Opinião

Mundo do Princesas VII/XV

SETE

 Retornarei a ti, casa minha na minha cidade grande, na primeira semana do mês que vem, agora que é o tempo de partidas, antes que o sol se alevante e se ponha rubro e quente no meu colo frio: levo no rosto os destemperos do tempo, a moldura dos meus frios lábios temperados na forja de inenarráveis silêncios.

Um homem não pode gastar a vida toda a ralhar e a dar tão só a triste cara ao desabrigado vento, mas e se o vento é do mar revolto e, todavia, tapetado de afeições será um porto de abrigo: murmúrios de mar, marulhares das ondas, multidões em fim de estia nos dias dos dizeres festivos: corrupios insulares, desregramento nos bulícios de noites loucas e carentes. Bendições a que um homem tem direito.

Na rua da virgem perdeste a inocência de homem, que mais pode o ocidente te amostrar, o samba na avenida abriu-te os olhos para a cidade balear: depois é só entrar, entrar e pensar na fortaleza do silêncio e no mutismo da chegada. Cosmopolita no medo de ficar a sós com tanta gente a exibir vãs alegrias e solidões.

Pensou nos amigos de antes, nos homens e nas mulheres das várias idades, naqueles que deixaram de sobrar, telefonou a José e a Jonas a partilhar segredos e repetiu agradecimentos e frases que só se dizem aos que deram o ombro para chorar. Desta vez quem chorou foi José Campos abraçado a um telefone antigo da esquadra das interrogações, bem dentro do gabinete onde se espancam os mandriões: sem lei, José, sem nomes de famílias bem, sem defensões.

O Jonas não fora beijar a menina na estação, nem na casa pequena podia ir, pesarosa por não constar do seu afeto prometido, agora anda perdido, não pode Catarina, não pode, percorre os caminhos da lácio antiga a ver as pedras do panteão, cristiano ou pagão, aos museus do vaticano já fora, à basílica e sua cúpula e à sistina entulhada de povo sem credo nem fé, armados todos para a fotografia, assustado das vozes no foto no foto no foto; em idas à toscana, a ver se via a estátua do que venceu o gigante. Golias. A fruir o homem que venceu o tempo. David. Buonarroti não estava ali para lhe dar ensinamentos; a ver a umbria vestida de verde, a escutar os berros dos homens e dos meninos do renascimento, as mulheres estavam nas casas, a ver se ouvia o homem que foi santo. Francisco. A caravana não pode esperar, para trás a quietude do lugar, a tristeza de Jonas. Assis tinha tanto que ver. Tenho de voltar.

Amanhã vou a vila de este, no dia seguinte às ruínas da vila do imperador e seu antínoo, cantados nas memórias consentidas de youcenar. Marguerite. Evocação das evocações, o mundo já andava perdido de amores no mundo antigo. Ou ao poder dos poderosos sempre tudo é permitido. Um abraço apertado à Catarina.

O remorso soprou na aragem do vento que passava, naquele dia que queria tanto não terminasse: prender para sempre o sol naquela brisa, filho de um deus afinal tão pequeno, terrível e mortal, tão medíocre poeta quanto a grandeza vulgar das pessoas felizes. Foi um dia escaldante António, não foi, aquele do pequeno cruzeiro vazado, em várias mil pesetas contado: sobrevoado de sonhos e prazeres indizíveis que só os deuses de uma mitologia por inventar podem e sabem testemunhar.

O barco do capitão hook era pequeno demais para tanto sonho. Ele estava acordado sobre as ondas a nadar sob os olhos e os pulmões a vazar suspiros do melhor vento para surfar, sem prancha, o sol de graça e em bendições de dar.

Ancorado no ar, num êxtase sem igual. O verão depois do tempo e a brisa a deslizar os restos da bruma dum horizonte sem nome nem apelido, tudo não era mais que apelos e alma pra dar.

O dia era verde como todas as manhãs da verdadeira ecologia e prometia-lhe maçãs roubadas no termo da civilização, pecaminosas e lançadas, agora, assim, aos perros que de casa fogem para fugir aos donos, ingratos no latir e no sonhar: ele era tudo menos ingratidão, mas sabia-se ingrato até à mais oculta intimidade: as partes mais íntimas arremessadas ao vento e expostas ao mar.

Certo de que os cães não abocanham maçãs: António não era perro, mas era o sentir-se que contava.

Tudo era a bem dizer um sonho verdadeiro, não fora um remorso que lhe ruía, estúpido e letal, como que a confirmar que ele, António, era realmente estúpido em fim de prazo, que nem uma porta burra, que nem um grão de argila cozido ao sol. Estarrecido.

Lembrou-se num ápice da argila que buscou e não encontrou no burgo e ao redor da catedral, por acreditar em lendas e mistérios fáceis de explicar: feliz como a maioria dos homens e das mulheres que se contentam com a felicidade do seu umbigo e das duas casas.

O guia foi competente, jornada auferida a bel prazer, comoção e pés contentes, as duas casas ficaram.

Sim, as duas casas, uma rajada que passava.

O sonho enfim embarcara com ele rumo à pequena ilha de formentera, na illeta desembarcou rodeado de outros iguais viajantes de estia, gente louca de promoções, gente feliz como ele: estupidamente feliz.

Não é verdade, António, interrogou-se todo inchado de retórica.

Começou logo a escrever um poema na areia que lhe parecia de cal, um mergulho bálsamo no éter de um insondável panteão púnico e fenício e não quis saber do romano que volvera africano no tempo cartaginês. Cipião o africano, para glória do império e desgraça do povo cartaginês.

Mas isso fora na noite anterior, naquela em que o sono não quis vir: o alfabeto dos gregos e dos romanos era o seu norte estrelado, e, então, viu-se ridiculamente acordado e riu-se como que perdido nos enredos de um pensamento pátrio da gente lusa e pia, por andarem a pedir santidades para um dom nuno santa maria. São. E, na urdidura do pensamento severamente crítico, concluiu que louvemos um dia papa que o confirme santo de verdade, era só uma questão de tempo, cismou. E, carago, ele fora um militante da fé, com espada e com cruz, que arquitetou a sangrenta derrota do inimigo cristão castelhano, antes de a sarracenas terras guerrear. Haja fé, espadas já as temos todos até aos dentes: riu-se, ele, o candidato a santo, no brasido de valverde, depois de. Aljubarrota: antes da terra da barbárie buscada à mourama gente. Ceuta para que te quero, vou em busca de eternidades. Mafoma não, e meteu-se num convento enganando a deus com arrependimentos.

Milagrosa e piedosa pátria que a tão ilustres peitos revenera. Havemos séculos de porvir. À espada sucedeu o canhão, à pólvora a bomba de hidrogénio, atómicas e de neutrões, a guerra híbrida no lugar da antiga cabra-do-monte: guerras de informação: baralhar e voltar a dar. Altíssima finança.

Um montão de perguntas se fez de si para si, sobre os indígenas do antes e do agora, sobre as maravilhas por descobrir, sobre os nativos que hão de vir. Melhor mar não podia acontecer. Que este dia de verão tão sagrado, tão quente e imerecido, tão urgente no desmerecimento e no remorso: ficou a primeira princesa, ficou a segunda, ficou Madalena, todas em terra continental, fora deste barco do amor.

Que lástima, pesou-lhe.

Como gostaria de dar-lhes a conhecer o mundo, a vida aquática da illeta, na pequena ilha de formentera. Besta, merdeiro, lembrou todos os nomes dum passado de pecado e de pequenos crimes, de verdades e de sonhos também belos e errantes na beldade convertidos: querer brincar à cabra cega como todos os meninos e meninas do lugar, mas ao diacho do pai faltavam braços no amanho da terra e à santa da mãe não faltava a vara de sete pontas. Terra negra, ainda, a desterrá-lo por ausências de sacrifícios. Lausperenes por cumprir na igreja da infância, catequese desacreditada, pecados à luz dia: aos da noite sempre deus encobria.

Assim se recompunha ensimesmado na ideia de que há muito podara as hastes do não querer: se as não trouxera é porque de algum modo veria nisso um sacrifício a evitar. Havia que penitenciar-se, todavia. Ficaram em terra elas, como de costume, ele partia, como ele próprio via, ali, agora, sem espelhos que luzissem. Toda a família lhe pareceu um espelho estilhaçado, com moldura apodrecida, sem pedaço de cristal que desse azo a compostura.

Passou-lhe pela mente a sorte antecipada de Serapião, ainda na barriga do escritor. Baltazar de seu nome, de valter hugo. Mãe.

Apiedou-se de ermesinda, outra cria no ventre do criador. Tudo não passava de um remorso desenhado num poema de amor feito à terra inteira. A beleza das belezas a entediar-se de tanta graciosidade: culto de fealdades verdadeiras.

Que esta história não conta mentiras por viver.

Vestido de escrúpulo e de pesar, no barco do regresso, sob a sangria do animado capitão, fez uma promessa espasmódica aos deuses da humanidade inteira, aos do passado quimérico, aos do presente nefando e aos do futuro que hão de vir: levar a Catarina, levar a Antonieta, talvez a Madalena a beberem um pouco da felicidade que há, ah, si la hay, en la formentera.

Êxtase da santa, inquiriu-se, lembrou-se de outra saída. Ávila, meu amor, sim, foi na cidade teresinha que foi feita a promessa de vos levar à insularidade hispânica, no circuito da cerca depois das ruas palmeadas: só de passagem, sempre a correr, que andamos todos na estafeta a transportar desejos de além. E não há ninguém do outro lado para nos compreender.

Afinal não fora cumprida a promessa: a vida está cheia de promessas por cumprir, justificou-se. Ávila foi uma ilusão, uma miragem feita na muralha que cerca a cidade, uma promessa que deixou de contar: tu não és a santa em êxtase, nem a madre teresa de a dar alegria aos precisados das índias. Nem nuno alvares pereira a matar castelhanos e mouros, dos reinos de portugalidade e dos algarves.

No ventre da areia, fornicando nela tudo o que havia para fornicar, molhado de sol, mediterrâneo dos mediterrâneos, espanhol dos espanhóis, não lhe saiu mais que um modesto título que viria a emoldurar na casa nova, pequena e burguesa, a que também chamava casa grande, um milhão de vezes soletrado pela pequena Catarina que, de quando em longe, inquiria o pai acerca da prometida viagem lá para as bandas da terra bem dita. Ibiza, meu querer.

la formentera, la divina, mi amor

tu que tens no canto do olhar a água de cristal e a nudez provável dos primeiros deuses

o sol púnico e insular a areia cálida e clara o bronze do sol do meio dia meu,

la formentera meu amor loiro tu és de uma divindade não escrita nua e tua

verde branca e azul que talvez só el capitán hook pode saber dizer,

um dia de amor feito à noite com os deuses em orgia ebriamente loucos

escanções reunidos sob o sol da tarde branca mediterrâneo,

aos poucos nos alvores do dia num mergulho terreno e lascivo de felicidade nua e crua,

tu que não tens no ventre mais que areia e sal de mar de todos os poetas

que histórias tens tu a ungida do senhor la formentera para me contares,

tu que te deitaste sob o meu corpo nu de fome desnudado esculpido

que dançaste nos sentidos apurados da minha alma a pedir e a pedir amor,

estou dentro de ti para sempre imaculada mulher deste céu ruivo

banhado por um dia na areia e no sol desta água cristalina verde mar.

Formentera: havemos de ir quando o cartão do pai der para pagar. É muito caro, sabes, Catarina, meu bebé lindo. Sim, ela sabia porque era inteligente e afinal não queria mais que gastar a casa nova e grande, sem o barulho do bairro antigo, com o sol a esventrá-la em todas as posições, das paredes lisas e sóbrias decoradas com reproduções modestas, o doce de goiaba e a música, o quarto de brincar, o poder andar aos círculos sem parar até entontar, se quisesse, o deitar-se na colcha nova e canária e o milagre da multiplicação dos beijos. E dos abraços.

Dos bonsais já nem falava, ria, gargalhava alto e das alturas irradiava toda a fragância dos vinte anos sem nódoa, criança grande, menina de luz. Mulher denodo, ela sabia que devia falar com o ulmeiro, a figueira, a laranjeira e a urze até lhe secarem as seivas, nas quatro estações que tanto amava, eles também pareciam gostar dos mimos, acariciava-lhes a copa como se fora a touça do cabelo espesso e duro de dona Madalena: moita ferida em eterna fase de crescimento, arborescente, ressequido.

Continuar a sê-lo, eterna criança, naquela casa linda era o maior desejo do seu ego escarlate e feliz.

Havia de resto os braços grandes e grossos do pai sempre que não havia ausências: garantidos aos portões da escola daquele que foi tenente na guerra e deu paz aos camaradas, à sexta feira à tarde, e para ela destinados até ao depois do almoço de domingo.

E à nossa criança não era fácil descontentar: música e gravações dela, canetas e papel onde botar seus dizeres, algumas guloseimas das que sobejam à sociedade de consumo, que milhares mata anualmente, mata, uns de excesso de fomes, outros de a mais excessos, um pequeno piquenique dentro ou fora da casa grande, e despejar no lago do parque as migalhas que partia e repartia entre si e os patos reais: bravos, como ela, selvagens, como o pai, os patos e os gansos e as gaivotas da tona d’água aceitavam pacificamente a repartição, menos os peixes vermelhos que lá do fundo reclamavam seu quinhão.

Para a princesa todos eram fidalgos cavaleiros da casa do rei.

Era a cara de uma moeda em que sempre há uma coroa para virar, viver e imaginar. Outros rumores no regresso por abençoar.  Partia para se justificar, para dar razões ao médico que sempre recomendava liberdades proibidas num inferno quase sempre a arder. Seja insular, opinava o senhor doutor, seja salva vidas da sua liberdade, para acudir às princesas você precisa desertar. Se ela tiver de morrer, morrerá.

Era verdade que muitas vezes a imaginara morta, muitas vezes ela lhe morrera já a si e a Madalena e à feliz Catarina. Ao Jonas e ao José e a outra gente mais chegada também perecia, nas diferentes formas de perecer: arqueologia de uma necrópole em construção, jacente em viva sepultura. Celebrando a vida.

Via-a na mortalha do seu quarto, limpo por intermitências, agora impecavelmente alinhado para mais um final de semana ébrio de desregramentos. Sabia que a orgia alimentar urgia, misturava-se com a promiscuidade do fumo do sexo do álcool evaporado nas ausências. Ou nas urgências geométricas de sexta a domingo. Aí, nos interstícios de liberdades amarradas, tudo corria melhor a ambos, a todos: era a folga das doenças reunidas na ausência: sacadas de comida sabe-se lá com que dinheiro davam lugar a toneladas arredadas do vomitório num rito funerário e frenético: suores frios a secar e a correr, quentes, no leito da morte viva; uivos de felicidade derramados num leito de lágrimas, feliz, abundante, urgente, frenesim demente e constante angariador de cumplicidades. Como ela, a outra, se vingava dele, nela, sobre ela, na verdade dos fins de semana.

Muitas noites houve que se trancou para dormir, ela também se fechava. Entrevia-a não em sonhos, mas em realidades possíveis, em estado sempre de choque ele, em estado de decomposição ela. Faltava pouco. Não tinha dinheiro para o enterramento, hoje em dia tão caro. Tinha medo dela morta, viva e moribunda. A carcaça ficava-lhe cada vez mais ossuda, descarnada, que o medo de carne própria agarrada aos ossos tolhia-a em toda a sua inteireza – desfigurada, mas bela na penumbra da noite, esmeradamente maquilhada, aparentemente viva.

Esburacada na cara onde todos os sinais desmentem a mentira e a verdade dela, delas, dele, de todo o agregado familiar e afins. Tinha medo do escuro, da sua voz, da alma que já penada e se mostrava em vida como seria insepulta. Melhor seria ficar por sepultar, insistia, mas onde, ela falara um dia em cremação, sim, era mais limpo e podia ser que a alma também ardesse na fogueira derradeira. Cemitério católico não. Era podre demais, talvez o suficiente para os abutres de deus.

Sobrava o riso meigo e infinito de Catarina, sempre serena, por vezes aflita: a nossa filha vai sempre ficar boa pai, tu prometeste, tu queres e eu e a dona Madalena, e ria, ria, tão linda, tão linda que ajudava a compor a composição, menos sombria, mais leve, mais livre, mais esperançosa.

Vestida de verde a novíssima composição, que não o verde-mar de formentera. Uma nova estética. Uma fantasia. Um gelado de caramelo derretido. Na próxima semana trazes a irmã: vamos ter reuniões de fisioterapia.

Não, princesa: chamam-lhe terapia familiar, mas ainda não está agendada.

Tens razão, meu marido meu pai: eu tenho na minha agenda: primeiro vai a internar.

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