Música
Primavera Sound Porto: quando o ativismo político é excesso de informação e aborrece
A terceira noite do Primavera Sound Porto voltou a encher para o concerto dos britânicos Massive Attack, que ocuparam os ecrãs com mensagens múltiplas para refletir. A edição deste ano do festival somou, segundo a organização, 120 mil espetadores e já há datas marcadas para o próximo ano. Será a 10, 11, 12 e 13 de junho de 2027.
14 de junho 2026

A prática é recorrente nos concertos dos Massive Attack e o propósito é nobre. Agitar consciências, provocar reflexão e impulsionar as pessoas para agir está na base das imagens e vídeos que a banda britânica exibe nos seus espetáculos e faz parte da encenação. Mas corre o risco de se tornar entediante, por ser informação excessiva e por desviar a atenção da música, para a mente do público vaguear por realidades paralelas.
E isso aconteceu no concerto que o grupo de trip-hop inglesa trouxe à terceira noite do Primavera Sound Porto. Com um recinto, mais uma vez, cheio, os Massive Attack abriram o espetáculo com um longo vídeo de uma mulher a defender a importância de ser ela própria, a que se seguiram longas imagens de números e de letras gerados por computador. Perante a demora no arranque da música, ouvia-se, no meio da multidão, comentários como “isto já começava”.
Dado o arranque, a sucessão de temas foi sendo intercalada com vídeos e imagens sobre uma imensa diversidade de temas. Entre eles, experiências científicas com animais. O poder do algoritmo e o questionamento sobre se o ser humano é real e se tem importância. O poder das máquinas por oposição à condição humana e à vulnerabilidade humana. A aldeia global em que todos são digitalizados por scanners que fazem reconhecimento facial. A exploração das terras raras, na República Democrática do Congo, para a obtenção de químicos essências ao fabrico de tecnologias modernas, equipamentos de Defesa e de transição energética. A defesa das democracias e excertos de notícias televisivas a lembrarem que o K Pop nasceu de protestos políticos, depois de um massacre na Coreia do Sul. A crítica ao capitalismo e à forma como a guerra de Donald Trump no Irão influencia os mercados e faz várias empresas enriquecerem e desviarem dinheiro para offshores. E outro elefante na sala: o genocídio que está a ser cometido na Palestina, que levou um dos elementos da banda a dizer “Resist” e o público a responder em uníssono “Free, free Palestine”.
Cumprido o alinhamento de temas do último álbum e de alguns sucessos antigos, a mensagem estava passada, mas a sensação de desfoque era comentada por algumas pessoas presentes no meio da multidão. “Ou penso no que eles escrevem ou oiço e sinto a música”, lamentava Maria Lopes, que tinha muita expectativa para ver este concerto. Certo é que, sendo a arte musical e o ser humano mais do que letras e números nos ecrãs, é através da combinação de Homem-Máquina que a Cultura pode galvanizar contra os poderes corruptos que os Massive Attack fazem questão de denunciar.
A edição deste ano do Primavera Sound Porto somou, de acordo com a organização, 120 mil espetadores e já há datas marcadas para o próximo ano. Será a 10, 11, 12 e 13 de junho de 2027.



