Entrevistas
Richard Zimler: “Todas as noções de pureza e perfeição são ridículas”
A intolerância, o fundamentalismo religioso e a perseguição de quem é considerado diferente estão no centro do novo romance de Richard Zimler. Em A Beleza das Coisas Imperfeitas, o escritor imagina uma sociedade futura onde a imperfeição é punida, numa reflexão sobre os perigos do autoritarismo e a condição humana.
20 de outubro 2026

Agência de Informação Norte – Depois de tantos anos a explorar a História, escolheu agora a distopia para falar do presente. O que é que este futuro imaginado lhe permitiu dizer que talvez não conseguisse dizer através de uma narrativa histórica? Sentiu que, ao afastar a ação do nosso tempo, ganhou maior liberdade para observar os mecanismos do poder e da intolerância?
Richard Zimler – A decisão de situar um romance no futuro não foi planeada. Um dia, de repente, tive a ideia de um mundo em que a imperfeição e a impureza fossem punidas por uma organização religiosa fundamentalista e agressiva, dotada de um exército poderoso que ataca continuamente as Vilas e Cidades Livres. Acredito que esta ideia surgiu, porque estou preocupado com a atual situação mundial, sobretudo com a possibilidade de as democracias na Europa e na América serem substituídas por ditaduras e de os seus cidadãos perderem a maior parte, ou mesmo a totalidade, dos seus direitos civis. Sabemos, pela história, que as ditaduras em locais como a Europa e a América do Sul geralmente atuam em conluio com uma hierarquia religiosa repressiva. Foi o caso em Portugal, por exemplo. Este processo já está avançado nos EUA, onde um punhado de bilionários sem escrúpulos controla quase todos os meios de comunicação social e onde as campanhas políticas são frequentemente determinadas por quem obtém maior apoio financeiro desses mesmos homens extremamente conservadores. É também um país onde as igrejas evangélicas ultraconservadoras e os seus seguidores podem determinar os resultados eleitorais no Texas, no Arkansas, em Oklahoma e em muitos outros estados. O que mais me preocupa na atual perda de direitos civis nos EUA é o desenvolvimento do ICE, uma espécie de polícia secreta que prende, detém e expulsa imigrantes, mesmo aqueles que têm o direito legal de permanecer na América e de continuar as suas vidas sem medo de perseguição.
De que forma é que essas preocupações com o presente influenciaram a visão do mundo que constrói na trilogia?
Situar a trilogia 300 anos no futuro deu-me a liberdade de extrapolar as atuais crises mundiais e imaginar para onde nos dirigimos. Como será o mundo se Putin, Netanyahu e Trump provocarem mais guerras e se uma delas se transformar num conflito total em que sejam utilizadas armas nucleares? Pela primeira vez na minha vida, isso parece-me uma possibilidade real, sobretudo quando recursos como o petróleo e o gás se tornarem escassos e as alterações climáticas obrigarem muitos milhões de pessoas a fugir das zonas tropicais e a tentar estabelecer-se na Europa e nos EUA.
Dito isto, a minha nova trilogia não é abertamente política. É claro que essas mensagens podem ser lidas nas entrelinhas, mas classificaria os três livros que compõem O Voo dos Anjos Caídos como obras com temas muito pessoais. Um deles é, por exemplo, a importância de reconhecer o lugar significativo que a imperfeição ocupa nas nossas vidas, razão pela qual o título do primeiro livro — A Beleza das Coisas Imperfeitas — me parece maravilhoso. No meu caso, os problemas de saúde que enfrentei ao longo dos últimos dois anos têm sido uma lembrança, muitas vezes difícil, mas também instrutiva, da minha própria imperfeição e da necessidade de fazer as pazes com ela.
O título do romance parece encerrar uma ideia essencial: a de que aquilo que nos torna imperfeitos pode ser precisamente aquilo que nos torna humanos. Foi essa a intuição que esteve na origem do livro ou chegou a ela através das personagens e da escrita?
Sim, exatamente! E obrigado por tê-lo dito!
Tal como referi na minha primeira resposta, a imperfeição esteve, de facto, na origem da trilogia. Quando falamos de seres humanos, penso que todas as noções de pureza e perfeição são ridículas. Sinto vontade de rir sempre que alguém se refere a algo como «pureza racial» ou «sangue português puro». Essas coisas não existem. A genética ensinou-nos há muito tempo que somos todos uma mistura de diferentes populações. Em Portugal, temos a obrigação de estar bem conscientes disso, pois este país foi colonizado por ibéricos, romanos, visigodos, alanos, mouros, judeus e muitos outros povos. Felizmente, os portugueses são todos uma mistura de diferentes culturas. Digo «felizmente» porque sabemos, pela genética, que esta enorme diversidade é uma característica muito positiva. Além disso, a variedade de pessoas que aqui vivem acrescenta uma riqueza cultural que aprecio imenso.
Assim que me surgiu a ideia de explorar um mundo onde a imperfeição é punida, as personagens apareceram espontaneamente. Consegui intuir as suas características emocionais e intelectuais, sobretudo o medo de serem declaradas imperfeitas por causa de algo tão simples como um lábio leporino. Imaginem ter de viver com medo de que um representante de uma organização religiosa fundamentalista descubra a nossa «imperfeição» específica e nos condene à morte!
Na sociedade que criou, uma ordem religiosa procura impor uma definição única de perfeição e persegue quem não corresponde a esse ideal. O que o assusta mais neste mecanismo: a violência de quem impõe a norma ou a facilidade com que uma sociedade acaba por aceitá-la?
Ambos! Se olharmos à nossa volta, verificamos que muitas sociedades perseguem ativamente as minorias que não correspondem ao seu ideal de como os cidadãos devem ser. Nos EUA, por exemplo, o racismo continua a ser alarmantemente comum. Muitos milhões de pessoas brancas naquele país defendem a ideia de que qualquer pessoa com ascendência africana é menos inteligente do que elas e de que a própria presença dessas pessoas mina a cultura americana. Isso fica muito claro nos discursos de Trump, e os 77 milhões de pessoas que votaram nele nas últimas eleições presidenciais concordam, obviamente, com ele. Infelizmente, Trump e outros líderes de extrema-direita proferem constantemente esse tipo de obscenidades e manifestações de ódio. Veja-se também o Afeganistão, onde as mulheres nem sequer têm o direito de frequentar a escola. Os talibãs consideram as mulheres inferiores e defendem que permitir-lhes prosseguir os estudos seria perigoso, pois lhes daria ideias sobre viver de forma independente e lutar por uma vida plena sem a aprovação dos pais, maridos e irmãos.
Esta repressão das mulheres perturba-me imenso. E, em vez de melhorar, penso que a situação está a piorar em muitos países. Nos EUA, por exemplo, existem movimentos entre os jovens que os encorajam a dominar e a controlar as namoradas — e a recorrer à violência se elas se opuserem a tais abusos. O desenvolvimento desta chamada «cultura guerreira» entre os jovens é muito alarmante.
Falcão é um jovem que vive num mundo marcado pela violência, mas cuja vida está profundamente ligada às pessoas que ama. O que o interessava explorar nesta personagem: a coragem de enfrentar o poder ou a fragilidade de alguém que tem muito a perder?
Sim, queria explorar a coragem dele e a sua determinação em defender os entes queridos da repressão. Suponho que isto tenha a ver com a minha própria perspetiva. Deixem-me explicar.. Embora líderes como Putin e Netanyahu me deixem bastante pessimista quanto ao futuro do nosso mundo, tenho grande fé nas pessoas corajosas que lutam contra eles e contra outros líderes desprezíveis em todo o mundo. Penso que vamos precisar de nos unir e demonstrar a nossa coragem se quisermos colocar o mundo num caminho melhor. Por exemplo, se quisermos resolver os problemas climáticos e restaurar valores humanos como a empatia.
Uma das questões centrais do romance é o sacrifício que fazemos por aqueles que amamos. Até onde pode ir essa responsabilidade sem se transformar numa forma de prisão, de culpa ou de perda de nós próprios?
Essa é uma pergunta muito boa e difícil de responder. Diria que somos todos indivíduos com diferentes graus de disposição para sacrificar as nossas próprias necessidades a fim de ajudar os outros. Os meus problemas de saúde nos últimos dois anos ensinaram-me que, por vezes, preciso de cuidar de mim antes de me dedicar emocionalmente à vida dos meus amigos. Afinal, se não estiver em boa forma psicológica e física, como poderei cuidar de outra pessoa de forma responsável e útil? Por isso, penso que cada um de nós precisa de encontrar um equilíbrio entre a empatia pelos outros e a proteção de si próprio. Esse equilíbrio muda ao longo das diferentes fases da nossa vida e sofre oscilações. É uma consequência de sermos humanos.
Embora o romance decorra séculos depois de uma catástrofe, a perseguição dos diferentes e a manipulação das crenças continuam a ser forças centrais da narrativa. Ao escrever este livro, estava sobretudo a imaginar um futuro possível ou a procurar compreender melhor o presente?
Ambos. Escrever um livro cuja ação se passa no futuro (ou num passado distante) proporciona frequentemente ao escritor a perspetiva necessária para analisar o nosso mundo atual com maior clareza. Vejamos, por exemplo, as guerras atuais no Irão, na Palestina e na Ucrânia. A partir de um ponto distante, deixamos de as ver como acontecimentos separados porque, afinal, não são assim tão distintos. Têm um traço comum que as une: a mentalidade belicosa, narcisista e criminalmente violenta dos líderes mundiais que criaram esses conflitos. Temos de reconhecer claramente esse traço comum se quisermos ter alguma esperança de lutar contra ele e eleger presidentes e primeiros-ministros mais inteligentes, éticos e sensíveis.
Este romance abre um universo que continuará nos dois volumes seguintes. Que perguntas fundamentais gostaria que acompanhassem o leitor para além deste primeiro livro, sem revelar o que ainda está por acontecer?
O primeiro romance termina com o narrador, Falcão, em grande perigo e obrigado a fugir para um território desconhecido. Uma vez lá, vê-se obrigado a tentar adaptar-se a uma sociedade extremamente diferente e a reconhecer que talvez nunca mais consiga regressar a casa. No entanto, depressa descobre que este novo mundo tem algo em comum com o seu: a organização religiosa fundamentalista contra a qual ele e a sua família lutaram, a Aliança, estabeleceu uma forte presença na cidade onde passa a viver. As punições que os seus membros infligem a alguns dos novos amigos de Falcão, por os considerarem imperfeitos, fazem-no perceber que não tem outra escolha senão encontrar uma forma de destruir o poder da organização, se possível. No entanto, essa linha de ação poderá custar-lhe a vida.
Se pudesse deixar ao leitor uma única pergunta depois de fechar A Beleza das Coisas Imperfeitas, qual gostaria que fosse?
Será que Falcão tem coragem suficiente (e a ajuda dos amigos) para levar a cabo o plano incrivelmente engenhoso, audacioso e perigoso que concebeu para destruir a organização religiosa fundamentalista que o ameaça, a ele e aos seus entes queridos, desde que era criança?
Texto: Andreia Gonçalves
Foto: Revista Estante



