Cultura

Impressionante realismo de Maurizio Cattelan exposto em Serralves

Faltam poucos dias para terminar a exposição “Sussurro”, do artista italiano Maurizio Cattelan, patente na Casa de Serralves no Porto. Mas quem assumir como resolução de ano novo visitar esta mostra, patente até 18 de janeiro de 2026, não se arrependerá. Nas 26 obras presentes em Serralves, algumas das quais polémicas, destaca-se o extraordinário realismo e o apurado humor e ironia críticos, por vezes incomodativos, em peças que questionam e subvertem os limites dos sistemas de crenças e de valores contemporâneos. Até uma réplica da Capela Sistina é tão igual à verdadeira.

Se, ao primeiro olhar, o visitante é confrontado com imagens corriqueiras, com as quais está familiarizado, uma observação mais apurada pode confrontá-lo com emoções reprimidas e transformar-se num murro no estômago, numa violência emocional. As obras expostas na mostra “Sussurro” e as imagens que elas representam refletem o olhar do artista sobre as mudanças históricas e os traumas causados por episódios que marcam a História. Mas, ao invés de uma voz serena e delicada, “Sussuro” é uma voz que grita, que agride o olhar e que não se conforma.

Na obra “Noventeo”, por exemplo, o cavalo embalsamado no teto do átrio da entrada da Casa de Serralves, suspenso em cordas e arnês, tem uns olhos vidrados e lânguidos que perturbam pela imagem de sofrimento que transmitem, apresentando-se como um símbolo silencioso de ume época em declínio, de violência e de desencanto coletivo.

“Bidibidobidiboo”, um pequeno esquilo embalsamado, tombado sobre uma mesa de cozinha, com uma arma no chão, pode ser interpretado como a realidade da violência doméstica, tantas vezes vivida como tragédia silenciosa.

Já na obra “Sunday”, somos confrontados com uma parede de painéis reflexivos em aço inoxidável banhado a ouro, cravejados de buracos de balas, e, no chão, o público observa “All”, nove cadáveres alinhados e cobertos por lençóis brancos, metáfora dos tempos modernos de guerras e de desastres naturais que tantas vítimas fazem por todo o mundo.

As sensações simultaneamente sublimes e perturbadoras que a arte de Maurizio Cattelan provoca estão, não apenas no que representam, mas também nos detalhes realistas. Numa escultura sem título que recria uma mulher de tamanho real, de bruços e presa pelos pulsos, numa alegoria à Crucificação, dentro de uma caixa de madeira que faz lembrar um caixão, o corpo, feito em resina pintada, parece mesmo o de uma pessoa viva. Nas pernas da mulher, até é percetível a porosidade da pele e as pregas das linhas da pele. Na palma dos pés, a cor mais escurecida mostra a sujidade de quem parece ter caminhado descalça até ali chegar.

A mesma sensação de veracidade e naturalismo causa o rosto do Papa João Paulo II, na peça “La Nona Ora”. Nesta obra, que tanta controvérsia gerou, por mostrar o Sumo Pontífice caído no momento em que é atingido por um meteorito, agarrado à férula papal e rodeado de vidros partidos, as rugas do rosto do Papa, as sobrancelhas brancas e o cabelo branco são tão realistas que parece que ele está perante nós, vivo, apenas a dormir uma serena sesta.

Outros detalhes realistas estão presentes, por exemplo, nos pelos dos pés de outra peça que recria o próprio Maurizio Cattelan e na obra “We”, que consiste em dois autoretratos do artista. Dois corpos, deitado numa cama, vestidos com fatos escuros, remetem para uma imagem fúnebre tão verdadeira, suscetível de incomodar os mais sensíveis.

Já um objeto quotidiano também espelho do realismo brutal do artista é a obra “Comedian”, que se transformou na banana mais famosa e mais polémica do mundo. Consiste numa banana, colada à parede com fita adesiva, que se tornou um fenómeno mediático mundial, por ser acompanhada de um certificado de autenticidade e por ter sido vendida, em 2024, num leilão, nos Estados Unidos, por 6,2 milhões de dólares. Esta banana mais não é do que uma crítica satírica e uma provocação ao mercado da arte, questionando o valor atribuído a objetos banais, questionando a própria definição de arte e a superficialidade do mundo artístico contemporâneo.

O expoente máximo da capacidade de Maurizio Cattelan reproduzir o que observa e atribuir-lhe novos significados talvez esteja na joia desta exposição: uma instalação que apresenta uma réplica, em escala reduzida, da Capela Sistina, no Vaticano. Nesta instalação, são visíveis cópias rigorosas dos célebres frescos de Miguel Ângelo, como é o caso da Criação de Adão e do Juízo Final. Ao reproduzir e ao recontextualizar aquele que é um dos espaços mais emblemáticos da história da arte ocidental e do património artístico – a Capela Sistina – e ao deslocalizá-la para outro ambiente, num outro cenário, Maurizio Cattelan propõe uma reflexão crítica sobre a noção de originalidade, propõe um questionamento sobre a relação entre a arte e o poder, sobre o papel das instituições culturais e religiosas na definição do valor artístico, sobre como produzir e consumir a arte preservando o passado, mas simultaneamente adaptando-a à contemporaneidade e à necessidade de manter a identidade cultural coletiva. Porque, no fundo, a arte também é isso mesmo: a mudança na continuidade.

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