Entrevistas

José Dias Egipto: “Não consigo viver sem escrever”

Foi médico, ajudou a fundar uma unidade de cuidados intensivos neonatais e percorreu o norte do país para ir buscar recém-nascidos a outros hospitais. José Palha escreve poesia desde a adolescência, sob o pseudónimo de José Dias Egipto. No novo livro, Dicionário Íntimo, junta pela primeira vez prosa e poesia, revisita memórias e homenageia quem o marcou. Quer pôr os leitores a pensar. A obra será apresentada no dia 23, no Círculo Universitário do Porto.

Agência de Informação Norte – Depois de vários livros de poesia, contos e ensaio, publica agora Dicionário Íntimo. O que distingue esta obra das anteriores?
José Dias Egipto  – Nesta obra, pela primeira vez, junto prosa e poesia. Achei que, depois do meu último livro, “Pensa agora – reflexões do outono da vida”, precisava de voltar à poesia, não deixando de continuar a refletir sobre assuntos que me interessam, como a busca crescente da espiritualidade numa sociedade materialista em que a própria democracia se desmorona por dentro. O outro livro falava dos anos da Covid e das perspetivas que essa época pudesse mudar as mentalidades e o consumismo e fizesse que a humanidade voltasse a valorizar o meio ambiente e a solidariedade social. Tudo acabou por voltar ao que era, sem o mínimo de reflexão e de correção do rumo político e social. Depois de uma longa vida em que tive a sorte de assistir e participar numa revolução social e política, muitas lembranças ficaram e novos fenómenos apareceram, como se a história fosse circular e o que era novo se tornou velho e vice-versa.

O livro reúne pensamentos, memórias de pessoas e acontecimentos e poesia. O que o levou a revisitar o passado e a reunir estas recordações?
No fim de uma vida, há muitas pessoas e recordações que nos marcaram. São o fruto de uma época completamente diferente da nossa, que ficam como testemunhos para os vindouros conhecerem. Por outro lado, tenho pessoas que me marcaram na minha juventude e meninice que quero homenagear como testemunho da minha gratidão. Numa época em que se vive só no presente e onde há uma falta de cultura histórica e espiritual, trazer essas figuras e situações pareceu-me pertinente.

A cada letra do alfabeto corresponde um poema, dois textos, uma citação e uma fotografia. Porquê esta estrutura?
Não há uma razão especial para tal. Foi apenas uma ideia de estruturar o livro de uma forma diferente que me surgiu espontaneamente.

A memória é seletiva e nem sempre corresponde à realidade dos acontecimentos. Como lidou com essa distância entre aquilo que viveu e o que recorda?
A memória em mim é, de facto, muito seletiva. Geralmente, esqueço-me facilmente da espuma dos dias e só recordo o que foi marcante no meu passado. Procurei ser o mais possível fiel aos acontecimentos e às pessoas de quem falo, mas é evidente que há sempre um fator subjetivo nas lembranças.

Ao escrever sobre pessoas que fizeram parte da sua vida, onde estabeleceu os limites entre aquilo que podia partilhar e o que preferiu guardar para si?
De uma maneira geral, nada escondi. É a minha visão das coisas, que pode ser diferente do que outras pessoas pensam. Ao escrever sobre a espiritualidade, estou certo que irei contra a visão de muitas pessoas, mas a minha intenção é dar-lhes outra visão e pôr os leitores a refletir noutros pontos de vista.

“Que os meus livros nunca sejam indiferentes aos leitores”

 

Na capa do livro escreve sobre a distância entre dois tempos de uma explosão e aquilo que fica do mais íntimo estilhaço. O que pretende transmitir com estas palavras?
Esta frase pertence a um poema sobre a escrita poética. “O poeta é um fingidor”, todos sabemos, e a escrita poética é livre dos espartilhos da prosa. Na poesia, há sempre uma fuga à realidade e uma liberdade total na inspiração do momento. Por isso, um poema pode ter, para quem lê, várias interpretações, e cada um sente-o de maneira diferente. Essa ambiguidade reflete a própria “realidade” do poema.

Publicou o primeiro livro de poesia, O Silêncio das Palavras, em 1999. Mais de 25 anos depois, o que mudou na sua forma de escrever?
Na poesia, nada mudou. Comecei a escrever poemas na adolescência e hoje, ao ler esses poemas, continuo a identificar-me com eles. Há sempre uma depuração da linguagem com o tempo, mas, no essencial, as mesmas preocupações estão lá hoje como há 25 anos. Na prosa, deixei a subjetividade dos primeiros escritos e hoje debruço-me mais sobre reflexões sobre o estado do mundo em geral e sobre a espiritualidade em concreto.

Dedicou grande parte da sua carreira médica à Neonatologia. De que forma o contacto com a fragilidade da vida influenciou a sua escrita?
A pediatria sempre foi a minha escolha desde a faculdade. A neonatologia foi um grande desafio, dado que fui eu e outros colegas que fundámos a primeira unidade de cuidados intensivos neonatais no então Centro Hospitalar de Gaia. Fiz também parte das primeiras equipas do INEM no transporte de recém-nascidos que necessitavam de cuidados intensivos e percorri o norte de Portugal, de dia e de noite, para os ir buscar a outros hospitais. A fragilidade daqueles seres, que pesavam muitas vezes 600 gramas, e salvá-los de uma morte certa foi para mim um grande desafio e uma grande alegria. Penso que a pediatria em geral e a neonatologia em particular são a poesia da medicina, uma vez que cada recém-nascido e cada criança trazem em si a luz da pureza e da inocência, o que nos torna próximos da transcendência em cada dia de trabalho.

Durante vários anos conciliou a Medicina com a literatura. Que influência tiveram estas duas áreas uma sobre a outra?
A vivência dos dramas humanos sempre levou os médicos à escrita e temos centenas de médicos escritores. Há mesmo a Sociedade Portuguesa dos Escritores e Artistas Médicos (SOPEAM), de que sou sócio desde o início, com grande atividade literária. Cheguei mesmo a ganhar o prémio de poesia da sociedade no ano de 2010, para além de várias menções honrosas em anos anteriores.

Depois de mais de duas décadas de publicações, o que continua a motivá-lo a escrever e o que espera que os leitores encontrem neste Dicionário Íntimo?
Não consigo viver sem escrever. São inclinações que trazemos desde muito novos e que não temos explicação racional. Como sempre fui pouco entusiasta do convívio social, é no isolamento e na reflexão que preencho as minhas horas livres e sinto necessidade de as transmitir aos outros. Espero que os leitores gostem ou não gostem dos meus livros, mas que nunca lhes sejam indiferentes. Gosto de os pôr a pensar numa época de verdades feitas, de muita informação e de pouca reflexão e de procura do diálogo franco e aberto.

 

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