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Olga Cardoso: Morreu a “menina da rádio”. Tinha 91 anos
A morte de Olga Cardoso aos 91 anos interrompe o trajeto de uma das vozes mais reconhecidas da rádio portuguesa, cuja vitalidade e ligação ao público permaneciam centrais no seu discurso, como sublinhou nas últimas entrevistas concedidas à Agência de Informação Norte.
3 de dezembro 2025
A carreira de Olga Cardoso construiu-se a partir de uma convicção antiga. Desde criança, dizia aos pais que queria ser “menina da rádio”, expressão que retomaria anos mais tarde para explicar a forma como viveu a profissão. Morreu esta quarta -feira, aos 91 anos, depois de um AVC sofrido na madrugada de 1 de dezembro. A notícia foi avançada pelo amigo e colega António Sala e confirmada pela Agência de Informação Norte.
António Sala reagiu nas redes sociais à morte da colega com quem, durante quase 18 anos, apresentou ao lado de Olga Cardoso o programa de rádio Despertar. O radialista lamentou a perda da amiga de longa data numa mensagem emotiva partilhada esta madrugada. “Tenho o coração partido. A Olga já não está fisicamente entre nós. Partiu durante esta madrugada. Querida Olga, obrigado por tudo”, escreveu na primeira publicação. Horas depois, António Sala revelou que Olga Cardoso sofreu um AVC nas últimas horas, confirmando a causa da morte.
Numa nova mensagem, deixou um longo tributo à antiga companheira de rádio. “Pela amizade, pelo companheirismo, pela ternura, pelos momentos inesquecíveis, pela tua gargalhada única, que nunca irá desaparecer dos nossos ouvidos e do coração de quantos acordaram com a tua voz jovial ao longo de milhares de manhãs”.
“Até sempre, amiga e companheira de tantos e tantos anos de aventuras inesquecíveis. Descansa em paz eterna, amiga Olga”, concluiu.
Numa das últimas entrevistas concedidas precisamente à Agência de Informação Norte, Olga Cardoso afirmava que a idade nunca a intimidara. “Sinto-me uma menina de 20 anos”, disse, mesmo reconhecendo que a saúde já lhe ia “pregando algumas partidas”. Na mesma conversa, recebendo a equipa de reportagem em casa, descrevia o ambiente doméstico como o seu refúgio. “Gosto de estar em casa. Este é o meu ninho”, afirmou, antes de revelar que também apreciava viajar.
A ligação à rádio surgiu cedo. “Eu sempre disse aos meus pais que queria fazer rádio”, recordou. Quando lhe perguntavam o que ambicionava, respondia sempre: “menina da rádio”. Acrescentava que a paixão era tal que precisava de ter “o rádio sempre ligado”. O percurso concretizou-se quando tinha apenas 15 anos. “O meu explicador de matemática escrevia novelas radiofónicas que eu ouvia” e foi ele que a levou a conhecer a ORSEC, onde tudo começou. Nessa primeira visita, recebeu um texto para ler. “Gostaram muito da minha voz e é aí que tudo praticamente nasce”, confidenciou.
A entrada formal na rádio concretizou-se em 1949 na ORSEC. Passou depois pela Rádio Porto e pelo Rádio Clube do Norte, até ingressar na Rádio Renascença em 1964, movimento que marcou um ponto de viragem na sua carreira. Participou em vários programas, mas foi o Despertar, nas décadas de 80 e 90, que acabaria por defini-la perante o grande público. Primeiro com Fernando de Almeida, mais tarde com António Sala, que descreveu a parceria como um momento criativo singular. Para Olga, a dinâmica do programa beneficiava do facto de estar no Porto enquanto Sala se encontrava em Lisboa. “Acho que deu muita vida ao programa, era algo inovador, porque era tudo feito na perfeição, que as pessoas pensavam que estávamos juntos”, assumia na mesma entrevista.
As memórias acumuladas ao longo de 17 anos de Despertar eram, para si, inesquecíveis. “Recebia mais de 100 cartas por semana”, recordou. As edições ao vivo do programa, que juntavam milhares de pessoas, ocupavam um lugar especial. “Era uma verdadeira loucura. As pessoas faziam fila. Tínhamos ouvintes que iam de véspera para ficarem mesmo junto do palco”, afirmou. A forma como o público imaginava a sua voz também a divertia. “Sempre tive uma voz jovem e as pessoas pensavam que eu era uma miúda. O segredo só foi revelado quando apresentei pela primeira vez o Despertar ao vivo e perceberam que eu afinal já era velhota”, disse entre risos.
A televisão ocupou igualmente um lugar importante no seu percurso. “Adorei fazer a Amiga Olga. Foi um programazinho que marcou uma geração”, referia. A estreia televisiva, com o concurso A Amiga Olga, da TVI, em 1993, prolongou-se por mais de um ano. O gosto pela televisão nunca se perdeu. “Já estou velhota, mas gostava de repetir a experiência”, assumiu com uma gargalhada.
Aos 50 anos, decidiu cantar, porque “sempre abracei todos os desafios que me davam”. Editou Bom dia, Amor e mais tarde Cor de Rosa Claro. Via cada oportunidade como um prolongamento natural da curiosidade que guiara a sua vida profissional.
Falava da morte com a mesma franqueza com que evocava o trabalho. “Estou sempre pronta para desafios e até para morrer”, afirmou. Tinha os planos definidos. “Quero ser cremada e que as minhas cinzas sejam lançadas ao mar”.
A voz que acompanhou várias gerações, e que marcou a história da rádio portuguesa desde o pós-guerra, extinguiu-se esta terça-feira. Mas permanece nas memórias, nos testemunhos e na forma calorosa como o público continuava a tratá-la – como Amiga Olga.



