Opinião

Mundo de Princesas VI/XV

SEIS

Estivera a noite quase inteira sem adormecimentos, nu e inteiro a ele entregue na contagem dos carneiros que há no céu, à espera da dose que sempre vem, sempre tardia a deitar-se na grandeza de ambos os braços, eu nos braços dele, ele nos braços meus. Morfeu.

Vergílio, julgara a noite das pessoas como um amanhecer submerso à beira da última página de te ler, ferreira. Foram as palavras que não deram consentimentos à morfina, ou fora a presença deles que estorvara a dormição.

E eu sonhando que lia antes do adormecer, e agarrado permanecia naqueles braços do sonho, no limiar da aurora em modos de se vestir para aluminar o sol do novo dia, o astro alado a nascer e a entrar vindo do oriente como sempre é de rotina, e, embrenhado num intrincado monólogo a pensar no outro e mais fingido deus, porque escatológico e amado de multidões, destilando blasfémias, heresias e imputações, e ao seu anjo eleito o maior por demo ser expulso do céu, ia dizendo afugentamentos, cânticos ao mafarrico da vida, ditos que mais parecem, agora à luz do dia expostos, súplicas de torturado dormente.

Então sonhava pensando que dizia no tal monólogo anunciado: um dia vi a deus, quando eu o temia e acreditava nos superiores e extensos poderes dele, qual pantera que ataca adormecida, e que, ao acordar, sem a dormir estar, liberta um grito de solidão num esforço de atrair todos os animais a solidárias terras a ensinar os homens, para os matar na predação em flagrado delito, humanas e vãs fraternidades em termos de súplicas e ordenações, e, então, acerquei-me dele e ele, o deus que se quer exclusivo e universal, dececionou-me, não pude ver nele mais que a minha precária vida;

não soube mais ensinar-me que te recusasse, diabo, assim, sem mais, sem agravo nem apelo como se diz, julgando-me um homem de fés destemidas, irrefletidas como naturais são a maior parte das razões do crer, talvez por isso o medo de estar só na escuridão dos dias guiou-me ao universo da psiquiatria, espaço de eleição da tua atividade criativa, curvei-me então à falácia gigante dos processos curativos – toda a família anda doente, diabo –, a humilhação dos doutores acrescentou um colorido tinto ao vermelho do meu sangue, azulei-me, discípulo de deus, acinzentei-me anjo caído do céu de todos os mitos e religiões;

colori-me na paleta dos pintores que hão de celebrar a verdade a que tenho direito, oh, puro fingimento, eu comi o teu pão amassado no teu riso vindo do céu e no grande eco desdobrado dos teus ecos: ecos de deus;

tu caías e deus acudia e dava esforço por meter a gente na absurdidade, a puxar-te pelo rabo, a puxar-te, e a dar-te as liberdades de um livre arbítrio sem tamanho nem limites de se verem, que só um despertar pode diminuir.

Acordei soado soando e a displicência não me deixou arejar o leito, sequer abrir as janelas e ver com olhos de observar o ar a sair das nuvens e a carrear os milhões de ácaros havidos, ali procriados entre mim e ele. Morfeu.

Pude ver-me ao espelho para conferir a ramela que de tão dura tive de humedecer os olhos para ver melhor a minha condição canina, sorrir de mim, com um obvio e sincero pedido de desculpas ao animal: a cadela da princesa é tão bonita e tão sensível, mas hoje não pode ser minha amiga, nem tentes proximidades, e ela, a diabita, compreendeu e volteou-se triste e atenciosa da sua humana sabedoria: a minha dona princesa precisa de mim, por enquanto; eu durmo nas suas noites, disse ainda no olhar a cadelita, ambas agarradas como duas desamparadas, na mesma almofada, amando-se no calor do frio que faz, sem sexo suas cabeças de malícia, até que um dia venha a cama a arder e tudo serão aflições de outro mundo num outro conto: ele que o diga. Ele que o conte.

Espero que atendas a este confuso modo de falar a três, continuei no monólogo único – eu, deus e o demo e era só eu que falava –, não fora todo ele sonhado como patente de uma terrena e chã trindade, mais divina, mais humana, a esta voz de suplício e de esconjura, como, de comer mesmo como diz a palavra, como o diálogo possível que travo contigo, decerto não o derradeiro, dicções cuidadosamente pensadas como estratégia para te vencer.

Comer o pão que o diabo amassou é um provérbio que já foi comido.

O pão que teimas em dar às princesas poderá, quero crer que sim, ser a hidra domável, o basilisco que tem um olhar mortífero, mas que, como mata não suporta a luz: luz e água de cristal a tornar claro o espelho embaciado pelo verdete do teu tempo. Vou acordar depois do pesadelo: diabo de deus. A vida também se faz de dormires e acordares.

Para quando o fundo do poço, exposto e aberto, aguardo o bater bem no fundo dele, não, o incêndio no quarto não vem aqui agora à delação, este incidente malogrado calo, por enquanto, obedeço a quem escreve e narra este mundo de princesas, que, malgrado tu e ele, também é composto de lindezas: vai de retro satanás, e isto o digo conforme a boa prática de dona Maria Ana no dia da benzedura. No dia do internamento que está por contar. A vida tem tanto que contar, cadela, por que me olhas assim.

Entrei no silêncio alegre do meu ser turgescente.

Está na hora de abraçar a princesa Catarina.

Chegara a pequena na data acordada – o vinte e um de julho, dia do nosso calendário –, como era de costume na cultura familiar, sempre metida na esfera dos seus cerca de vinte anos de inocências bem sonhadas: tantos, eu não sou uma mulher, eu quero ser uma criança grande como o combinado: chegava abraçada no gáudio de uma viagem intercidades como se acabasse de atravessar os continentes todos. A encher a pequena casa.

Todos os que a viam ficavam espantados: continua menina sendo mulher de idade, uma vez mais a vida cheia trazida da cidade grande, loucas alegrias sem explicações e de graça.

A música sem preconceitos, comercial e pimba, erudita sempre que calha, mornas afro e americanas, mães de camisas negras sem os choros ameríndios, valquírias célticas à solta, com ou sem divindades, a letra é que vale, rocks e metal quase rap nas gargalhadas de as escutar, a falar e a fazer perguntas, as vozes dulcíssimas com nexos reconvencionais do altar da casa grande onde o mundo fica a repousar em dias de verão, algazarra de festa toda ela hinos de vida, agora tudo a rondar indizíveis e indemonstráveis belezas que não são de se mostrar nem de se dizerem, é premente descobrir no que não se quer mostrar e tão pouco se diz e entretanto se demonstra, se espalha orgulhosa e livremente pelos caminhos que leva sem pisar: a mesmíssima alegria estonteante: enchentes de sal.

Felicidade bonita de se ver nos olhos de todo o corpo, de se sentir na partilha dos abraços apertados até ao começo do doer, de se apalpar na luz que vaza e ilumina as sombras que entretanto as também há tornando o drama mais clássico mais presente mais real.  Como estás Antonieta, aqui estou sou tua irmã.

Pareces uma árvore de natal, dezembro vem aí, é só esperar. O trem a partir, a irmã a abraçar, a sagrada família tem um peso de chumbo para segurar, tão quase agora chegou e vai abalar, tão quase a levitar na leveza que acabou de chegar.

Não houve levitação: a outra princesa não pode esperar.

Toda a bagagem, é assim que se chama, vamos lá buscar meu querido que a mãe disse que também é para condutor que tu tens de trabalhar, e ser doutor em santiago, mas vais sozinho neste ano, que eu quero mais verão em casa. Oh, meu amor, querida minha, este ano não vamos à corunha nem a outros galegos lados, só se formos a sítios asturianos onde deve haver a última boneca pra te dar.  Estamos combinados, no próximo ano meu amor.

Iremos a todas as terras da ibéria procurar, às das europas se preciso for, sempre a procurar. Será que a nossa filha vai desta vez: este é um assunto que temos de conversar: a irmã anda-se a curar.

Eu sei e vai ficar sempre muito boa a nossa princesa minha irmã, eu leio as cartas e os ditados a caligrafia está a melhorar e as vírgulas, o ponto final, eu prometi, mas agora levanta-me mais uma vez ao ar: só mais uma vez: muitas e muitas vezes que eu estou a gostar.

Hoje temos de ir ver o mar, princesa, antes de se esconder o sol naquela viagem noturna que faz até ao amanhecer. Isso não é verdade, tu tinhas dito que era no rio nilo que o povo acreditava nas viagens do sol do mundo dos mortos até aos mares do oriente, lá onde ele nasce outra vez para regar os campos de toda a humanidade, se chover: dádivas do pão depois do florir, depois da rebentação.

Tem de chover para que todos os cereais rebentem, auspício das searas.

Involuntariamente, a Catarina toldou nesse e noutros anos os excessos de alegria que a sua chegada podia sempre provocar, tão alto se ouviam as risadas, tolhendo a voz de Antonieta e a inevitável sonoridade das palavras verdadeiras foi perdendo o tom até se calar. Antonieta não ralhou, não disse nada, bastou o olhar.

Pôs-se como se metida de luto, muito quieta e a escutar, a olhar de negro o brilho do olhar, e depois começou a pensar de si para si, e as palavras que lhe subiram foram as seguintes, aqui resumidas para não cansar: o milénio está a ser novo e a moeda nova virá, dizem que é o euro em homenagem ao mito que promete rebentar com a vida das pessoas: uns dizem que sim outros que não, logo se saberá se foi verdade o rapto da infante divindade: a mitologia está cheia de belas maldades. Ganimedes.

Prometeu não disse que dava e cumpriu, agora acorrentado: eu sou uma representação canhestra do deus agrilhoado, sou a que não cumpre nada.

Europa, tu não foste a única cobiça de deus e serás palco de hediondos crimes, na sua maior parte divinos, muito humanos, há os da natureza que temos de descontar, e se o fogo foi roubado para dar ao homem haverá castigos de holocaustos em nome do juízo de deus. Cumpra-se o juízo final: a procissão está no adro. Auschwitz.

Hiroxima meu amor. Nagasáqui para que seja maior: a dor de te queimar.

Zeus disfarçou-se de touro para hera não entrar na sabedoria do rapto, ciumenta e cruel tudo era de esperar de hera, deixa-me pensar, pensar enquanto eles os três falam: em creta pariu europa seus três filhos do pai dos deuses, que deram filhos aos filhos: o adultério afinal não é crime, senhor islâmico, também não é pecado, senhor doutor da era cristã.

Tremia-lhe o corpo todo frente àquela realidade ineludível; escassos minutos lhe eram dedicados, ausência das ausências, um beijo fugaz e um abraço medroso e quase imbecil saídos de um corpo inapropriadamente talhado para a fraternidade familiar.

Eu gosto muito de ti. Como soava a aparência de piedade toda aquela verdade: uma despedida quase antes da chegada: todos a olhar.

Estranhamente, esta aparência de rejeição – o mundo é feito de aparências visto à luz das colossais platónicas e cavernosas sombras –, não interferia, de verificado habitualmente, na felicidade de Catarina.

Dos olhos dela irradiava uma compreensão e uma generosidade eloquentes, uma compaixão, uma calma mental e uma visão penetrante que podia quase fazer-se-lhe adivinhar uma aproximação do estado da budeidade. Que menina feliz: não havia quem não amasse a primeira, a menina que teimou e venceu o concurso de ser criança para a vida inteira: uma criança grande, deixas.

Esta família não me pertence, reprovo-a no silêncio e no desgosto que mais ninguém é capaz de sentir. O meu ídolo supremo foi-se na musculatura gorda dos seus trinta anos, a minha mãe nunca chegou a viver em mim, renegamo-nos biunivocamente. A Catarina, a pobre, é tonta. Como gostaria de ter uma irmã a sério. Como gostaria de ter uma irmã a sério, repetia, mesmo que saída de uma boneca de trapos a que chamamos mãe no antigamente da infância.

Eu pedi ao meu velho, num belo dia em que os dias brilhavam, uma mãe segunda e confiei-lhe mesmo a simpatia e estima e admiração por uma sua amiga mal arrumada, como ele me confidenciou, cuja vida trágica me fascinava na exata proporção de querer dela um filho do meu pai, ela que perdera o seu no desastre de viação.

Parido do mesmo pai, de uma mãe outra. Com o seu sorriso abonecado, o seu humor misto de campo e cidade, o meu pai desapontou-me: sem negar um secreto amor que já há muito eu descodificara – as mãos enlaçadas num íman que só eu vi e senti a três, um bonito adultério, assim interpretei na beleza lúcida dos meus doze anos –, disse-me claramente que era tarde, que eu não teria uma segunda mãe, que era eu mulher crescida e que ele, meu querido e idolatrado pai, tinha mais que fazer do que meter-se em sarilhos, que a vida lhe estava sobejamente ensarilhada.

Mãe só tens uma, dona Madalena e mais nenhuma, conversa encerrada.

A Antonieta leu o desprezo soletrado, refletido, no rosto amendoado da inocente, parecia-lhe que a primeira princesa compreendia afinal tudo e a detestava sem inocências enganosas.

Certo é que Catarina quase nem carimbou Antonieta para não lhe toldar ainda mais a vida e, inteligente, desembaraçou-a: onde está o meu Jonas, onde está o meu amigo, não veio à estação a me buscar, ele prometeu nas tuas cartas, dela, quis ela dizer; pai, ajudas a guardar as gulosices na despensa, e o sumo, e as outras lambarices, isto disse ao ouvido para que todos melhor abrangessem.

Não se diz nada à irmã, para não haver desgraças, que a Antonieta nunca mais está boa. Mas ela vai ficar muito boa, um dia, sim, um dia tu vais garantir e não vais descumprir. Prometes, irmã.

Porta bem irmã, porta bem princesa a primeira.

Pudera eu e não sei pintar em santiago as letras da sinfonia maior, que todos conhecem e quase ninguém escuta, que o escutar é veramente diverso do ouvir a nona beethoveniana, que eles lá são como nós os de cá, ridículos numa pequena cidade património da humanidade, com apóstolo e tudo e não escutam quase nada: o bota fumos da catedral é um espetáculo vistoso ó crédulos pasmados, labaredas do santo mártir, lumes de arder no incensário, êxtase de excitados rapazes da hispânica irmandade e mescla de todos os prazeres; pudera eu dar prosa aos detalhes do quando outro mestre el mateo o escultor medieval andou no pórtico a glorificar o templo, basbaque, basbaque, eu quero entrar, ajoelhar, meter as mãos na pedra e aos pés do santo beijar e então é só pedir os meus desejos de sonhar: santo deus, Antonieta anda-se a matar, mas deus não sabe ver nem ler, deus é como a maioria dos homens e mulheres do nosso tempo, vendada, que não sabe ler o ensaio sobre a cegueira: a nossa e a dos malvados deuses.

Com deus não se brinca, escutou de Madalena irado, deus anda a ser usado nas bocas da corrupção e sempre foi e será vendido por apócrifos evangelhos, quer os manuscritos de cada um do apostolado quer o segundo jesus cristo semeador de tempestades, sem falar dos do mar morto hoje guardados no museu do livro na cidade santa, em disputas sem fim com pedras e mísseis a disparar: se são dos aguerridos da palestina se dos judeus empedernidos.

Jerusalém: palestina eras, israelita seguirás.

Haja fé, António, por que vais a santiago.

Eu vou a doutorar a ignorância das minhas arqueologias em descobrimento permanente, uteis para os centros de saúde da minha diretoria, há quem a isso chame formação, que dá créditos dá, em velocidades de autopista em construção, louca loucura, mas haverei de me ditar por pedestres caminhos de peregrinação por inventar, que a tanto podem minhas pernas de lebre longe dos livros de reclamações, que doutorando sou de verdade, não ando a inventar viagens para ver homens em disputas por mulheres nem estas em lutando por aqueles; e quanto às peregrinações, toma no teu juízo mulher aquelas que tenho em mente e que, assim, seja como seja,  serão obviamente mister fazer: o caminho da costa e o central, os da ibéria de lés a lés, o francês, o italiano, o inglês, os da europa inteira, e o caminho americano se o houver.

Tresloucou o homem, não se calou Maria de Magdala.

De leste a oeste altercarei nas estradas, nos carreiros estreitos de cabras e nos caminhos dignos de cabrões todos a caminhar como disse antes de morrer o meu homónimo:

caminante no hay camino // se hace camino al andar.

Morreu o mestre andaluz no exato ano do fim da guerra desta mancha peninsular, com führer e il duce a ajudar franco no bombardeio que diz a história foi civil e foi militar: tocha do fascismo a singrar em todo o hispânico mapa: fevereiro de mil novecentos e trinta e nove, o ano da morte de machado. António.

O mercado fora arrasado, as bombas a nascer e a semear nos céus de guernica para que houvesse pablo a pintar picasso ou a desgraça em paris sob os holofotes dos noticiários: a barbárie a preto e branco: hoje pode ver-se no museu de arte contemporânea da capital. Sofia, a rainha.

Picasso congelou a era das ditaduras, lá como cá, a brutalidade a destruir os sonhos das pessoas. Como se fora o machado a dar vozes de não cortar a raiz ao pensamento, que não há machado que o corte, havia mais tarde de cantar freire em musicando oliveira. Carlos de, no solo português do mundo.

António com o machado das palavras andou e foi a morrer, depois da fronteira, depois de escapar, a imortalizar a vida e o sonho, todavia, dizem que a morte com seu alfange tudo acaba por levar o tudo e ficam os vazios e aos povos dar-se-á uma carta com os direitos todos humanos, e deveres. Deve ser por isso que se discute hoje nas redes sociais, de forma malcriada, numa espécie de prós e contras a descambar, o vasto e largo poder que sempre corrompe, com uns figurões muito inteligentes e cultos a brincar ao antigo sangue derramado, assim, a ver se dói, se é verdade, que a democracia anda a vacilar.

Otimismos de solidão e fome de paz. Sobra guerra à humanidade. Pedra filosofal: nostalgia sideral.

Tu não ouviste nada, Madalena, estava só a pensar de quando fazias parte da peça de teatro em que fizeste o papel de trabalhador triste: que bem que tu representavas. Mas o triste és tu, António, para quê tantos comprimidos, os homens não valem nada.

E finar-me-ei tão descansado somente, Madalena, quando a finisterra ou à terra corunhesa de muxía chegar. Não te consumas tu Maria Pita, desculpa, Maria de Magdala, minha querida e amada mulher, quando a corunha voltarmos levar-nos-emos à praça de que tanto gostamos, branca e areia de luz a espreitar, e ali, bem juntinho à estátua, receberás teu novo nome daquela espécie de maria da fonte deles, ícone civil da cidade de prata: maria pita.

Batismo a consagrar: António, o tresloucado.

Madalena, é verdade, e soltou um estrondoso gargalho, com cabeça continuarás, com ou sem fome, deixa essas miudezas para a tua filha desregrada, agora o teu destino é o de pita, a praça a que nos vais levar.

Ó meu pai tu és o nosso herói, o nosso firmamento, a luz caliente que há de vir no lugar das sombras: depois do sol, das noites do luar sem o brilho das estrelas, Maria Madalena, por que estás a chorar, não chores mãe. Às vezes choramos de tanto amar Catarina, às vezes suamos do tanto que pensar António.

Antonieta, tu nada dizes nada desde que partiste, quase antes de chegarmos.

A sinfonia arraiou as notas musicais dela, ecoou na casa pequena onde estão de novo todos os três, aqui, no riso de todas as cores, nos quentes dias, formidáveis, tangíveis, da imensidão de Catarina: o meu pai meu marido vai dar-te sempre um novo nome, vamos ver o mar. A bola de fogo de que o nosso pai fala e eu já vi.

Olhou o olhar sombrio do pintor, reuniu as ideias de sair, todos entraram no carro a ir ver o mar a ver o sol a se pôr: o fogo do sol deslumbrou as pessoas naquele fim de tarde, António entrou na bola dele e sentiu-se um verdadeiro pecador a sentir a desenhar a pintar todas as letras da luz sinfonizada: irei a santiago mulheres da minha vida: irei a finisterra.

Quando Antonieta veio a saber de todas as vontades e todos seus contrários, de fazer os caminhos que há de santiago, acabara de ler uma sentença de quixote a sancho pança que dizia: valentia que não se funda na base da prudência chama-se temeridade.

Tontarias.

Prefiro o inverno de Vivaldi à nona de Beethoven.

A estiva é dada a pensamentos e apela a fragmentos de memórias, entra numa das gavetas resguardadas, ao que dizem hipocampo, entidade semelhante a um cavalo de mar onde somos o que nos resta ser: pequenas memórias em reconstrução.

Entro na cadeia da relação onde camilo conheceu o drama carcerário por adulterar com  plácida, mulher e senhora de bem casada, abusada de amores de paixões abusados, ela no pavilhão das mulheres viciadas e de outros crimes acusadas, ele nos sítios da malta que são distinções de aureolados, a fazer as contas, dele se fala, ao amor de perdição a escorrer de rubra tinta: corria o ano da desgraça de mil oitocentos e sessenta, no seguinte foram os amantes inocentados por interceção de pedro o quinto de seu nome rei da última dinastia.

Que condições tão estranhas à civilização, dissera o rei, que, sendo obrigado a ser homem no tempo de ser rapaz, mandava melhorar os espaços de tirar indignidades e não as acrescentar, e o dinheiro faltou, o rei logo a seguir morreu, rapaz ainda, sempre houvera e haverá carências dele na miúda arraia e nas correntezas onde se albergam as delinquências, e assim ficou por melhorar a sala camiliana e a existir horrenda até ao ano da revolução.

Murmurava memórias dedicadas a camilo, o castelo branco, em prol das letras mercanciadas, perde-se o amor à vista das grades, luz cuada luz, a tarde pronuncia uma espécie de sepulcro familiar, ela está a denunciar: vim apresentar queixa crime contra incertos, ou terceiros, não sei como se diz, e caíram duas lágrima ou três que não foram contadas, ele não estava lá, na judiciária, deixou e mandou Madalena a ir sozinha, quedou-se a visitar a antiga masmorra da relação portuense. Cadeia de um barroco pesado.

Estefânia houvera dito ao seu esposo e de todos rei: como libertar camilo; agora dirão António e Magdala um ao outro: como libertar Antonieta.

Antes, porém, disse o agente judiciário, faça favor de se sentar senhora, que tem a declarar, depois é só assinar.

Um arrepio cortou a respiração quando olhou os agentes por dentro, tinham delírios e fomes de dores particulares, daquelas que não entram nos livros, mas era tarde demais e Madalena não teve como parar:  faltou-nos o conjunto das joias todas, as engavetadas e as mais que escondidas estavam nos baixos da cave, a porta estava arrebentada para disfarçar, a de videovigilância parou de funcionou, nenhuma imagem ficou para ajudar.

Há suspeitos, quis saber.

Sim, temos suspeitas a mais e mais vergonha ainda de declarar, mas se forçoso é afianço já que foi a nossa filha na sexta feira treze presente passado, tanto que ela foi interrogada e confessou, a nossa queixa é contra o contrabandista, sim, daqueles que andam à caça dos ouros e das pratas das famílias que estão a empobrecer e que não têm mais que perder, vão-se os anéis ficam os dedos, senhores agentes, quero apontar os nomes dos senhores por recomendação do meu marido, a senhora não está a ver os nossos nomes na lapela, temos de desenhar, a senhora está nervosa, tenha calma, a sua filha será interrogada e em sequência detida, a ver o que dirá.

A nossa queixa, não sei se me fiz entender, é contra todos os comerciantes que compram e vendem ouros e pratas e afins, eles querem é roubar, parasitam na desgraça alheia: entregaram quinze contos à pequena, que é doente, é louca, por um espólio em quinhentos por técnicos avaliado, fora o valor da estimação familiar.

Eles não sabiam que foi a primeira vez que Maria de Magdala utilizou a palavra doente, nobre e devidamente endereçada a Maria Antonieta. Um extenso rol de inquirições e objeções que mostravam arrependimento foi apresentado para ler e assinar, e a mãe não soube mais o que fazer senão expor o nome inteiro, com tenções de alterar o grafismo, sem o conseguir porém, a ver se de algum modo podia anular a queixa dada: ficou um nome feio e largo, asseverando todos os desaparecimentos passados e que não eram mais presentes na casa. A culpa é da videovigilância, do condomínio, dos comerciantes e advogados, todos andam a roubar, disse já depois de rubricar.

O meu marido tem de assinar. Aviso que quero antes ir eu presa que condenar a pobre da desgraçada. Nem é nada de especial: sofre da fome, ou fome a mais, ninguém sabe nada.

Vivemos num regime de loucuras, os senhores têm filhas a estudar.

Tenho de voltar dentro de quinze dias contados a partir de amanhã, mas não quero ir sozinha, tu também tens de assinar: eles querem interrogá-la, o que nós fomos fazer, a eles não vão incomodar nada, eu bem te dizia, sequer quiseram saber o nome do centro comercial e menos ainda da loja e dos ladrões que há por lá. Se pudéssemos ao menos resolver com a justiça fafense.

Razão tem a tua santa mãe: nem só sair à estrada é que é roubar.

José, eu não queria meter-me em tráfico de influências, mas os amigos são realmente para as ocasiões. Não, de todo, não vai a internar por ora, guarda os amigos e amigas do hospital para marés mais acertadas, precisamos conversar.

Fala homem, tens de desembuchar: que mais se passou depois da porta arrombada.

Campos, meu querido, conheces alguém na judiciária. Se conheço, a todos topo de ginja, não são mais do que eu nem que se fodam todos, se cozam, queria eu dizer. Vou ver o que posso arranjar.

Por quinhentos contos, ainda que vendidos por quinze, se vendidos foram vendidos estão, lamento mas têm razão, eles não vão mexer nem uma palha: eles vivem de holofotes, do peixe miúdo se lamentam que só dá trabalho; querem aparecer na televisão: o vosso caso é sério demais, mas choro dizer-te que não vende imagem, não há vedetas nas polícias que te valham, sequer na minha de que estou farto: já lhes vi o rabo há muito, António.

A minha revolta não te resolve a porra dos oiros, o conserto da porta, a franja dos nervos de toda a casa, ta que pariu nosso pai mais a nossa mãe. Vou telefonar.

No mínimo, Maria de Magdala deverá requerer a anulação do processo, é assim, da queixa nasce um processo, pedir desculpas aos agentes assinalados e assinar, não fales no meu nome para não parecer tráfico de agentes, assinam os dois para ser mais fiável: eles não confiam muito nas mulheres dos outros, apenas as da casa própria são de seriedades: olham as de fora com os olhos das da própria casa e não conseguem enxergar o horizonte. Nós sabemos do que falamos. Tu sabes do que falo, cabrão: bebemos um café para celebrar.

Quando regressas à casa grande.

 

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