Opinião

MUNDO DE PRINCESAS XI/XV

ONZE

Euforicamente chegou setembro, o dia primeiro, às dez da manhã no hospital em modos de celebrar o início do fim, assim o cria Catarina antes de se deixar entristecer até à medula, como se o que for lido com atenção deixará adivinhar.

Tristeza havia de sobra nas duas casas, sendo certo que o sol não deixou de pôr-se em cada fim de tarde, nem de vir-se em cada manhã, sobre, entre ou sob as nuvens e assim será até se extinguir lá na lonjura do tempo contado aos milhões. Enquanto se não apaga a chama do crer, a saúde de todos há de extrair-se por vias e travessas, por terapias modernas, e antiquíssimas esperas, os ânimos em alta como se fora feriado na cidade grande, último e primeiro dia de festas. Celebre-se a esperança meu desacreditado pai, disse de si para si Antonieta. Se fossemos verdadeiros, continuou Antonieta a falar consigo, atestaríamos que só a minha querida Catarina transmove convicção.

Entremos outra vez no hospital, hoje não me vão imolar com as quatro horas de espera pela mísera consulta, dada a correr pela vaca do batismo do meu pai. Hoje parece dia santo na cidade, toda a família leva o rocado até ao outeiro. Maria de Magdala fez estética caseira: unhas de negro rentes ao sabugueiro, lábios vermelhos de raiva, ou provocação, olhar sem brilho, maria de compaixão. Sísifo: ela não sabe da nossa condição.

Ao desespero sucede a espera por um esperançoso acontecer, mas se o folguedo se promete rijo nas anunciações e todavia nem os foguetes estoiram no ar para colorir os chãos, sobrarão as lágrimas para celebrar carências, umas de esfusiante felicidade da expetativa e alegria natural, derramadas em primeiro lugar, outras das inolvidáveis desesperações por luzes de um novo despertar, disfarçadas e secretas no depois. Sobra desesperança no olhar do meu pai, que eu bem sei.

Haverá mais um almoço avulso e familiar, como nas famílias normais, e o sonho não pode morrer, que se tal fora possível deixaria a humanidade de pensar: às vezes eu penso que é melhor assim, deixar tudo como está, numa dormição quieta e silenciosa, sem ressonar, até que aporta medonho o mais feroz e entra no meu sonho para me atacar. As pessoas não deviam sonhar, disse alto a princesa, há sempre cães maus nos meus sonhos.

Mas princesa, os cães que te perseguem antes de cada amanhecer não cabem na matilha daqueloutro que, sem dono e sem nome, libertámos na berma da estrada e na praia. Embora nosso, disseste tu meu pai. A terapia vai funcionar.

Vai ficar tudo bem, quer dizer nem todos, mas tu vais melhorar vamos a caminho de melhorar, disse, a esfregar abraços de um choro por libertar: duas pérolas escorregaram pelo macio rosto de Catarina, de felicidade, ou de angústia, num ápice antes do abraçar.

Perdidos num diálogo obscuro de falas genuínas, a que o narrador deu palavras em forma de texto para que a verdade seguisse inteira, e que a ela tivessem o acesso possível os leitores deveras perspicazes e prevenidos, na verdade perdidos não estavam, pais e filhas, igualados numa querença comum ainda que desigual, e reunidas as duas casas, a pequena procissão rumou ao hospital. A terapia vai funcionar, repensou a princesa Catarina.

Aberta a sessão, advirto que, e seguindo os mais estritos critérios clínicos, e ainda para fins complementares da investigação em avanço no país e no mundo, estamos a ser observados por uma equipa de técnicos especializados ou em vias de sê-lo cujo propósito não vai além da recolha de elementos para uma melhor análise do estudo da patologia. A portugalidade conheço eu bem, haverá outrossim lá fora um mundo dos pequeninos, interrogou silenciosamente Antonieta.

Cada um diz a sua biografia ou o que entender mencionar sobre o que está desajustado e o que está menos mal, sem constrangimentos, partindo do presuntivo de que o histórico é revelador de um quadro complexo, que é preciso superar, que a busca de técnicos de saúde públicos e privados já se esgotou, e que o internamento ocorrido parece ter corrido mal, conforme  a carta que não li do senhor doutor ferreira, disse o especialista dos ombros empinados.

E como somos um país que respeita as pessoas diminuídas e incapacitadas será por aí que começamos para abreviar, como sabem o nosso tempo é escasso, o país é pequeno, mas os cuidados de saúde são hercúleos.

Consta que dizes ser uma criança grande dentro duma família em renovação constante e que dela vês o melhor que o mundo tem de suporte para o teu bem estar, que as tuas últimas bonecas nunca mais acabam, que a música de todos os gostos e algo mais têm feito parte do teu mundo, um mundo de fantasias a que poucos têm acesso, hoje seria de todo conveniente que desses a esta equipa tudo o que ilumina a tua voz e acende o teu sorriso: ainda não paraste de sorrir, deves querer ser a primeira a falar, rematou a coadjuvante da equipa promotora das sessões de terapia.

Eu sou a primeira sim se bem que nasci segunda em idade de nascer e de falar e das competências sociais segundo as disparatadas apurações de quem sabe senhora doutora e senhor doutor mas serei sempre a primeira porque toda a gente lá da nossa casa concordou até a irmã que não quer morrer e eu sempre sou a primeira na música e nas sabedorias menores como por exemplo nas dores do corpo e da mente que andam quase sempre ligadas e sei segurar a alma do coração e a dos nervos também para que a média do sofrimento que tão pouco se vê possa baixar e assim permitir que pouco se nota o sofrimento na rua que dentro de casa é diferente como em todas as famílias se vai escondendo a verdade até que a realidade não aguenta mais e desponta aqui deverá levar um ponto final parágrafo como me foi ensinado na associação dos diminuídos e pelo fabuloso homem da minha vida.

Que sabes tu de diminuídos, fala-nos disso, de que ouves tu falar.

Deve ser por eu ser uma criança grande que tu não compreendeste eu posso explicar outra vez mas antes quero ainda dizer que nas redes sociais há gente desventurada, foi o meu herói maior que explicou esta palavra, descuidando privacidades do tipo coisas feias de ver e bonitas e violentas expostas como por exemplo a violência da família sem cravos nem rosas nem alegrias vermelhas nem brancas mas era sobre a irmã que não anda bem há muito tempo e vai ficar o meu pai prometeu sempre vai ficar bem a nossa princesa que nada come e come sem parar, desculpa eu pensava que era para a terapia da nossa filha da nossa irmã da nossa princesa disse tudo bem dito meu querido pai os senhores dali da frente e os de lá detrás que a gente não pode ver e isso não está certo basta ver a cara da minha mãe, chamada de atenção dita ao ouvido apurado de António, ninguém mais ouviu, e continuou: eu tenho um sonho para contar sei que aqui não é o sítio mas o meu António sonha comigo todas as noites sabes ainda não me disseste a tua idade nem tu os nomes já sei o meu António até nos levou a ver a lua e a voltar de lá em dez minutos faz de conta é tudo uma brincadeira mas quando sonho com cães a ladrar e a roubar as minhas guloseimas eu começo a chorar e então acordo e vejo que não é verdade, e, como se reparasse que a normalidade a fitava com perplexidade, ridicularizou-os e se com muita verdade e alegria com um riso louco e dourado.

Gente feliz com lágrimas, alguém lembrou em silêncio melo. João de.

Depois dos depoimentos da tríade que faltava, primeiro o pai, e fica já adiantado que António era o último de uma singular geração de antoninos de que em traços esquemáticos se dará veios de notícia, seguindo-se a cética e amargurada Madalena e ulteriormente a altiva e bela Antonieta, para quem todos os olhos inspetivos se voltavam, quer verbalizasse na sua apuradíssima civilidade, omitindo embora relevantes detalhes mesmo percebendo que é deles que uma boa parte do diagnóstico se constrói, quer emudecesse inadequada e propositadamente, com os olhos postos no chão cinza onde os desafortunados pés da família pousavam, a suma sapiência que dirigiu os trabalhos antecipou o pensamento coletivo que havia de resultar após as grelhas devida e metodicamente analisadas: aquilo a que poderia chamar-se uma súmula se matéria crível e significativa houvesse com dignidade de sinopse.

Uma fraude de família nem para cobaia tem virtude, dados recolhidos quase nenhuns, era o que pensava ao improvisar as conclusões apresentadas à assembleia a despachar. Alguns haviam já vislumbrado os insubstanciais resultados, mormente Antonieta, uma vez mais exposta ao mundo para analisar, que futurara desde a última consulta mais um ato clínico afrontoso, porque voyeurista das nudezas de uma família em processo de improvável reconstrução.  Não é o tempo da fénix: da nossa combustão, se a houver, serão religiosamente guardadas as preciosas cinzas, o tempo apagará num sopro os nossos heróis.

A Catarina ficara terrivelmente calada: tonalidade que nenhum grito podia desenhar, nenhum verso cantar, nenhum escultor por mais divino que fosse esculpir.

O senhor não tem escapatória possível, o trabalho principal é seu e não do sistema de saúde, você devia ser mais democrático, partilhar decisões, evitar os bicos de pés para falar, isso guarde para o seu centro de saúde, devia ler menos artigos sobre patologias da mente, pesquisar menos na internet, a internet mente tantas vezes, nesse caminho não tarda a endoidecer, vá a santiago a pé pelos caminhos todos se preciso for, faça outro filho e deixe de meter foice em seara alheia; e a senhora devia ser mais humilde, seja mais Magdala da galileia convertida, ou judia arrependida, diga tudo o que pensa mas com assertividade e brandura sem questionar a sua servidão, acolha e oriente as suas crias com esmerado carinho e educação, experimente deslaçar os presentes na hora adequada se os houver e sem fazer menção a dinheiros, treine a compartição autêntica e compre com moderação segundo a lista feita de antemão, e quanto ao dinheiro tem razão e mais muito mais quanto às loucuras de que padece a humanidade: é o mundo que temos. Faça uma promessa no departamento da religião, pode o remédio não fazer nada, mal, no entanto não fará com certeza, aliás esta é a primeira e derradeira verdade que conhecemos, por enquanto senhor doutor por enquanto, como não fez a senhora da sua morada aberta, concluiu com escárnios sorrisos o psiquiatra, calando com efeito António.

A criança grande inculpada e livre não disse nada.

Há um ponto em que estaremos todos de acordo, os do lado de cá: estas sessões não podem continuar, não são proveitosas para ninguém. A verdadeira vítima não disse nada que se aproveite, deve ter sido bem ensaiada a vossa participação nesta sessão de terapia, porém cada palavra soletrada, mesmissimamente o silêncio, o negro da roupa, os ares desfigurados e abatidos, descontado o riso ridículo da primeira,  fornecem uma formidável radiografia que a nossa equipa vai analisar. Para efeitos do nosso estudo a precisada e diminuída Catarina não disse nada. Querem contestar.

Eles não entenderam nada do que eu disse, não é costume em minha casa, disse, e continuou calada. Vai ficar tudo bem meu pai minha irmã minha mãe. Quando vamos ver a mãezinha quando vamos à terra.

O dos ombros descomunais, chefe da operação investigativa, o petulante e infeliz, a vaca, com perdão da bovino sagrada, que tem nobreza na nossa mesa e dignidade divinal em certas crenças orientais como o hinduísmo, não ouviu nada do que eu dissera na reunião da associação dos familiares e amigos, nem hoje ouviu as nossas princesas, tanto a primeira quanto a segunda, tenho em definitivo por sábias as tuas razões de mulher que recusas o peso do pecado original, estou arrependido e adão não sou, Madalena no que respeito diz à tua loucura sobre a humanidade, salve-se quem puder, há de vir um dia uma desgraça coletiva que nos vai unir, temporariamente unidos para salvação de nossas vidas, da maioria quero eu dizer, por que estamos então aqui António se até tu tens fé em mim: estranha esta fala aparentemente mansa, captável pelo infalível ouvido esquerdo da Catarina que viu encerrada a única sessão de terapia familiar na ala psiquiátrica do hospital.

Tudo se vai arranjar meu querido pai eles não sabem nada foi o que eu percebi. A tua natureza é balsâmica, meu amor, minha criança dotada da melhor e mais fina inteligência emocional. Voaremos no sonho da luz, contemplarás a vitória na catedral.

Cada um tem os seus clubes meu pai meu marido meu António é preciso respeitar quando vai a jogar o dragão fora do país eu estou sempre a torcer como se fosse o glorioso mas não precisas de me levar à catedral nem à lua de avião os aviões voam e eu tenho medo de cair leva-me nos teus sonhos a ver as estrelas e a lua como no sonho do natal e levanta-me agora ao ar.

A mãe das princesas ficara imóvel, silenciosa, cada vez mais judiciosa, dorida do costado e das varizes, calada e quieta sobretudo porque não apagara da memória que por detrás da sala onde todos estavam, a vê-los sem serem vistos, estariam estagiários, seguramente estavam, tinha advertido a eminência parda em sua plena área física e emocional de conforto, mestrandos e doutorandos a assistir ao drama alheio, qual morgue com as facas afiadíssimas para dissecar e retalhar em observações e atenções dessubstanciadas os sangues derramados ali em público, evidências de uma disfunção familiar senhor professor, aqui estão as evidências sábio dos sábios, a sabedoria sagrada da região e do país.

As grelhas de observação foram preenchidas, não há rastos de normalidade: esta família é louca, ficará dispensada de outras sessões, fez muito bem não agendar outros encontros, se o senhor professor doutor nos permite a opinião; e a recusa liminar do internamento, só plausível e a ser estudado se ou quando baixar dos vinte e seis quilos, sentença que havia já sentenciado o juiz destes casos.

António olhou a vaca sagrada muito a sério e com respeito, com a cara de meter medo que lhe era peculiar e teve de esconder na profundidade do corpo todas as indecências da alma.

O outro membro da dupla investigativa sugeriu sem ponta de cinismo um conselho terapêutico: escreva um diário, faça conferências, utilize utilmente o que tem na cabeça e faça sinergias, já fez progenitura e plantou árvores, faça mais plantações e está na hora de escrever um livro, de obrar, como diria a minha avó santa, silenciou o interlocutor.

A vida de cada uma de nós e de cada um deles, excelência, revelada na sua autenticidade, daria uma dúzia de livros, porém medíocres, pensou então Antonieta sem arriscar o verbo: ninguém lhe respondeu, julga-se que a tal atrevido pensamento ninguém deu ouvidos, António leu-o nos olhos rasos de lágrimas e segurou as suas para fazer figura de rijo e rico homem.

Não esqueças de ligar à mãezinha, dirás que depois do hospital as pessoas em geral melhoram o seu estado de saúde, que não estou para morrer, que havemos de ir à cova da iria num ano qualquer, não deixes que a verdade prevaleça, querido pai, podia ler-se no papel deixado à entrada do quarto, que também suportava um coraçãozinho desenhado a carvão. Outra vez falhei, sei que vocês não merecem isto que sou. A ver se me reergo: não me acordes, por favor.

O telefonema havia de ser feito, era alta a esperança da terra que o viu nascer, aquela que lhe explicou didaticamente como nascera merecia uma verdade bruta ou uma mentira adocicada de verdade. A raiz da mentira está na pergunta que não deve ser feita. Assim como todos os pecados serão perdoados, todas os meus crimes serão absolvidos aos olhos da minha mãe: minha virgem maria.

Está melhor, sim mãe assim-assim, sofrivelmente, vai estando bem mãe, a mãe não se aflija, há de ter tempo de cumprir a promessa, iremos à cova da iria. Candeia que vai à frente alumia melhor, meu filho, deixa-me cumprir a promessa enquanto posso, no próximo ano posso vos faltar.

Sim, sim mãe, todos vamos faltar, ninguém vai ficar neste mundo, o ser humano não é flor que se cheire disse-o ele depois do pecado original, não haverá mais barcas de continuidade, o deus que veio a ser de abraão não gostou de ver as crianças submergidas, na próxima vez que houver um geral castigo parece que o todo poderoso prefere uma fogueira, com seu perdão mãe, mas os homens da governança até se anteciparam e começaram a matar, aprenderam a matar com os deuses: a história é um friso colossal de crimes, mãe.

Que lástima meu filho, a bíblia que vos dei naquele natal explica tudo: naquele tempo o deus de abraão recebeu informações acerca de sodoma e de gomorra, cidades de pecado onde o livre arbítrio ganhou o campeonato e, para abreviar, salvos condutos da salvação de boas e más gentes, fez descer dos céus o raio fulminante que trouxe o fogo às terras do mal, tu és sempre o mesmo, sim eu rezarei por ti e pela Antonieta, obrigada por telefonares, ando como de costume, aos tropeços. E por ti morreria de saudades, não fosse a maravilhosa tecnologia. Não se morre de saudades filho, não se deve dizer adeus mãe, teremos todos encontro marcado no céu. Insisto que a mulher é serva do homem e fonte do pecado, mas a rapariga é uma arguida inocentada, cuida das princesas.

Mesmo que magoe morrer é preciso, aproxima-se a hora de partir, o teu pai espera-me no céu, fazes-me falta. Na terra há pouco céu e o inferno está a crescer.

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