Opinião

A metade que falta…

Está lá tudo. Naquele pequeno aparelho que abraça os ouvidos a cada apito inicial. Os protagonistas. As fintas sobre o relvado. Os golos. Os sorrisos e as lágrimas. Mas o que dantes era diálogo tornou-se agora em monólogo. É o timbre da minha voz  que reina sobre os auscultadores. Uma espécie de Onda Média que vence a frequência modulada no campeonato do Éter. Tem sido como voltar ao antigamente. Falta o sonoro. Vieram os tempos do futebol de cinema mudo.
Sem aquelas preces e maldições que saem dos bancos de plástico duro, sem as gargantas que se rebentam em ovação, sem aquele abraçar o parceiro do lado que grita golo até á exaustão das cordas vocais, o desporto mais amado de todos perdeu a pele que o envolvia. O órgão fundamental.
É certo que não há futebol sem jogadores, treinadores e árbitros.  O jogo continua e a soma das vitórias e empates a mover classificações. Porém os 90 minutos não são mais do que a solidão entre o jogador e as redes da baliza adversária. Para os que produzem milagres sobre chuteiras já não é possível receber declarações de amor eterno vindas daquela imensidão de betão. Deixaram de se escutar os corações derretidos a a cada toque de calcanhar, os silvos de descontentamento por qualquer decisão arbitral. Até o locutor que grita golo como sempre sabe, agora, que aqueles 20 segundos em que não respira e emperra a emoção na letra O, soam a metade como nunca. A metade  que falta. Neste futebol sem adeptos.

Fernando Eurico

 

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