Entrevistas

Padre Víctor Silva: “Acredito totalmente na vida eterna. Já os antepassados acreditavam”

O padre de Lamego nunca se arrependeu da escolha celibatária que fez. Victor Silva não foge às perguntas. Responde com certeza e prontidão. Além de Padre, dá aulas em Castro Daire, é cantor e tem entre os alunos e paroquianos muitos dos seus maiores admiradores. O 3.º álbum, “mais pessoal”, está a chegar, mas o abade não esconde que, no corre corre do dia-a-dia, “preciso de ter tempo para mim” e assegura que a  “incerteza faz parte da vida”.

Texto: Andreia Gonçalves
Fotos: DR

Agência de Informação Norte – Ser padre, no seu caso, foi por vocação? Ou chegou a ter incertezas quanto a este caminho?
Víctor Silva – A incerteza faz parte da vida. Da caminhada que o ser humano faz. A incerteza habita connosco todos os dias. A pergunta é: como posso ter mais certezas e menos incertezas? A vocação é algo que desperta no coração das pessoas. Nem todos são chamados ou estão vocacionados para fazer determinadas coisas. Ser padre foi crescendo comigo.

É da opinião que a paróquia faz e o padre faz a paróquia?
Com certeza. O pároco motiva os paroquianos. Escuta os paroquianos. Mas, se os paroquianos não motivarem o pároco, rapidamente perde a vontade de mudar de paróquia. E quem escuta o pároco? Quem ouve os seus problemas? As suas dificuldades?

É também professor e músico? Como é, afinal, o seu dia-a-dia?
A minha vida é passada entre a escola secundária de Castro Daire e paróquias. Mas a vida não é só trabalhar. Preciso de ter tempo para mim. Para ler, para escrever as músicas, para rezar, para estar com os amigos, e para descansar.

É um adepto da redes sociais. Esta é também uma forma de se aproximar dos paroquianos e resolver questões?
Eu costumo dizer que tenho três paróquias. As que me foram confiadas pelo Senhor Bispo e a página oficial do meu facebook, onde tenho mais de 10 mil seguidores e a maior parte não conheço. Onde partilham dificuldades comigo, problemas, onde pedem conselhos, opiniões.

Já foi a Fátima a pé? Deus quer esse sacrifício?
Não. Nunca fui. Mas respeito muito quem vai. Tenho nos meus planos fazer o Caminho de Santiago. Quem sabe… em breve.

Durante muitos anos, os padres eram vistos como autoridade, passando a ser apenas os donos da paróquia. Um padre é cada vez mais uma figura moral e espiritual do que cívica. É isso?
Eu sempre vi o padre como alguém que tem de ser próximo das pessoas. Estar com elas. Eu tenho uma dificuldade na pastoral, porque vivo a 45 minutos da minha paróquia, o que dificulta o trabalho pastoral. Mas nunca ficou uma missa por celebrar, uma reunião para fazer, uma confissão por realizar. A maior autoridade ganha-se pelo amor ao próximo.

O papa Francisco, no seu entender, trouxe mais transparência à igreja?
Todos os Papas. Cada um na sua época, no seu tempo, com o seu carisma, os seus dons. Cada um com a sua personalidade. Deus serve-se de todos e de cada um para construir a história da humanidade.

Como um padre lida com as tentações?
Provavelmente como qualquer ser humano. É na liberdade e na vocação própria que devemos ser felizes. Se somos felizes, lidamos bem com tudo o resto.

Alguma vez pensou em desistir do sacerdócio?
Não. Nunca pensei nisso porque sou feliz no que faço.

O que é que esta vida dedicada à Igreja lhe tem ensinado?
Que, por maiores que sejam os desafios, existe um Ser que nos empurra a não termos medo de seguir. O caminho é longo, desafiante. Tudo muda muito rápido. Mas é Ele que me ajuda a seguir…

Um padre tanto está a casar, ou a baptizar, como, no mesmo dia, poderá estar a fazer funerais. Como se lida com estas emoções?
É uma questão de hábito. O que mais me custa são os que ficam a sofrer. O vazio que fica e não poder fazer nada. E por vezes a única resposta é um abraço no silêncio. Estar presente basta.

Já deu, certamente, comunhão a divorciados. Mas a Igreja diz que os divorciados não devem comungar. Como faz a leitura desta situação?
A Igreja não permite a separação. Logo, se alguém deixou de viver com outra pessoa, mas não vive com mais ninguém, essa pessoa pode comungar. Afinal, apenas deixou de partilhar a vida com essa pessoa, mas não a partilha com mais ninguém. É muito difícil partilhar a vida com alguém o tempo todo. É preciso muita paciência, muito respeito, muita confiança e muito amor.

Que tipo de ajuda pode um padre oferecer a um pai ou uma mãe que perdeu um filho?
Estar presente apenas. Ouvir os desabafos. Acompanhar. A dor deve ser tão grande que nada fará acalmar um coração de pai e de mãe. Ser presente.

Acredita na vida eterna?
Acredito totalmente na vida eterna. Já os antepassados acreditavam.

Qual a sua opinião sobre a cremação?
Concordo. Eu vou todos os anos a Toronto fazer um trabalho com a comunidade portuguesa existente lá e já existe há mais de 15 anos. Nas grandes cidades é uma necessidade pública. Não existe espaço nos cemitérios. E é também uma questão de saúde pública.

E sobre o aborto?
Aceito em certas situações que a Igreja prevê. Estou de acordo com o que a Igreja diz sobre este tema.

Em relação à hierarquia, o que é que o bispo e os outros padres dizem de ser um padre todo “rockeiro”?
Isso só eles poderão responder (risos). O meu projeto continua. Vou fazer 11 anos de músicas este ano. 11 anos de muita estrada, muitos concertos, muita gente que conheci, muitas horas na estrada com uma equipa fantástica que me acompanha.

Como se chama o próximo álbum, cujo single e videoclip, já estão quase a serem lançados?
O single vai sair em breve. Já está gravado e o videoclip também. “Nunca fomos iguais”. O próximo álbum, a sair em breve, é diferente dos dois anteriores. Mais pessoal. Conto histórias de pessoas, de vidas, de situações que partilharam comigo. Fala muito do outro, de quem fica e de quem vai…

 

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