Opinião

MUNDO DE PRINCESAS XIII/XV

TREZE

 Da escravatura de todas as idades e do racismo de todas as etnias.

Repetiu a frase deste pensamento chão e acreditou que havia céu, e que o vento sideral a levaria, à frase, lá no longe das distâncias, ao centro absoluto do trono e à direita do criador, pai disto tudo, onde, etéreo e frio, reside ele, todo quente e humano, a comandar a bestialidade das gentes, pensou ainda nas pinturas negras, de todas as eras, e viu que até o deus da mitologia bebeu, e comeu, o sangue e o corpo dos filhos, entes queridos, a gesta do sacrifício presente em todas as culturas, a besta não era espanhola não, era santa a inquisição da história, o terreiro do paço a arder em português, a sete luas era um queixume da terra, não, não, o sete sóis não, não mo levem, o queixume da terra não chega aos céus, indignou-se.

Neste belo e sombrio mundo de princesas, protestou pela quantidade de vírgulas a que se obrigou e comentou: deviam bastar as pausas da respiração.

Goya e el greco foram contaminados do vermelho azteca, disse em silêncio de lume. Baltazar do romance eterizou-se na praça do comércio. Caim haverá, ainda, na pátria lusa para maledicência de teólogos vilões. Acordou e viu que estava a viajar no tempo e a antecipar os acontecimentos.

A cabeça de António rodopiava febril de tanto sonho prensado ao amanhecer: este é o mundo de princesas. A primeira acordou.

Não voltarei a sonhar com o cão negro de três cabeças que não me deixa respirar, disse Catarina, sentada na cama, ainda metida no medo, feliz e exausta de um sonho ruim a terminar e a mãe de António parecia sentada lá no alto, era assim que ele a via, na escura claridade do céu.

Chegado bem nas alturas, sentou-se ao lado da mãe igual a todas as mães defuntadas e continuou a ver o nada, a ver o não ser do ser envergonhado de ter sido: ser ou não ser eis a questão, lembrou-se da tragédia moderna e misturou o racismo de todas as comunidades, abominou a perturbação da história por julgar que a vida de cada tempo havia de ser justa e desapartada da crueldade.

E fez perguntas, acreditando que este é o tempo delas.

Shakespeare fora melhor que vieira o padre, ou camões na vez da pessoa dos heterónimos, saramago o zé disse o que ficou por dizer, ou fazer, ou as descobertas de quinhentos deram mesmo novos mundos ao mundo além do império à europa. Virá o tempo do derrube das estátuas quando o tempo estiver embebedado de luta e de raiva, de ódio e nojo de classes. António vieira, a ti não.

Rever a história para começar de novo, ou não passará a maldição de compreensíveis pingos de sangue esparrinhado. Esparzidos culturais ou defesa contraditória dos direitos das gentes nascidas fora do abrigo de deus.

Ninguém ouviu e permaneceu mudo o seu modo perturbado de ser. Quase a enlouquecer. O mundo cresce, disse António, dentro das veredas do eterno domínio do outro e o racismo voltará a pintar o mapa de sangue.

O mundo inteiro vai assistir na internet e na televisão.

 Visivelmente perturbado, António continuou a querer falar com a mãe que imaginava sentada no céu, numa procura incessante da paz espacial, uma paz cheia de guerras de que se não surpreendia, tudo tão biblicamente ilustrado e desnudo, onde os mortos eram impudicamente tratados como números, como se foram vivos, descartáveis como estes pelo sistema cruel dos homens e dos deuses, verdadeiros e inventados, inoportunos quase todos aos olhos dos senhores, e estes, de divindades falamos, saturados de tantas multidões que requeriam a entrada no paraíso da terra peregrinando aos lugares santos, na busca de viverem com mais vida e dignidade estando mortos, mais do que vivos, pugnando considerações e outros privilégios do firmamento.

Das alturas da intuição percebeu que era branca a casa que mandava nas nações, empoleirada numa liberdade societária e globalista, de enorme hipocrisia, libertadora na recitação dos direitos e dos deveres, o livro sagrado na mão à direita do pai, sancionando o mais pérfido dos racismos, o mundo em convulsão. Chorou copiosamente depois da tentativa em vão de enviar um bilhete à mãe que de repente lhe pareceu marciana, o sonho não lhe permitiu entrar no foguete ainda em construção.

Ardia marte, acordou molhado e quente, foi medir a temperatura do amor.

Mãe, em data recente deixei um recado para ser lido pela nossa filha, aquela que sempre te chamará mãezinha. Poderás ler se os teus olhos puderem ainda manter-se isentos da cegueira branca que há no mundo.

Numa avaliação sumária pode dizer-se que tal recado tinha o fim premeditado de a deixar cair: é claro para o geral dos mortais que a droga, o álcool em excesso e todas as doenças da loucura conduzem as vítimas ao átrio da dependência, pelo que colocar a nossa filha na estrada era empurrá-la para a valeta, esquálida, molhada e fria. Depois a morte e o choro dos familiares: o luto vestido e sincero.

Mas numa avaliação mais rigorosa, terá sido ainda uma forma de filantropia, se esta palavra tivesse certo cabimento. Eu quis ajudar, inventei mil maneiras de prestar auxílio, fui ciclope na cidade-fortaleza e a muralha ruiu. Fiquei sobrevivente, com uma candeia acesa ao jeito da mulher do quadro cubista e confiado a não me deixar contaminar pelo rigor da cegueira anunciada. Picasso pintou a vila biscainha e de nada valeu.

Guernica de nada valeu: a história continua a desenhar um cortejo horrendo de guerras e outras malfeitorias.

 Como se pudera ouvi-lo do outro mundo, mãe morta em filho vivo como se fora viva a mãe em carregando o filho no regaço morto, oh piedade das piedades em fino mármore.  Buonarroti.

Aqui me tens mãe em estado de choque a querer comunicar-me com Antonieta, a neta da tua eleição, disse António, na sombra, à entrada da noite: verifico que não tens coragem nem capacidade para sair do ciclo infernal em que te meteste; lutei com todas as minhas forças, inventei mil maneiras de ajudar, pensando sempre que estava a fazer o melhor que sabia e podia, gastei-me nessa luta solitária, quantas vezes mal compreendida por aqueles que me rodeiam.

E continuou a sua insuportável narrativa.

Gastei-me e não tenho mais para gastar-me; carrego agora uma doença que tenho a obrigação moral de alguma coisa fazer para dela me libertar; a tua presença é perigosamente destrutiva: uma filha ou um filho, por mais contas que julgue ter o direito de fazer com os progenitores, não tem o direito de os aniquilar, por isso, meu amor, e enquanto seguro desesperadamente uma réstia de serenidade, peço-te que abandones o mais urgente possível o meu canto, o meu lar, a minha família possível.

E peço que não regresses, que só regresses na qualidade de filho pródigo, um dia, se tiveres um mínimo de condições para partilhares o meu canto, o meu lar, a minha família possível. Exijo de ti o abraço da prodigalidade.

Esta não é uma hora de lamentação. Os tempos da lamúria e do desconforto já não existem, porque nos habituámos a viver tão desconfortavelmente, que o quotidiano das nossas vidas permanece quase sereno na busca do equilíbrio necessário para continuar a viver. Eu quero viver muito tempo: tenho urgência de viver, Antonieta.

Espero que a minha família seja poupada, atenta bem no pronome singular da possessão. Pode não parecer, à luz dos teus olhos eu vi a pérfida mentira, mas adoro a minha mãe, aquela mulher dilacerada pela dor, que na sua juventude deu à luz dez criaturas a quem muito quero e amo com descomunal paixão. Não terás a ousadia de a perturbar.

És livre de fazer a tua vida da maneira que te é mais fácil ou agradável, obedecendo ao governo da tua cabeça.

Mas não podes exigir a cabeça de ninguém: sei que não és Judite e cabeça não tenho eu de Holofernes, nem te sentes Medusa nem Perseu tão pouco eu. A presunção de António chegou ao rubro, disse quem sentiu e pensou.

Sou muito forte e só por isso tenho resistido tanto, numa trincheira sem sentido. Não quero começar a ter vergonha de mim, se perco esta réstia vital da minha vida como pessoa, restar-me-á a destruição total: física, intelectual e moral.

Seja qual for a saída do fim do túnel, gostaria que pudesses um dia encontrar a tua felicidade. Seja qual for a via de acesso a ela, eu tenho a obrigação de respeitar, mas, e espero que compreendas, eu não estaria a respeitar-te se perdesse a vergonha de mim e de ti, se te ofendesse com o meu olhar proibido ou com palavras que os seres humanos não devem trocar.

Não temos o direito da petrificação, a das muitas cabeças foi vencida. Perseu é o nosso herói.

Diz o que precisas de mim nesta fase de transição. Porém, não me peças o maldito cartão de débito nem a chave das vitualhas, porque, na minha opinião talvez adoentada, dinheiro e carburante são a génese da tua destruição. António segurou as mãos antes de enxugar o rosto doído.

 Sossega, mãe, esta comunicação aqui escrita não chegou a ser lida pela pobrezita. Um preço mais elevado ousei cobrar quando, inesperadamente, entrou em casa com ares de quem vinha pedir mais dinheiro sabe-se lá para comer o quê, então, sobre o edredão, no seu desconfortado aposento que faz de quarto de dormir, reversei sobre a Antonieta opróbrios como só um parente muito próximo sabe fazer. Exigi um documento obrigacionista, de decesso ao crédito bancário, passei um cheque de euros em ano de conversão de escudos e desferi sobre ela os raios de deus.

 Fronte a fronte, nem uma gota de sal molhou o edredão, habituados que estamos à fremência dos meus solilóquios. A comoção, os estremecimentos frente à vibração de ecos na primeira pessoa passaram-se no interior, no núcleo da alma onde os registos da memória permanecem inertes e perenes para sempre.

Nenhum deus, de nenhuma cultura, fez arrancar uma palavra à criatura deles. Apenas um rascunho sobre um papel com um fundo de ursinhos, esmeradamente dobrado nas calças do meu pijama cinzento, sob a almofada castanha, soou como uma chuva miudinha e fria, de gelar o pescoço e todos os ossos, degelo do coração.

António: não tenho palavras para ti, isto é o fim, o meu definitivo calar do que vai aqui, não porei mais os pés na terra, afinal onde chego crio o pânico, nunca tive medo de ti, mas agora tenho. Perdi a fé nos armistícios. Antonieta.

Um copo de uísque e meio de aguardente foi a resposta possível de um pai envergonhado, arrependido, enraivecido e violento. A brandura do álcool afogou a mágoa e sobreviveu uma profunda sonolência, mãe. Não vou contar-te todo o furor dos meus sentimentos e queria muito que, na tua suprema sabedoria, perdoasses todos os meus pecados de filho, que não pródigo, que não vagabundo, apenas sobrevivente, morto nos teus braços: urge sobreviver. Respirou e comprou a viagem da sua vida a pensar num oráculo qualquer.

 Chegado do voo que aterrou em solo ateniense, António teve um pressentimento ruim, um travo amargo encravou-se-lhe no tronco da alma e ponderou das vantagens e desvantagens de missiva tão longa, de documentos tão inquietadores e intelectualmente sofríveis. A sua nossa senhora poderia piorar. Só via desvantagens. Ponto final.

Fingiu, porém, que era ainda à mãe, a uma mãe qualquer, que podia revelar os segredos da sua desorientação. Temia perder a sanidade, o tempo era-lhe cada vez mais escorregadio. Desconsideramos o tempo, pensou, a divindade que a todos leva sem levar está no cerne de todos os absurdos: sem ele, tão pouco há o vazio, sequer a solidão, a noção do calendário das guerras nem à tona das culturas floresceria. Mas ele, prosaicamente pensado, define todos os processos com maior ou menor prosa kafkiana.

Se António fora uma pessoa importante e com prazo de validade reconhecível houvera nesse momento fundado uma novíssima religião muitíssimo mais que panteísta se todo o universo pudera ser pensado ou sonhado à parte do novel redentor sem remissões que as não há pois claro.

Sentia que se escapulia do tempo, mas sabia que era exatamente a duração que lhe determinava tudo, absurdamente tudo, antes e depois desta espécie de dobre de finados. Apalpou-se e sentiu-se vivo da silva. Olhou para trás e o retrovisor levou-o uma vez mais ao primeiro hospital, o do internamento, onde moraram Hermenegilda e Antonieta, onde a primeira dedicou uma prova de amor à segunda, sem a conhecer princesa e irmã de Catarina, a primeira delas, apenas a conheceu destrambelhada do juízo. Ambas as duas foram confinadas no destrambelhamento.

Lembrava-se claramente de quando a Antonieta foi a internar, em segredo, para que não houvesse sofrimentos desnecessários nas casas da família geral e alargada.

Não havia partido, ainda, no doloroso mês dos telefonemas urgentes, fevereiro fora escaldante; todavia, o seu internamento num hospital psiquiátrico tornara-se inadiável no março primaveril. Estava frio e chovia copiosamente, por isso, este ano, este tempo sabia a inverno, um inverno que parecia não ter fim.

Diziam os que sabiam que era por causa do el ninho.

Lamentava muito todos os passos que dera e que muito a conduziram a tal opção. De facto, ela não teve outra saída: obsessivo e omnipotente, ofendia a deus, ele que fora católico de sacramentos dados, e aos especialistas, ele que fora e se havia crédulo, ainda. Achava-se o mais infeliz dos homens. Deixara-se roubar, a si e à bandeira, nesta guerra sem quartel, que fizera quando ela lhe pedia atenção no olhar.

Dizem os especialistas que este tipo de pensamentos e lamentos são sentimentos de culpa e que é normal os mais chegados ficarem com complexos de culpa. António não fugia à regra. O remorso em estado bruto.

Naquele tempo, tão próximo e já tão distante, com as vidas a desenrolarem-se à velocidade da luz, concebera, planeara e dirigira um cerco que, talvez, nenhuma jovem com perturbação alimentar podia suportar. Mas a vida deles tornara-se, também ela, insuportável: dinheiro e víveres a mais e a menos, olhares de lume e de raiva eram desferidos no lar da sua permanente inquietação.

Nos entretantos do internamento, fora com a pequena a uma vidente, a palavra que lembra vida, uma senhora que domina serenamente as técnicas de uma popular psicologia do otimismo. De nada valera, como se disse por outras palavras: a doença ultrapassa os limites de todas as vontades juntas. Quase se reconvertera ao catolicismo, pobre de ti antonino dos antoninos, o último, a quem tão pouco o nome honras. Quase se tornara homem de igreja, candidamente beato e tudo o mais que aprendera a contestar a partir do ano em que fora homem de catequese, lembras-te António.

Daquele hospital guardou as piores recordações da sua vida. Primeiro, disse o próprio António, apertou-se-me a garganta nos momentos que antecederam a despedida: eu estava dilacerado, mas, mãe, a nossa filha aparentava uma serenidade espantosa e até um sorriso desenhado nos lábios fazia crer que a hospitalização seria certamente mais uma experiência saudável. A Antonieta aprendeu bem cedo que qualquer experiência será enriquecedora, se formos capazes de aprender com ela. Ambos nos enganamos friamente.

Como recordava uma impertinente técnica de saúde – o senhor parece estar triste – não senhora, por um lado estou triste, mas, pode ser o princípio do fim, não acha. Mas a doutora não achou nada. Esta senhora começou a receção, foi ela que nos acolheu, conforme estava previsto, com um vocabulário e um som impróprio de gente que tirou medicina geral e fez especialidade em psiquiatria. Não menciono aqui o aspeto louco, cinzento e velho do edifício. É típico de uma arquitetura oitocentista, de traça neoclássica, lavado na fachada virada para o jardim e para a rua, mas com múltiplos espaços exíguos, criados pela necessidade de acolher a crescente loucura do nosso século. Não vou fazer aqui a descrição patética do átrio e dos pacientes, nem do  doutor ferreira que nos coube em sorte.

Quase tudo, no conde de ferreira, suou a militarismo e a despotismo, lembrava-se. O médico de serviço, internista a contragosto, interrogou-se alto e bom som, nas nossas barbas, sobre as razões que o indigitaram como médico assistente da Antonieta. Revelou, na continuidade da receção e no dia-a-dia, quase nada conhecer da doença; tratou-nos, mãe, muito pior do que tu tratas as tuas duas gatas, a mãe parda e a filha preta, quando estas não procuram nas noites dos seus dias os ratos para, alentadas, amamentarem a ninhada dos seis pequerruchos que mãe e filha pariram. O doutor foi insensível, despótico, cínico e malcriado; foi arrogante, autoritário, desumano. Tratou-me muito pior do que tu, mãe, segura bem o meu corpo, quando eu era pequeno e fazia grossas e endiabradas tropelias.

Não fui agredido com a vara de sete pontas que tu usavas na tua misteriosa maneira de dar educações, segura-me no colo mãe, mas com o chicote quase ininterrupto de palavras que quero crer só alguns clínicos ousam usar. Com cuidadosa e reles psicologia, contando que todos os utentes, ou quase todos, gravitam na área do desnorte.

Com efeito, e com todos os efeitos inerentes ao que a seguir relato, nenhuma capacidade de diálogo foi revelada por este indivíduo de aspeto humano, parecendo ignorar por completo a deontologia profissional que, certamente, entre colegas do mesmo ofício, diz defender. Parecia um médico sem rosto e sem alma. Humildade, sabemos, é coisa que não abunda na classe das elites e no universo geral dos finais e no decurso de cada milénio, neste país de sonho e de abandono, de ricos abastados e de pobreza abjeta.

Decerto, o quase dono do hospital veio a terreiro defender a vida contra o aborto decidido, e há muito consentido, sabe-se lá por que razões.

Julgando ainda falar com a mãe, António continuou: consta-se que até é bom médico o doutor. Ferreira, no consultório dele. Isto é que dói. As enfermeiras, a burocracia dos serviços, tudo funcionou contra a nossa sensibilidade, a nossa humildade, a nossa educação. Alegam, como vem sendo habitual, que têm muito trabalho, que o ministério só está interessado no número de pacientes diariamente atendidos. Por certo há erros e defeitos lá no ministério, onde trabalham pessoas e, como sabemos, tudo quanto é pessoa erra.

Que padecem de burnout, todos se queixam: é transversal na coisa pública e privada.

Mas o doutor doutorando tem pressa, é zeloso no escritório e trata a coisa pública, as outras pessoas, como internas do seu manicómio, infetadas pelo mal branco, a cegueira de que o nosso escritor é um humilde ensaísta. Desculpa falar-te do nosso honrado nobel da literatura, eu sei que nunca lês mais que as escrituras sagradas e eu prometi ausência de erudição; porém, em nome das primeiras letras que contigo aprendi a soletrar e dos primeiros poemas cantados com que fui embalado no velho berço de tábuas, aceitarás alguns sujeitos, predicados e mesmos complementos que não entendes. Palavras caras, e sorris.

Sabes, mãe, eu também entendi os desabafos dele, sobretudo os alibis do seu péssimo exercício. Estou a falar do médico, do pulha. Aquele senhor doutor, e outros senhores doutores do hospital, bem que mereciam o castigo divino, já que humanamente nada mais podemos que sentenciá-lo, aqui e agora, no papel branco. E, por economia, aproveito a recomendar o castigo divino, já que o humano escasseia, de todos os educadores e professores que neste mundo quase de cegos recusam o desempenho humanizado da educação.

Que eu não quero mal ao feliz doutor, que, diz-se, anda muito ocupado com investigações. Eu também sou investigador, sabe senhor doutor, não disse nada, faço a autopista de santiago. E ando a fintar o trilho académico para melhor exercer o papel de pai, de educador, de tutor, sabe senhor doutor.

Foi um rodopio constante, um vaivém entre o centro de saúde, a academia e o hospital. Foi mais de um mês de solidão, de incertezas, de medos e de raivas. De uma grande revolta contida.

Todos os dias sonhava com a saída da Antonieta daquele antro com nome de gente na lapela. Dali para outro hospital público, onde outro senhor professor doutor, menos incompetente, mas sempre muito ocupado, o dos ombros altos caro leitor, foi um tiro de espingarda automática, na ilusão de que a nossa filha estava na rampa de acesso à razão.

Uma razão outra, simples e de luz, com menos razões das que a nossa capacidade gera e tem por certas, verdadeiras e belas, qual heroísmo de caminhante em busca da superioridade divina.

Tu sabes, mãe, quanto vale a vida e a saúde da nossa filha, rematou, agora grávido de fadiga.

 No dia que se seguiu revelou um extenso registo num maço de papéis guardado em jeito de recordações, da Antonieta, escrito no hospital no dia do pai, escrito que começava assim: os meus votos, neste dia, que é teu, são de que passes um ótimo dia.

Ainda não é a antiga Antonieta que te vai falar, mas também acredito que não voltarás a ter a tua princesa, visto que houve uma transformação demasiado ampla e grave para que tudo volte a ser igual.

Só agora tenho plena consciência de que não posso pretender remediar todos os males que fiz ou que me fizeram, pois fazem parte do passado. E desse passado temos de retirar somente um conhecimento mais profundo. Sei que fiz coisas incríveis, das quais me arrependo em cada minuto, mas aconteceram e nada o pode mudar, a não ser não voltar a cometê-las na medida do possível. Se me fizeram coisas más, há que tentar compreender e perdoar. E continuou, cheia de serenidade.

Espero sair desta prisão uma pessoa nova, reformulada. Porém, com a certeza que esta doença me vai acompanhar pelo resto dos meus dias. Isto não é a apresentação de um futuro fatídico, simplesmente é a aceitação de uma realidade. Não vale a pena fazer promessas quando não se tem a certeza daquilo que somos capazes. Estou aqui a reconhecer a minha fraqueza.

Só queria voltar a trás e apagar alguns momentos, mas como remediar tudo isto, este é um dos pensamentos que me atormenta, chego a reconhecer que este medo de enfrentar o passado é o que me mantém aqui. É desesperante olhar para trás e ver tanto mal, se houvesse forma de esquecer.

Vou falar-te do hospital, pai, onde me enterraram.

Isto aqui é frio, cada dia que passa é um calvário, passam tantas coisas pela minha mente e recordo acontecimentos diariamente, alguns que já não me lembrava. É angustiante viver neste mundo de loucos onde a cada momento a minha capacidade de raciocínio e de mens sana são postos à prova.

Quando sair daqui creio que vou precisar de uns dias de retiro longe de todos os que conheço, fazer uma espécie de adaptação à vida aí fora. Sinto-me como uma presidiária, o que me tem aguentado é a fria calma que tenho em mim. A minha amiga Hermenegilda é o meu pilar: caso contrário, já teria dado em louca. Mas este foi o destino que escolhi e agora tenho de prosseguir.

Quero que saibas que a filha que tu tinhas morreu, que está para nascer uma Antonieta nova, defeituosa, adulta e livre, que pode escolher o seu futuro e cujas consequências só ela tem de enfrentar. Os médicos têm razão, sou adulta, já é tempo de eu crescer e de sentir na pele a dura realidade. E se no final destas férias vou para a casa pequena é porque acho que é o local onde devo viver, onde tenho prazer de fazer o meu dia-a-dia: abomino a casa nova da cidade grande.

Claro que esta independência que reivindico não é total pelo facto de me manter dependente de dinheiros, do vil metal, mas para solucionar isso espero a ajuda, não de um pai, mas de um conselheiro. Acho que não estou a pedir algo impossível, no fundo quase tudo permanece dentro dos parâmetros antigos. Só desejo que quando sair daqui o passado já esteja saneado. E tudo o que eu fizer será única e somente responsabilidade minha. Esta é a única condição que coloco. Evidentemente que poderás não estar de acordo, mas estou a escrever o que sinto.

Há já muito tempo que não pegava numa caneta para escrever o que quer que fosse e se agora o faço é porque nos míseros cinco minutos da visita não posso dizer a barafunda que vai dentro da minha cabeça a enlouquecer.

Tenta perceber, António, qual é o estado de uma pessoa que quando olha para trás só vê erros e mais erros. Vai ser difícil enfrentar as pessoas, deveras difícil. Chego a pensar que até é bom o médico não me deixar ver mais ninguém. Esta é uma prisão perfeita.

Mas esta carta teve na mira um único assunto: o dia do pai.

E é a ele que agora me dirijo: tem paciência e não te martirizes, afinal a doente sou eu, e quero que saibas que és tudo para mim: pai e amigo, aquele que um dia confiou em mim. Obrigada por tudo. Um beijinho da tua filhota, Antonieta, na entrada do novo milénio. Metade da minha energia vem da minha amiga, uma suicida incompetente, colega de sofrimento.

Abraça-me pai.

 

 

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