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36.º Festival Internacional de Marionetas do Porto regressa em outubro
O corpo como mapa, o movimento como linguagem e os objetos como portadores de mistério. É esta a proposta do 36.º Festival Internacional de Marionetas do Porto (fimp’25), que regressa de 10 a 19 de outubro, com um programa que convoca trajetórias entre o íntimo e o coletivo, o passado e o futuro.
18 de setembro 2025

O lema do 36º Festival Internacional de Marionetas do Porto (fimp’25), que decorre entre os dias 10 e 19 de outubro, propõe uma espécie de geografia do corpo, com coordenadas e eixos, com o movimento que se inscreve nessa dinâmica: “De dentro para fora, de fora para dentro, de trás para a frente e por aí adiante…” Esta proposição comete a ousadia tendencial do desafio de mapear o(s) corpo(s), mas mais do que ‘um exercício de cartografia anatómica’, vincula um conceito. Um conceito que não se confina somente ao corpo, mas às coisas e objetos e aos seus mistérios, à beleza ou ao carácter estranho que esses elementos integram. Nestas combinatórias encontramos também viagens no tempo, na história, em direção ao futuro.
Igor Gandra, diretor artístico do fimp’25, discorre sobre o lema que orienta a filosofia programática do projeto: “É na combinação destes gestos que nos encontramos na grelha de partida para mais uma edição do Festival internacional de Marionetas do Porto…” e prossegue de forma mais explícita, depois do introito: “Nesta prova, em que só se perde por falta de comparência, os prémios são muito tentadores, vejamos: a revelação do funcionamento das coisas e dos mistérios do corpo, o desejo de mostrar o que as normas ditam esconder, o regresso aos lugares de onde viemos, a vontade de imaginar alternativas… há muito para ver nesta edição!”, conclui em jeito de convite o responsável.
O manancial de opções é vasto no âmbito da programação, o fimp’25 configura um roteiro teatral de largo espectro, com propostas para o público mais adulto, mas também para crianças. A iniciativa congrega a participação de 25 companhias, 12 portuguesas e 13 estrangeiras oriundas de países como Austrália, Bélgica, Brasil, Filipinas, Líbano, Alemanha, Holanda, França, Escócia, Inglaterra, Espanha.
*Passaremos a (a)enunciar os espetáculos e respetivas companhias, bem como as demais ações e atividades previstos, sem fazer menção a dias e horários (uma opção para que o documento não se torne ainda mais extenso), toda essa informação mais detalhada consta no site do fimp’25 (https://2025.fimp.pt/), bem como no documento que enviamos em anexo.
De dentro para fora, (…)
No capítulo das companhias portuguesas, a oferta do fimp’25 é de monta. “Crankies de fazer chorar as pedras da calçada”, a cargo da companhia lisboeta A Tarumba, entra no fimp’25 na categoria das estreias absolutas. A partir de ‘crankies’ ou panoramas de movimento, com imagens em rodopio, Musiscópios com histórias-canções de fazer chorar baba e ranho, de chorar que nem uma madalena, de ver e chorar por mais, com lágrimas de crocodilo e a chorar com um olho e a rir com o outro! Uma proposta que promete divertimento em diversos equipamentos / palcos do Festival.
A coreógrafa e performer Constanza Givone, artista italiana radicada em Portugal, propõe “Astra 8”. Mas a dúvida subsiste: “Astra 8” será um planeta ou uma planeta? No qual cabe o infinito. É um espetáculo que versa a vida e os seres que aí habitam, que assumem múltiplas formas e tamanhos, criaturas que são extraordinárias. A exploração destas caraterísticas singulares dos diferentes seres que habitam o planeta, as suas correspondências e as relações que estabelecem e o facto de se poderem multiplicar, metamorfosear e ‘simbiotizar’ é algo fascinante, pois é mesmo dessa matéria que vive esta fantasia feita história que Constanza nos quer contar.
“As mais belas coisas do mundo”, espetáculo dirigido pela coreógrafa Joana Providência (Teatro do Bolhão), tem estreia absoluta nesta 36ª edição e parte do texto de Valter Hugo Mãe, que versa um diálogo entre avô e neto: evocação à beleza e a necessidade de acreditar. A importância de uma relação preciosa, onde “inventar perguntas é aprender” e que aqui assume a forma de um diálogo entre marionetas e atrizes.
O coletivo Marionetas do Porto traz à cena o seu mais recente trabalho, também em estreia absoluta, “Sr. Aníbal”. A sugestão d’As Marionetas do Porto passa por um espetáculo que reflete sobre a velhice e alguma solidão. “Ao acompanhar este personagem fazemos uma viagem sobre as rotinas do seu dia-a-dia e os seus contratempos. No espetáculo, a companhia faz uma abordagem aos objetos do quotidiano que carregam a sua própria memória, a sua função e a sua metáfora, enquanto reflete sobre a velhice nos tempos atuais.”
O Teatro de Ferro vai ao Arquivo Zombie e resgata A Tripa – Criada para o TOP · Teatro de Objetos do Porto em 2023 e, entretanto integrada no Arquivo Zombie, esta é uma pequena performance que tem como protagonista uma personagem controversa da gastronomia local: A Tripa enfarinhada. Apreciada por alguns, considerada repugnante por muitos, integra receitas populares como os rojões embora também seja servida autonomamente (frita e polvilhada com cominhos, por exemplo), este petisco é um verdadeiro enigma. Quando exposta na montra do talho, produz autênticas paisagens surrealistas… Esta é uma tripa muito peculiar e até mesmo bastante sensível. Bom apetite!
“Memorabília”, da companhia Alma d’Arame, explora como a relação objeto/ performer é potenciada pela manipulação, projeção de imagens e ilustração sonora em tempo real. O lugar físico da performance é assim reconstruído no espaço digital, criando uma diversificação de escalas e pontos de vista que gradualmente transformam objetos comuns em atos de pura imprevisibilidade.
A Red Cloud (Aveiro) apresenta a peça “Bonecos”. Trata-se de uma criação que absorve várias influências culturais a partir de um mergulho em contos africanos. Desenvolve o imaginário tradicional dos contos e a sua importância, aliando o vasto universo das marionetas e as técnicas que a Red Cloud Teatro de Marionetas tem vindo a explorar. O processo contempla “novas” e “velhas” tecnologias, num processo evolutivo e circular entre toda a equipa. Um jogo de disfarces entre animais, servindo-se dos homens e vice-versa. Haverá um totem por ali?
A Leirena Teatro, companhia proveniente da cidade do Lis, é portadora “A Maior Flor do Mundo e As Pequenas Memórias”. A peça parte do cruzamento das memórias de um menino com as lembranças do próprio autor, no caso, José Saramago. Há uma poética visual nesta revisitação convertida em espetáculo que é uma viagem ao passado com um vértice de alíneas: a infância, o tempo e as descobertas.
(…) de fora para dentro, (…)
A expetativa é grande em conseguir que o público do Festival possa aceder finalmente ao espetáculo da companhia libanesa Collectif Kahraba “Géologies d’Une Fable”, que no ano passado face à tensão e guerra no Médio-Oriente não pode estar presente na abertura da iniciativa. A peça promete ser tocante, por todos os motivos, como se depreende.
No capítulo das estreias em solo nacional, importa destacar o trabalho da companhia espanhola El Patio Teatro, com “Entrañas”, um espetáclo, que enquanto nos fala sobre o corpo biológico – órgãos e funcionamento – nos obriga à interrogação existencial. O corpo enquanto portador de memória e o mistério da existência, num binómio que consagra a vida e a morte.
A matéria ao dispor dos espetadores do fimp’25 vislumbra-se num menu de crescente intensidade e fôlego à medida que vamos somando as propostas. “HUNTER”, o trabalho que Courtney May Robertson traz ao Festival, é um poderoso questionamento sobre lugar do corpo feminino feito a partir dos estereótipos do cinema de género. Courtney e o seu doppelganger (duplo) marioneta, levam-nos, ao som de Techno, a visitar lugares escuros da intimidade e a participar em estranhos rituais.
“Hybridation”, por seu turno, marca o regresso de Olivier de Sagazan ao fimp, após a apresentação de “Transfiguration” na edição de 2020, uma performance arrebatadora em registo solo do artista visual, pintor e escultor francês, que deixou água na boca há cinco anos e que agora tem neste trabalho em duo, também em estreia nacional, o capítulo seguinte. Nesta peça, os corpos dos performers fundem-se com o barro e a tinta manipulados ao vivo.
E no domínio dos regressos ao Festival, Agnès Limbos sublinha o retorno com “Les Lettres de Mon Pére”. A criadora e atriz viveu no Congo Belga durante um breve período da infância, quando o pai deu aulas/formação nesse território africano. Aquando da independência do Congo, Agnés é enviada de regresso ao seu país e passa a viver com um tio padre durante um ano, isto até nova reunião familiar. E, para esta peça, traz as cartas do progenitor como fonte da memória desse tempo colonial. Trata-se na essência de uma visão de criança que revisita um tempo de abandono, de paternalismo colonial, e em que ela questiona o comportamento e responsabilidade dos pais face à condição em que a deixaram.
“What to do in a Puppet Emergency”, completa o desfile dos espetáculos em estreia nacional. Mark Down diz-nos 10 coisas que podemos fazer numa emergência com marionetas, de modo a salvar a vida de uma marioneta, num espetáculo “Engraçado, informativo e salva-vidas. Que mais se pode querer?”
“Summer of 69”, do coletivo belga TOF Theatre, a julgar literalmente pelo título, “esta canção” não pertencerá a Brian Adams! É sim sobre a memória de um piquenique muito animado – para adultos bem-humorados.
O fimp é também o lugar para revisitar as formas da tradição no teatro de marionetas, “Punch and Judy”, da companhia britânica Hand to Mouth Theatre revisita um dos formatos tradicionais anglo-saxónicos mais conhecido.
Numa edição feita de múltiplos regressos, saúda-se a presença da companhia neerlandesa Hotel Modern que tão boa conta de si deu ao público do fimp com “Our Empire” (2023), mas também com “Kamp” (2020), dois espetáculos que sobressaíram na vasta paleta de propostas teatrais que o Festival deu conhecer nos últimos anos. Desta vez trazem-nos “Shrimp Tales” (Contos de Camarão), uma história satírica sobre a Humanidade, afinal essa espécie exótica cujos membros praticam desporto, ciência, lutam, vivem, fazem amor e perdem a cabeça. Os protagonistas podem ser encontrados à venda na peixaria da maior parte dos supermercados, com preços que variam habitualmente entre os 11 e os 13 €.
Da Austrália chega “ANITO”, uma peça em estreia nacional, cuja temática incide sobre a crença que os filipinos, os ancestrais e os atuais, possuem acerca da existência de uma força vital ou alma que habita todas as entidades, animadas ou inanimadas, estes espíritos são conhecidos por “ANITO”, uma sugestão de Justin Talplacido Shoulder & The Future Folklore Collective. Esta peça, portadora de uma inventiva plasticidade, explora o potencial de cosmogonias alternativas e outros modos de imaginar o mundo, a nossa espécie e as outras.
“Mitz’s Human / The cat paradox” é outra peça em estreia nacional. Trata-se de uma viagem surpreendente, engraçada e cómica, ao local de convergência entre as marionetas, a física quântica e o desejo humano de compreender e tentar dar sentido a tudo.” Este é um trabalho de Ariel Doron, que a partir da Alemanha trabalha para o mundo inteiro.
O fimp é palco de experimentação e de contacto entre público e artistas na nossa já estabelecida rubrica WIP (Work in Progress), onde será possível espreitar o que andam a fazer a Alma D’Arame e o Teatro de Ferro, a investigação de Filipe Silva, a companhia Cegonha- Bando de Criação, ou o trabalho de João Calixto.
Foto: DR



