo pula e avança como uma boneca ou bola colorida entre as mãos de uma criança, assim falou o poeta português: Gedeão: o universo num grão de areia, na maneira de o entender o homem da beira moçambicana, couto, o mia.

Mas, embora houvesse copérnico para arredondar o mundo, e sobrevivesse galileu que o havia de confirmar mui redondinho, sobreveio a inquisição tornando a quietar as ondas do mar. Ptolomeu: marchar, marchar. Depois o papa pede perdões em nome de deus.

O mundo é um resort no interior de um bairro de lata, ou um inviolável condomínio fechado das favelas se de vera cruz houvéramos querer falar.

Andamos a descobrir-nos uns aos outros sem a primeira e radical pergunta: quem sou eu.

Dum manancial imenso o mundo escorre e se dá no bem dizer dos poetas, banquetes do ser bem, do bem estar e bem fazer, que não vislumbram os meus olhos a negritude do céu somente, mas eu tenho a liberdade de espreitar um certo modo de se darem as mulheres e os homens nas enseadas ou nas esquinas das cidades: o darem-se assim, por exemplo, ao modo de prostituição dando, com as lágrimas lambidas nas noites daquele contraponto em que, ridentes, contavas a história dos moçoilos que, absolutamente desnudados, a polícia levou a interrogar o que faziam: o doce no salgado, a lágrima escorrida da alegria, a nudez pervertida.

Registe-se a ocorrência: eu sou policial, eis o meu crachá: um subchefe nas barbas do vosso despudor, que legalidades senhores do outro lado para não vos chamar eu nomes feios, que os há: se não há cadastro, nem camisa que vos valha, sendo esta a que em que estais metidos uma do antigamente de sete varas: neste lugar costumam os amantes ser roubados.

Não sou o que o senhor agente pensa, nada há a declarar.

Na minha esquadra a lei que vem ou que virá a dar estes ou mais direitos sempre os deu com tento e justo siso, como deus deu as criaturas naturais ajuizadamente: mulher com homem sempre há de valer: a prole da prole é urgente: há filhos pra fazer.

Não há crise demográfica. A europa é uma princesa e não pode morrer.

Acaso sabem quem foi o pai da europa, não importa, já morreu: é para esquecer. E isto não é da conta do interrogador, nem dos interrogados.

Mulher nasceu para procriar. Fora daqui suas ovelhas tresmalhadas, que hoje estou de bom humor e não quero atrapalhar: ver-me-ei ao espelho na hora que calhar, filhos da mãe.

Elas eram tantas, as coisas acontecidas, que doía de louco prazer a tua peculiar forma de as detalhar, ou de lembrar vagarosamente, tanta era a tua alegria partilhada: tu não tiveras mãos a medir no tanto que escrever minucioso, preciosamente necessário, que nem nunca te deu tanto gozo a função de escriturário: aos moços do bosque algemados e nus se juntou um grupo enorme no sopé da ladeira, as pessoas abraçadas aos mosquitos do tempo, a noite deu-se ardente naquela noite de paixões desconsentidas: as memórias, José, que tu tens para me contar.

Que tu as contas sempre ao teu modo de ator de filmes de qualidade: era como se fosse mesmo amor, António, dizias tu no final de mais um filme pornográfico. Aquilo lá era de chorar de tanto rir, não fora eu agente da autoridade: a fuga de dois marmelos de carro ao carro policial, botões para apertar, suores limpos ainda para limpar, que mais nada havia e era preciso esconder a honra familiar. Molhei as calças de tanto riso, no depois de os despachar.

Faz quanto tempo fizeste entrada na polícia. Nunca me falaste das fomes dos bairros a empobrecer nem na estrumeira das esquadras herdadas do estado novo. O tempo novo, José, é democrático. Que andas tu a espreitar na noite dos carros.

Era proibido o amor que se fazia nas bouças à beira mar e nas bravias ruas da cidade: a rua inteira era repartida: mulheres da vida daqui para cima, homens do outro lado e sem vida daqui para baixo, os arrumadores, arrogantes e medrosos, cheios de vida obstruída, ficam de ambos os lados: a fazerem as vezes de todos os pês.

Os rapazes entrincheirados no setor deles, daquele ponto para baixo como ficou pronunciado, que nas artérias da noite quem manda são as mulheres maninhas, fluxos de sangue quente nos lençóis de toda a gente, ereções dadas e perdidas, disse o compositor sem interrogações: o corpo é que paga: tudo eram respostas: não tinha porquês o variações.

Tudo parecia uma vida ruim e não era verdade tudo.

Havia a parte boa da vida: o cliente pagava bem: homens de família.

Ouviu uma vez mais teresa salgueiro no coliseu da capital e com ela sonhou, leu aleixo e o ano da morte de ricardo reis e cantou sem querer calas e leu espanca a sofrida, e outras enunciou a cujos nomes não permitiu o desenho em caligrafia, muitas eram marias, com ou sem virgindades protegidas, e com elas no braçado da memória recordou belezas que são próprias das mulheres e dos templos feitos nas eras em que o ouro vinha brasileiro e do oriente de graça e os povos pagavam bulas aos ricos da igreja para comerem do pecado venoso as carne da sexta feira quaresmal, fora a santa em que comer legumes e frutaria era quase pecado, conquanto comer a mulher o homem e a este a mulher de prazer comidos sempre foi pecado original aos olhos dos santos de deus.

Entrou na madre de deus e sorriu, tirou fotos ao ouro brunido, fitou cada imagem do teatro do tempo, tocou nos brocados e damascos do dia, ajoelhou como um crente na peça a representar e, ao sair, sem olhar para trás, puxou do bolso um papel quase apagado de tanto o ler onde uma princesa anónima e de medicinas alternativas, como se fora de outro mundo lhe falara e lhe dissera um dia, fazendo de prosa cantada uma pintura de melodiosos versos desenhada:

és um menino grande // que o mundo não conseguiu corromper // por vezes perdido, é certo, // por entre ocupações ‘indispensáveis’ // a que preferirias não assistir // mas o teu pensamento voa mais // muito mais além dessa pequenez // que te cerca // e te procura prender // Esse sorriso // de criança que fez uma travessura // está intocado // o teu olhar não ficou retido // na negrura azeda // dos senhores de opa // e mão ao peito // Cruza o silêncio // cruza os mares // a que entenderes ter direito // não te deixes sufocar // pela insatisfação impossível de satisfazer // viver é muito mais // do que procurar entendimento // viver é uma expansão dos sentidos // sem quaisquer limites // muito mais do que razão – MD.

Perdoarás, estou certa, o atrevimento.

E ele era todo perdão, intendente de desobrigações e de todos os pendões que rasgassem a liberdade. Desafeto de grilhões.

Recordou então a conversa no esconderijo da pequena cidade naquele memorial dia, era outono, as folhas amarelavam e caíam numa tarde a despedir-se quente depois do tempo: o teu poema de ontem foi uma prenda muito bonita, neste não tenho qualquer dúvida, senti-me são sebastião trespassado, mas foi muito lindo, obrigado.

Pensei que ainda não o tivesses lido. Surgiu assim de repente, sem tir-te nem guar-te, e passei-o assim mesmo, sem tempo para reler ou corrigir. Se nele te revês é porque te projetas no mundo em que te moves e andas a ver-me com ares de poetisa, concordarás.

Senti-me muito honrado ter sido objeto de inspiração, se fosse eu não retocava o coitado, nada, ou quase nada, mas deixo ao critério da musa.

Hoje estou vazia de ideias, nada de novo como podes constatar, apenas uma organização formal diversa da que tinha dado na mensagem anterior, lembras-te. Lembro sim, raramente esqueço o que me interessa. Lembro, porém, que nós só somos memória porque sempre andamos a esquecer: somos ela até ela morrer.

Perdoarás meus olvidos, MD.

Nenhum problema quanto aos esquecimentos que venham a ocorrer, o ser humano é um ser do e para esquecer: o que nos chega do passado são fragmentos, meu António. Uma confidência aqui do teclado: eu e o tira olhos gizámos um projeto para ti: doutor da igreja, com opa e tudo, joelhos debaixo da mesa do senhor: pedro sobre ti edificarei a minha igreja, podia constar de um santo concílio. A mim é que terás de perdoar atrevimentos.

Gostei muito do poema à mãe, António, acaso fizeras homenagem ao andrade, poeta maior, estando vivo ainda. Não, foi uma simples glosa, o monstro mora no olimpo. Eugénio. Quis mostrá-lo ao nosso Tira Olhos, mas não o fiz por carências de autorização.

Ao confiar-te o poema à mãe não dispus restrições, foi a saída do degredo donde se encontrava na sacra pasta de um baú, se um dia acontecer pedir-te segredo sei que respeitarás; depois, o Tira Olhos, como dizia o energúmeno que te beijou na igreja, é dos nossos.

Quiseras tu cuspir nos olhos do impostor e não te saiu senão o enrubescer.

Perdoa o sarcasmo da ironia, não volto a falar-te do provedor da real e santa irmandade. É sobrinho de um bispo auxiliar acusado de bombista, o provedor não sabe da mácula de um beijo disfarçado: violação da sacristia, lá onde se contam as esmolas do templo, lá onde as mulheres são apalpadas e os meninos e as meninas vão rezar atrás dos andores do senhor, Maga Dita, a fazer que treinam para a procissão dos passos.

Ecce homo, gargalhou o Tira Dentes sem saber do que zombava, MD dançou os dedos a tremer de veias e nervos torturados, e disse que a morte nietzscheana de deus é verdade mais que literária. Tudo a ocidente ela viu viscosidades: vou numa tarde de yoga, companheiros, vou sozinha ver o mar.

Sustive a respiração do início ao fim, e qualquer elogio ficará aquém do que senti ao ler-te as emoções do coração. Por isso, aceita agora a minha respiração ofegante. A tua imensidão do mar é a terra firme indubitável, foi boa ideia transvasares no por do sol.

Arrepiei-me e quis chorar, abraçar a tua infância que contigo se deita e dorme intranquilamente, beijar os teus cabelos lisos de menina encaracolados de uma nuca pouco atenta a certas convenções.

Horripilante, seria esse o epíteto dos teus doutores, criança terna e enorme é o cognome que te reservo nesta hora quase sideral.

No que dizes leio toda a tua sensibilidade, li-te exatamente como és e quiseste transparecer, e revi-me em coisas que disseste, olho para trás hoje e também me sinto terrivelmente só tantas vezes, até no meio da multidão que me rodeia.

Outra pessoa a falar-me de solidão, sabes que tenho um amigo que me confidenciou coisas impressionantes acerca da solidão dele, eu não fazia ideia nenhuma que os homens também choravam, sou um desatento, quem assim escreve sente-se só necessariamente, mas ela, a solidão, é um dos problemas mais graves da humanidade e todos nós concorremos para esse fenómeno, todos nós nos sentimos mais ou menos sós, alguns conseguem lidar melhor com isso.

Isso, o monstro gerador de vazios, pode ser servo da criação, deus estava só quando decidiu fazer o mundo, pode ver-se no livro sagrado. Génesis.

Sentiu-se menino outra vez o António e, na urgência de um instante, daqueles fugazes momentos que não deixam pousar o sonho nem o belo da poesia, da música, da arquitetura, do teatro, da pintura, da apressada multidão a ver se descansa desamores, despesas e solidões,  numa maneira silenciosa de entrar entrou-lhe a Antonieta na mais arrumada das perfeições, agora definitiva, logo a cantar aflições e tudo eram recordações de outra índole, conformemente a pintura de verdades primeiro, disforme da natureza dos projetos que fazia, ou que no antanho e de bem intencionado houvera feito: mas foi tão só um telefonema em demandas de dinheiros, o resto já se sabia.

Não é preciso repetir, António, ela é maluca e a culpa é toda tua: a tua liberdade louca, a tua educação destrambelhada, fizeram da nossa uma vida desgraçada. Fizeste a transferência. Claro, eu sabia que vamos ter de abreviar: tu e a tua mãe têm dinheiro para gastar.

Não, isso não é saúde da cabeça, isso é maldade mental.

O terrorismo de estado anda no golfo no ar.

Caem bombas no oriente médio, mil torres gémeas foram derretidas.

Os cogumelos camicases em terras áridas e pobres a germinar.

Tudo era paz e amor na freguesia dos lugares: correrás as sete colinas e mergulharás no oceano a ver o horizonte de puro sal em noite solar, em dia lunar.

O calcário sob o seu olhar de aprendiz de coisas que evocam bonitezas, brancura pós terramoto, sabendo quem sabe que a calçada alfacinha em granito portuense começou por causa do rinoceronte, por ser imperioso e manuelino, que a besta não enlameasse as elites do esterco  e das redondezas do paço, obra dispendiosa no tempo em que a pimenta pagava a ruína do reino, desces a avenida do marquês ao rossio, a calçada a esconder a terra e destrinças nela as siglas dos calceteiros, os barquinhos, as estrelas, as flores e os graffitis, signos sinais embelezando e escondendo o chão, vais a ginjas agora com elas, ao chiado, a santa justa, à rua augusta e à praça do comércio, que deixou de ser terreiro do paço decerto para se calcetar – ordem nova novo nome no velho lugar –, rutura por obra e graça de sua excelência o marquês e sua burguesia estrangeirada.

Tudo homologado pelo rei: José, o primeiro e único de seu nome até ao fim da monarquia.

Toda é um corpo sedutor e feminina: a gare do oriente ao pé da exposição universal a fechar o século à grande, deslumbrantes pavilhões a prometer futuros, o último centro cultural, emblema maior do poder descompensado, complete-se a obra do asfalto começada, os teatros e palácios de arquitetos, pedreiros e canteiros e de todos os de quem a história sempre tem amnésias.

A visita ao aquário é infernal: de uma beleza que esmaga.

A Catarina tem arrepios de emoção e dos medos da tanta gente e do tubarão que saia do seu lugar: o tanque é maior e mais cerca do que julgara. Depressa, meu pai, a Madalena já viu tudo.

É preciso comprar a última boneca.

O prometido é devido, princesinha, dá mais um abraço, ergo-te ao ar. Tu prometeste meu amigo meu pai meu querido meu tudo que vai fazer a última boneca. Não meu querido esta é mesmo a última e prometo que será mesmo a última. Mas tem de fazer coisas andar ou rir chorar brincar dormir quando me apetecer como as princesas meu marido tu és meu António.

Pela noite levarás ao teatro a Madalena, ou a ti te levará ela num faz de conta que há alegrias no ar: à catedral da luz levarás a Catarina, que bem merece seja cumprida a promessa de pequenina. As praças e avenidas foram feitas largas para correr, pare-se o trânsito eles vão a passar, alcântara, alfama, o bairro alto, belém e a estrela, o castelo também a ver se o tejo é menos do que merece, a olhar, olhar até descobrir o jardim do alto de santa catarina onde o reis do pessoa saramago lia o jornal e o entregava aos velhos antes de amar sua lídia.

Aqui me tens, feliz, um milhão de vezes feliz por estar sozinha. Eu queria tanto ir e não quis ir, eu quero esta coisa segura de estar na berma da estrada chorosa e sozinha. Este ar que respiro sendo à crua luz rarefeito e frio, benfazejo da alma me é e não custa tanto a eles: aturai-vos uns aos outros, deveria melhor ter dito deus. Se deus fosse benigno. Eu sou a que fica em casa. Só. Com ela.

Cresceu na delinquência das avenidas da cidade grande, nos berros da noite andando nua e fria, o preço e o calão, as mulheres sem vida, o drama alheio não é de ninguém e a mim pertence, nas águas furtadas dos lares da pátria, nas imediações da liberdade, com e sem mártires, na casa velha da cidade grande com os aromas dos lixos privados, das públicas grandezas de um fim do mundo.

Um sem fim de aldeias fazem da cidade grande uma terra anã à luz da minha aldeia: a mais bela, a mais poetizada, a que ganhou todos os concursos da minha alma, continuando nós os meninos a ser meninos. O meu pai é uma criança grande.

Com fundo heroísmo e inaudita convicção, balançou-se ela um dia nos ombros do pai, por libertações do detido militar, agora metido em convulsões pirotécnicas próprias da revolução, querendo agarrar uma, duas balas que rasaram o horizonte da estrada poeirenta que fazia de termo entre o povo unido e a polícia democrática, que agora bestial, mais besta mais, mais tarde o homem foi libertado e não houve derramamento de sangue.

O pai abraçou o rebento e rebentou de riso e de lágrimas no fim do recontro.

Havias de lá estar, José, para o imortal momento, da pose, da fotografia: a cores escurecida. Tomamos um café ambos os quatro: com o tira olhos e maga dita: a ver se dá.

Estavam os dois de pé com as suas dramaturgias, a ver passar o povo que ia a votar, a ter medo que o povo votasse, que pode este povo bruto não acertar com o quadradinho, num país onde até os mortos votaram. Shakespeare havia concebido o drama, havia que o ler, não o do romeu por ser pilar do drama maior, do patético em versos, mas o do monarca que tinha um reino para deserdar a filha que menos amor endereçasse ao seu velho amo. Lear: o rei vai sempre nu, ontem como hoje a rede somos nós, inventando-se novas em homenagem às novas tecnologias: deusa do mundo novo. O presidente, ainda não o sendo, anda a atirar-se ao mar: boia de salvação num país onde os beijos são fáceis de dar: os pais andam à roda do presidente a ver se aprendem a ordem dos afetos. O mundo é todo amor e desigualdades.

O António lê os humanistas para melhor compreender os meninos todos do huambo, com ou sem roda, com ou sem a fogueira: excessivo caminho nos desertos da vida.

A pobreza como a desigualdade é coisa que parece universal, parida na genesis da intemporalidade, obra incrédula de deus que por altivo capricho doou as liberdades do agir e do pecar ao adâmico pai e que por mor dele, e dela, andamos todos a espiar pecados. Que herança, José, que loucura, Madalena, o mundo foi inventado para a Catarina, uma das mil princesas que podem salvar o mundo.

Camões não ficara a ver navios líricos de prosa, feitos com o novo e o antigo que ao velho convencia, havendo antes feito muitos filhos à língua que dizemos dele, partindo do restelo e por degredos muitos andaria, em espalhando a fé e as letras conforme soía na era quinhentista: com o brasil, angola, moçambique, guiné, cabo verde, timor, tirante todas as terras onde pululam linguajares lusíadas, tudo são milhões a nos falarem e nós com tanta solidão nas mãos.

Os outros poetas e humanistas de berço e esforçado engenho que nos desculpem, temos pressa de chegar ao cais de embarque. Antonieta está-me nas mãos.

Foi trinco na equipa escolar e voluntária à força, não fora perder-se a liderança feminina, e muito estimada das senhoras professoras. O seu riso ténue contagiava o céu estrelado das noites sem luar e minguantes. Todos admiravam a segunda princesa, pese a disputa adversativa travada pela espada do pai, fosse qual fosse o coração estilhaçado, nem o da mãe, ameaçado intermitentemente pelas estâncias do amor que sempre medram nos charcos da urbe. Do mundo.

A mãe perdia e a filha sentia e o silêncio era a mais cruel significação do nada que jazia, crescendo, crescendo, crescendo. Madalena sabia sofrer: fez o curso dele.

A minha mãe padece de uma grave doença mental, até o meu médico já mo admitiu: sofre de loucura normal. Ela deteta nas pessoas em geral e nos jovens em particular todos os sinais indiscutíveis de loucura: as pessoas hoje em dia não são normais: a juventude é louca, é doida varrida, protesta na travessia dos dias.

Logicamente, a minha mãe é o paradigma único e exclusivo da tonta normalidade.

Aborrecida, dorida, demente e passada de loucura normal, a minha querida mãe fora uma jovem encantadora até ao momento de me ter. Eu fui o ocaso da sua felicidade colorida. Doente sem o sentir, diz que a doença se sente, parecida comigo nas coisas mais ruins, isto é o meu velho que mo diz, a minha mamã tornou-se numa mulherzinha insuportável, dona absoluta do império do bem e da casa que ocupa como se fosse uma imperatriz sem trono, matriarca da pobreza mental.

Tem uma coisa espantosa e muitíssimo admirável: a dona Madalena não se inquieta nem se atormenta com as minhas maleitas, nem sonha que a dela é a minha sina.

Chama-lhe loucura, de dentro da sua concha dogmática: uma cambada de loucos, não te fies na camisa que trazes vestida, aos ouvidos defeituosos dele, deste homem feito sem caráter segundo a ordem da sua normalidade, mas o seu zumbido justiceiro atinge nos desdobramentos toda cerca da casa velha: e da Catarina.

Não fora a primeira princesa diminuída e toda a família buscava a psiquiatria: se e quando as sessões acontecerem, na voz anunciada e que há de vir, a nossa eterna menina em todas as ocasiões há de participar e dizer que é feliz: tremenda de entusiasmos e a ser feliz: graça de todos os sonhos em nós plantados nos loucos tempos da criação.

Ao contrário do doutor José Maria, jovem aliado das minhas anemias e das nossas inocências reunidas, e que de olhos nos olhos, fixos e aquecidos como é costume nos primórdios da função, de alma e vela erguida ao vento setentrional, para que houvesse bússola, quando volteava ele já meridiano e em desnorteados rodopios, não ostenta o frio brilho do olhar quando me fita, de longe a longe, quando me dá na vinheta de suportá-la na magreza do seu trono imperial.

Não vive preocupada, ao contrário da Catarina, que, segundo a voz rouca de despudor do meu pai, que mente como a gente, não cessa de lhe suplicar notícias boas de mim. Boamente ele lhe leva as novas mesmo sem as haver: apesar das cartas que o pai carteiro nos leva e trás semanalmente, onde ela ao seu jeito e eu ao jeito meu, enganamo-nos uma à outra irmãmente. Ela não pode ser crucificada, não é a irmã dos meus sonhos, tenho compaixão e raiva, desprezo e um amor feroz por aquilo que ela não é, não pode ser.

Oh irmãs. Princesas. Eu queria ser a primeira, não custava nada, mas até esse pequeno estatuto perdi a favor da Catarina. Também ela herdou o egoísmo do meu pai: quer ser a primeira em tudo.

No fundo, temos algo em comum, agora falo da velha, até o meu pai atestou e fez questão de me lançar a instigação: vivemos felizmente felizes, cada qual com sua doença, todos com saúdes possíveis, que podia ser pior. Sempre pode ser pior, meu velho meu amigo.

A cisma dela, porém, é muito mais opressiva que a minha: para além de sofrer de loucura normal, a minha mãe mata-se a trabalhar para aprender a morrer trabalhando. Mesquinha, nem frívola chega a ser, é uma mulher de qualidades que só o meu saboroso pai descortina. Como o meu pai é feliz tão maltratado.

Que descobridor de vazios. Decerto é um gigante fingidor de fingimentos existidos.

Fora eu maldosa ou medrasse na coscuvilhice universal, mestre amadora de intrigas e entrechos enredados, e sua amada de plantão, uma tal MD, pusera eu a língua afiada e não mais nunca mais rezaria entre as linhas do ecrã esquecidas, confidência que de todo em todo havia de rebentar com Madalena, se dela entendesse uma só palavra.

Ouçamo-los aos dois, enamorados à sombra de Platão apaixonados: durante muito tempo andei presa a graves problemas do passado, como a maioria das pessoas; uma depressão foi vindo como se fosse a visitar-me e eu a deixei entrar dentro de mim, mas não me vou deter aqui, António, até perceber que se me virasse para o passado e me centrasse naquilo, é isso que ele te trará: um trago mais de solidão; se me centrar no futuro, ansiedades de boa cepa, logo e logo, sempre e sempre concentrada, só fico com o presente e mais presente e mais liberdade; e quando consigo fugir dos homens e das mulheres normais e cingir-me ao agora em que te escrevo, sou imensamente feliz. Nas minhas medicinas orientais aprendi um segredo que te vou contar: a simplicidade. Vou ver se aprendo contigo, eu tento isso, mas nem sempre consigo, mas deixa-me saber se te consideras livre da depressão, sim, considero-me completamente recuperada, há dias em que consigo estar assim por inteiro, e de facto a vivência torna-se muito mais fácil, não preciso de me preocupar com o mundo, porque o essencial nem é isso, o essencial é conseguir viver. É ou deveria ser tão simples, assim.

A nossa conversa até parece real, eu volto aqui logo à tarde, e está à vontade que aqui ninguém vem: a password está guardada.

Vou contar-te um segredo, daqueles que não se pede para guardar, o tira olhos deve suspeitar: em noventa e sete foi-me diagnosticada uma depressão, não sei se irreversível se de estância efémera, acidental, ainda não me libertei dela: a filha da puta aperta-me o pescoço, não me deixa respirar, a garganta seca, a voz desaparece, tenho de ficar quieto: preciso de ti Maga, da tua respiração.

Relacionada com os problemas da tua filha, não sejas insinuante António.

A ansiedade é o húmus de todas as depressões, não. A ansiedade anda intimamente ligada ao medo, ao imprevisto, ao por acontecer; e também a coisas de crianças não resolvidas e que te magoaram, pelo menos comigo foi assim, ainda lhe aliei o inconformismo atinente a determinados factos.

Eu era todo muralhas de pedra e saibro sem cal com cunhais de aço: uma das muralhas andava a desmoronar-se, a minha bandeira de eleição a esfarrapar-se, o meu ancoradouro predileto movediço. E como se chamava essa muralha de que falas. Antonieta, a tua primeira e melhor amiga. Eu sabia. Nós sabemos.

Hoje não lhe diremos mais que o nome, nem a pobre pode ser culpabilizada: eu tinha a direção do centro de saúde, a papelada, nos sapadores bombeiros era voluntário, doutorava em santiago, e tinha uma anorexia nos braços: o corpo e a alma começaram a vacilar.

Tive ciúmes do meu pai: oh Antonieta, tu aqui não leste nada.

 

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