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Suede apresentaram no Porto receita para a (des)ordem emocional

Pôr a nu sentimentos, traumas e a fragilidade da vida humana, com guitarradas de rock alternativo pós-punk. Apresentar um espetáculo simultaneamente intimista e intenso, em jeito de experiência partilhada, percorrendo temas de quase todos os discos editados. E provar em palco que, apesar dos quase 60 anos de idade do vocalista e das quase quatro décadas de carreira, os Suede são difíceis de bater em atuações ao vivo. Foi esta a receita apresentada pela banda britânica, ontem à noite, no Super Bock Arena, no Porto, durante o concerto de promoção de “Antidepressants”, o décimo álbum do grupo. A mesma prescrição é válida para esta noite, no Campo Pequeno, em Lisboa.

A frase “Broken music for broken people” escrita no ecrã do palco, antes do início do concerto dos Suede, ontem à noite, no Super Bock Arena, no Porto, podia ter induzido em erro. Essa frase, que é o título de uma das músicas do novo disco da banda britânica, poderia sugerir a ideia de que música quebrada para pessoas quebradas soaria a um murmuro sombrio, soturno e depressivo, mas foi exatamente o oposto.

O novo disco, chamado “Antidepressants”, que o quinteto britânico veio apresentar ao pavilhão da cidade invicta, confirma que a música é uma terapia para a desordem emocional que sempre esteve na base das letras do vocalista e das composições do grupo.

Brett Anderson descreve o álbum “Antidepressants”, o décimo da carreira dos Suede, lançado no passado dia 5 de setembro, como um disco que fala das tensões, da instabilidade e da fragilidade da vida e da sociedade modernas, que expressa paranoias, neuroses e ansiedade e que espelha a procura de conexão num mundo desconectado. As novas canções são, por isso, confessionais, com uma forte carga emocional e representativas da nova fase de vida do artista e da banda, até porque como o vocalista chegou a dizer no passado, tem interesse em documentar a sua vida em todas as fases.

Aos 58 anos, Brett Anderson continua a compor letras poéticas, intensas, focadas na urgência da cura interior e na vida urbana britânica e continua a provar que é um dos melhores performers em palco e ao vivo, das últimas décadas. Mostrou-o, durante uma hora e meia de espetáculo, em que habilmente misturou canções praticamente desconhecidas com êxitos antigos, em que percorreu quase todos os dez discos até hoje editados pela banda e em que nunca se cansou de tentar estabelecer conexão com a plateia de um pavilhão metade vazio.

Logo na primeira música, “Disintegrate”, o cantor pediu ao público para mostrar as mãos e bater palmas, repto que repetiu no segundo tema da noite, “Antidepressants” e que replicou ao longo de todo o concerto, conseguindo a adesão entusiasmada dos presentes. Depois dessa música que fala dos nossos estados de alma infinitos, Brett Anderson disse “bem vindos ao mundo dos Suede”, desceu do palco para vir tocar nas mãos dos fãs da primeira fila do recinto e cantou “Trash”, o êxito do álbum “Coming Up”, de 1996. Seguiu-se “Animal Nitrate”, do álbum de estreia de 1993, canção após a qual Brett Anderson ajoelhou-se no palco para interpretar “We are the Pigs”, do disco “Dog Man Star”, editado em 1994. O alinhamento prosseguiu com “Personality Disorder”, tema do primeiro disco da banda. Depois, Bret Anderson deitou-se no chão, a bater palmas, desafiando o público a acompanhá-lo com braços no ar, ao som de “New Generation”, sucesso que integrou o disco Dog Man Star. O vocalista perguntou ao público “vocês são a nova geração?” e os presentes responderam com um ruidoso “yes”. O desfile de sucessos prosseguiu com “Film Star”, música integrante do disco “Coming Up”, editado em 1996, ao longo da qual Brett Anderson fez rodopiar o fio do microfone, um gesto tão característico nas suas atuações. Já os acordes de “Can’t Get Enough” se ouviam e o front man dos Suede voltou a puxar pelo público para cantar com ele este tema do disco “Head Music”, lançado em 1999.

A sequência musical prosseguiu com “June Rain”, mais um tema do novo disco “Antidepressants”, e com Brett Anderson a descer novamente do palco, para tocar nas mãos dos fãs junto às grades. Depois, ouviu-se “She Still Leads Me On” e “Shadow Self”, duas músicas do álbum Autofiction, apresentado em 2022. Seguiu-se “Trance State”, mais uma canção nova do mais recente trabalho discográfico, e a balada “The Wild Ones”, que foi um dos temas mais famosos extraído do disco “Gog Man Star”, de 1994. Nesta melodia, Brett Anderson desviou o microfone da frente da boca e, durante alguns segundos, cantou sem microfone, para que a audiência o ouvisse num registo mais despido e genuíno. No fim, o cantor voltou a pedir as mãos do público no ar e interpretou “Everything Will Flow”, do disco de 1999, “Head Music”. Depois, um recuo a 1993 para se ouvir “So Young”, pertencente ao álbum de estreia homónimo da banda, e mais um convite ao público para bater palmas ao som do êxito “The Beatiful Ones”, outro hit integrante do disco “Coming Up”, de 1996. Nesta canção, Brett Anderson voltou a descer do palco, mas desta vez não ficou entre o palco e as grades. Enfiou-se no meio do público para cantar com ele este hino sobre a rebeldia da juventude hedonista e urbana, obcecada por sexo, drogas e prazeres imediatos. Finda essa música, o quinteto retirou-se do palco por breves instantes e regressou com “Dancing With the Europeans”, o primeiro single do novo disco, um single que explora a procura de ligação entre as pessoas. Mais uma vez, o vocalista desafiou o público a cantar com ele as frases do refrão que iam aparecendo no ecrã, tentando “construir um momento” como ele próprio expressou, no início do tema. O espetáculo terminou com um “obrigada, boa noite e Deus vos abençoe” e com a sensação de que, se a música é um antidepressivo eficaz para unir e ligar pessoas e para partilhar experiências, os Suede são exímios nessa receita.

Nas entrevistas que já deu para promover este novo trabalho, Brett Anderson chegou a referir-se a “Antidepressants” como “medicação para a tristeza” porque, disse ele, “a música é o meu antidepressivo”. O disco comporta também uma crítica à medicalização, tendo o cantor alertado para o facto de a condição humana e a sociedade contemporânea estarem a ser transformadas numa prescrição médica.

“Antidepressants” torna-se, por tudo isso, essencial no percurso, na intensidade e na relevância desta banda com trinta e sete anos de carreira e na descoberta interior do público que ouvir as canções deste disco. Quem quiser experimentar este “remédio” pode ver a banda de britpop atuar, esta sexta-feira, 20 de março, no Campo Pequeno, em Lisboa, a partir das 21 horas. Entre as 20h00 e as 20h30, atuam os escoceses Swim School, tal como aconteceu no concerto do Porto.

Estes dois espetáculos, no Porto e em Lisboa, fazem parte da digressão deste ano dos Suede, intitulada “Antidepressants: Dancing With The Europeans Tour”. De resto, o grupo já passou por Portugal, pelo menos, sete vezes: além destas atuações em 2026, os Suede atuaram no nosso país em 2022, no festival de Vilar de Mouros; em 2019, no Festival Vodafone Paredes de Coura; em 2013, nos coliseus de Lisboa e do Porto; em 2011, na Queima das Fitas do Porto; em 1999, no Festival de Paredes de Coura; e em 1997, no Festival Sudoeste.

 

Foto: DR

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2 Comments

  1. “O alinhamento prosseguiu com “Personality Disorder”, tema do primeiro disco da banda.”

    O primeiro disco da banda tem mais de 30 anos e o “Personality Disorder” tem apenas 4 anos e é do nono disco.

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