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Leonor Trindade Sousa: “O completo não existe para um artista”
Aos prémios internacionais e às exposições em espaços como o Carrousel du Louvre, em Paris, Leonor Trindade Sousa junta agora a estreia na poesia com “Sinopse da Alma”, livro onde reúne pintura e escrita. Em entrevista à Agência de Informação Norte, a artista fala sobre o universo feminino, o reconhecimento conquistado fora de Portugal e a necessidade permanente de criar.
14 de maio 2026
Agência de Informação Norte – O lançamento de “Sinopse da Alma” marca uma nova etapa no seu percurso. O que encontrou na escrita que não consegue dizer através da pintura?
Leonor Trindade Sousa – Na escrita consigo entrar em zonas específicas da consciência que, na pintura, se dissolvem. A pintura transforma a experiência em presença. A escrita transforma a experiência em consciência. Complementam-se porque, muitas vezes, uma revela o que a outra não consegue.
Em “Sinopse da Alma”, a pintura acompanha os poemas em praticamente todas as páginas. Quis que imagem e palavra fossem lidas como uma única linguagem?
Na verdade, não foi esse o principal objetivo. “Sinopse da Alma” é um livro de poesia onde revelo sentimentos e emoções transversais a quase todas as mulheres. As imagens são pinturas de mulheres que fazem parte da minha obra. A compilação da obra escrita com a obra pintada acabou por criar esse resultado visual que, francamente, me deslumbra. Complementam-se.
As ilustrações têm uma presença emocional muito forte no livro. O que procurou acrescentar aos poemas através da componente visual?
Beleza, cor e técnica, de forma a tornar a leitura mais suave e visualmente mais apelativa.
A intimidade e a vulnerabilidade atravessam tanto os textos como as imagens. Foi um livro mais difícil de expor do ponto de vista pessoal?
Não, porque, como digo, por força das circunstâncias, o tema da mulher é aquele que melhor domino, penso eu. Tenho quase cinquenta anos de profissão a lidar com mulheres de todos os extratos sociais. Aquilo que, através da leitura, deixo transparecer como pessoal foi a forma que encontrei de dar voz ao coletivo feminino.
“Sinopse da Alma” aproxima-se de um objeto artístico e não apenas de um livro de poesia. Que experiência quis criar para o leitor?
Quis mostrar a sensibilidade e a vulnerabilidade do ser humano, neste caso mais centrada nas mulheres.
Depois da pintura e da escrita, o que ainda procura enquanto criadora?
Acredito que todo o artista é uma alma plena de inquietude. Nunca estou satisfeita. Procuro uma certa coincidência entre aquilo que vivencio, o que consigo transmitir e aquilo que ainda me falta sentir.
Começou a vida profissional como cabeleireira, numa altura em que a pintura parecia um sonho distante. Sentiu que teve de conquistar espaço na arte sem os apoios e os percursos mais tradicionais?
Sim, é um caminho de muita luta e resiliência onde sou eu mesma, sem artefatos. Nunca esperei, nem espero, nada de ninguém. Simplesmente deixo fluir.
Sendo autodidata, sente que construiu uma linguagem artística mais livre e pessoal?
Sim. Não estou presa a nenhuma linha nem técnica artística. Deixo brotar a intuição. Vou usando a técnica adquirida não como um fim, mas como uma necessidade interior de autossatisfação, numa procura permanente pela descoberta.
O contacto diário com pessoas, ao longo da vida profissional, influenciou também o seu olhar artístico?Sim. De forma consciente ou não, o contacto diário, principalmente com mulheres, obriga-me, de uma forma mais emotiva, a sentir as suas fragilidades. Este contacto permanente com o ser humano também me ensinou que nenhuma emoção é totalmente linear.
O Carrousel du Louvre, em Paris, acabou por marcar a projeção internacional da sua obra. O que mudou a partir dessa exposição?
Sim, a exposição no Carrousel du Louvre é um marco simbólico na minha carreira, não pelo protagonismo inerente nem pela ampla visibilidade da minha obra, mas pela confiança adquirida, não no sucesso, mas no caminho onde sou fiel à minha identidade.
O quadro “Fado” tornou-se uma das suas obras mais conhecidas além-fronteiras. Continua a vê-lo como um momento decisivo da sua carreira?
Sim, foi o trampolim que me permitiu criar uma ligação emocional muito forte com o público. Com a sua projeção internacional confirmei que é possível transformar raízes pessoais e culturais em algo universal.
Continua a sentir maior reconhecimento fora de Portugal do que dentro do país?
Sim, mas entendo perfeitamente a razão. O olhar externo vê a obra com curiosidade e sem preconceito. Portugal tem uma relação peculiar com os seus artistas, em quase todas as áreas. Sinto que é necessária esta projeção externa para que Portugal reconheça o nosso trabalho.
Acredita que o fator sorte teve um peso importante no seu percurso?
Acredito que a sorte, por si só, não sustenta um percurso. É preciso muita resiliência, trabalho contínuo e sentir esse chamamento em busca de mais e melhor. Penso que a minha sorte é esta vontade e disponibilidade interior que me assola e me obriga a alimentar, quer através da pintura quer da escrita, esta inquietude.
Como olha para o apoio dado à cultura e aos artistas em Portugal?
“Um país sem cultura é um país sem identidade”. Portugal peca pela forma como trata os seus criadores, pois sinto que somos complementares. É muito difícil um artista viver da sua arte e ainda mais difícil para um artista autodidata, porque o nosso povo continua muito focado nos licenciados.
“A minha inspiração vem do que vejo, do que ouço e do que sinto”
Um artista consegue hoje viver apenas da sua obra em Portugal?
Depende dos objetivos de vida. Acredito que é muito difícil para a grande maioria, sendo que a grande diferença está entre viver e sobreviver. Muitos artistas têm de manter outra atividade profissional para conseguirem fazer face às despesas inerentes à sua arte. Vivem em constante instabilidade financeira e emocional para alimentar aquilo que é uma necessidade de existência e expressão.
Trabalha entre o figurativo e o abstrato e utiliza diferentes técnicas e materiais. A experimentação continua a ser uma necessidade no seu processo criativo?
Não gosto de estar presa a nenhuma linguagem ou técnica. A pintura, para mim, é uma necessidade constante de experimentação e é nela que o meu processo se mantém vivo.
O que a inspira a pintar?
A minha inspiração vem do que vejo, do que ouço e do que sinto. Neste conjunto de movimentos tento saciar esta sensação de infinito. O material disponível é um fator preponderante, aliado ao cheiro, ao som e à imagem, para os alicerces da minha inspiração.
Em obras como “Fado”, “Maria” ou “Anjos Coloridos”, surgem referências à identidade, à memória e à condição humana. São assuntos que regressam inevitavelmente ao seu trabalho?
Nestas obras, a identidade surge como pergunta e não como resposta. São memórias fragmentadas onde a condição humana expõe as suas fragilidades e perdas. É um tema onde, através da matéria, exponho o meu próprio olhar sobre sentimentos e emoções.
As figuras femininas ocupam um lugar central na sua pintura. O universo feminino continua a ser uma das suas maiores inspirações?
Sim, sem dúvida, é uma das minhas grandes inspirações. Sinto que, em cada composição, construo e organizo emoções dentro da imagem, acedendo a estados de sensibilidade que, através da pintura, procuro constantemente tornar visíveis.
A sua obra aborda causas sociais como a violência sobre crianças, mulheres e idosos. A pintura pode também funcionar como forma de denúncia?
Sim, esse é um dos meus objetivos. Através da pintura tento confrontar a consciência, denunciando, de uma forma menos explícita do que através das palavras, aquilo que me corrói a alma. Sinto que, desta forma, não sou indiferente a estes problemas que tanto assolam a condição humana.
Porque sente necessidade de transportar essas inquietações para a tela?
Porque me inquietam. Porque me doem. Porque há e não podem ser ignoradas. Através da imagem apelo à consciência e à empatia, também porque fazem parte da forma como observo e sinto o mundo.
“Sou branca, mas sinto que tenho alma negra”
Os quadros ligados à pandemia da covid-19 receberam 17 prémios internacionais. Aquele período alterou a sua forma de criar?
Sim, alterou e muito. A covid-19 permitiu-me ganhar uma consciência muito elevada da fragilidade humana. Confrontei-me com a vulnerabilidade e com aquilo que realmente é essencial. Senti que o nosso tempo não é o tempo que queremos. Senti que a impermanência deixa marcas e faz eco.
Há algum quadro que considere especialmente autobiográfico?
Na minha obra “Negras” sinto que defino o meu autorretrato interior. A cor, a textura e a imagem de duas mulheres negras simbolizam a alma da mulher que sou e a da minha filha. Sou branca, mas sinto que tenho alma negra. Naquela pintura guardo uma experiência profundamente pessoal.
O que lhe ensinou a arte ao longo da vida?
Aprendi, através da arte, a ver o invisível e a sentir aquilo que há de mais complexo dentro de mim. Aprendi a transformar experiência em sentido, silêncio em linguagem e memória em presença.
Falta alguma coisa para a sua carreira estar completa?O completo não existe para um artista e muito menos para uma carreira artística. Há, isso sim, uma sensação permanente de busca e procura. Há a necessidade de aperfeiçoamento e de olhar o mundo com mais empatia e sentimento, tentando viver o presente com verdade, coerência e entrega. Quando conseguir atingir essa plenitude, sentirei a minha missão artística completa.
Como gostava de ser recordada?
Gostava de ser recordada pela humanidade que tentei deixar na minha obra. Gostava de ser recordada pela artista que usou a pintura e a escrita como forma de mostrar a sua sensibilidade e autenticidade.
Se pintasse uma tela que resumisse a sua vida, como seria esse quadro?
Seria uma tela composta por cores muito intensas, invocando memórias vivas, e por pontos negros, evocando a ausência dessas mesmas memórias, desvanecidas no tempo. Uma mistura de figurativo e abstrato, repleta de fragmentos texturizados, evocando as erosões e sobreposições com que a vida me tem presenteado. Seria uma tela onde nada seria totalmente definido, tal como a vida, que dificilmente se apresenta de forma linear e acabada.
A Agência de Informação Norte agradece ao The Editory Artist Baixa Hotel a cedência do espaço para a realização da entrevista, bem como a colaboração e disponibilidade demonstradas.



