Opinião

Entre memórias, guerras e vozes: António Lobo Antunes

Nasceu em Lisboa, em 1942, António Lobo Antunes, num país ainda fechado sobre si mesmo e sobre as suas próprias memórias. Talvez por isso, a memória tenha ocupado sempre um lugar tão forte na sua obra. Formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria, profissão que lhe ensinou a escutar as vozes interiores das pessoas. Mais tarde, essas vozes ganharam forma em personagens inquietas e frases longas, onde o passado pesa e daí nasce Memória de Elefante.

Nos anos 1970, a vida levou-o para longe de casa. Como médico militar, foi enviado para Angola durante a guerra colonial. Ali conheceu a solidão, o medo e o absurdo da guerra, voou até “os Cus de Judas”. Essa experiência marcou-o profundamente como homem e escritor. Assim que, regressou a Portugal, trouxe consigo as imagens e os fantasmas desse tempo, que mais tarde daria novos contornos através da literatura.

Regressou a Lisboa, entregou-se à medicina, um psiquiatra num hospital, entre vidas e brancas paredes.  Corredores de silencio, histórias com dores camufladas, outras derramadas de sofrimento, e assim mergulha no profundo Conhecimento do Inferno humano. O contacto com a fragilidade da mente e com as inquietações tornou-se matéria-prima em bruto, para os seus romances, sempre atentos às sombras e às contradições da condição humana.

Nos seus livros, as vozes misturam-se como num Fado Alexandrino cantado à meia-luz e com os acordes de guitarra acolhedoras. Personagens, memórias e destinos cruzam-se num retrato intenso de um país que procura compreender o seu próprio passado. A escrita de Lobo Antunes tornou-se uma das vozes da literatura contemporânea, marcada por profundidade psicológica e uma linguagem com poder, que nunca irá calar-se.

António Lobo Antunes venceu o Prémio Camões em 2007.

Entre lembranças de infância, ecos da guerra e histórias onde fez renascer muitas vidas, António Lobo Antunes construiu uma obra literária intensa e marcante. Uma obra que nos lembra que a literatura, tal como a memória, nunca fica em silêncio, continua sempre a falar connosco, mesmo quando parece apenas sussurrar. Ou quando o corpo se despede do mundo terreno.

Andreia Carneiro

Foto: DR

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