Entrevistas
Teolinda Gersão: “As histórias são sempre maiores do que nós”
A escritora Teolinda Gersão acredita que "hoje o mundo parece pequeno e sem mistérios, mas também essa é uma falsa visão das coisas. Ainda não nos encontrámos sequer a nós próprios, nem sabemos quem somos". Em entrevista à AIN, a propósito da nova edição de Histórias de ver e andar, a autora fala da literatura como um espaço de descoberta, memória e resistência, num tempo marcado pela velocidade e pela desumanização.
21 de julho 2026

Agência de Informação Norte – Em Histórias de ver e andar, o desconhecido surge muitas vezes dentro daquilo que nos é mais familiar. O que a atrai nesse território aparentemente banal do quotidiano?
Teolinda Gersão – O quotidiano é muito menos banal do que imaginamos. Se prestarmos atenção, encontramos nele muitos aspetos surpreendentes.
Esta nova edição convida a revisitar contos escritos num outro tempo, mas que continuam profundamente atuais. Que novas leituras acredita que o livro hoje desperta?
Um livro que consiga ver abaixo da superfície vai manter-se atual, porque a espécie humana permanece praticamente igual a si própria ao longo do tempo. O acessório muda, a essência não. Os leitores de hoje aderem às histórias como os leitores de 2002.
As personagens desta coletânea vivem frequentemente entre o silêncio, a solidão e a dificuldade de comunicação. O que lhe interessa explorar nessas zonas mais invisíveis da experiência humana?
Estas zonas interessam-me justamente porque não são visíveis. Há em todos nós lugares de sombra, dúvida, solidão, desamparo. Somos vulneráveis e frágeis, criaturas limitadas no tempo, e é preciso ter a humildade de nos reconhecermos assim. Mas, de certo modo, essa humildade também pode ser uma experiência exaltante, porque, apesar de tudo, estamos vivos. Resistimos.
Ao longo do livro, há um olhar muito atento sobre a forma como observamos ou ignoramos quem está ao nosso lado. Hoje, continuamos a saber “ver e andar”?
Hoje, como ontem, como sempre, continuamos a saber “ver e andar” ou a não saber “ver e andar”. Escolhi este título porque era assim que os árabes nomeavam os livros de viagens por continentes desconhecidos. Nessa altura, os mapas eram escassos e, em parte, imaginados. Julgava-se, por exemplo, que a Terra era plana e que havia criaturas disformes noutras latitudes. As grandes navegações traziam relatos inexatos e fantásticos; outras vezes, era a realidade que parecia inacreditável. Era difícil aceitar, por exemplo, que animais como o elefante ou o rinoceronte de facto existissem. Hoje o mundo parece pequeno e sem mistérios, mas também essa é uma falsa visão das coisas. Ainda não nos encontrámos sequer a nós próprios, nem sabemos quem somos. E temos dificuldade em perceber que o “outro” é igual a nós; o “outro” somos nós.
Os seus contos revelam quase sempre uma dimensão escondida da realidade quotidiana. A literatura continua a ser uma forma privilegiada de tornar visível aquilo que normalmente passa despercebido?
Sim, creio que esse é um dos grandes papéis da literatura. A par de outro, igualmente importante: guardar a memória das épocas, das sociedades, dos indivíduos.
O conto é um género literário que exige grande intensidade e precisão. O que mais a fascina na escrita breve?
Por um lado, a capacidade de chegar depressa a um número muito alargado de leitores. Vivemos a correr, e um conto lê-se em qualquer parte: numa paragem de autocarro, entre poucas estações de metro, numa qualquer sala de espera ou nos momentos livres, ao fim do dia, antes de apagar a luz e dormir. Por outro lado, a necessidade e a dificuldade de não suportar erros nem divagações: um conto é uma seta que só tem uma oportunidade de acertar no alvo.
Em muitas destas histórias, o silêncio tem tanto peso quanto as palavras. Escrever também é uma forma de escutar aquilo que não é dito?
Sem dúvida, e essa pergunta é muito importante. A literatura, como a música, também engloba o silêncio, o que fica intencionalmente entre as linhas.
“Big Brother isn’t watching you” acabou por inspirar a curta-metragem Miami. Como viveu a passagem desse universo literário para o cinema?
Foi uma bela surpresa. Essa obra de Simão Cayatte ganhou o primeiro prémio para uma curta-metragem de terror. Ele pegou no tema da forma certa.
O reconhecimento com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco reforçou a importância deste livro no panorama literário português. Que significado teve essa distinção no seu percurso?
Na verdade, não sei bem, porque recebi este prémio por duas vezes (2002 e 2018), e também mais do que uma vez o do PEN Clube (1981 e 1989) e o da APE (1995 e 2024). Ganhei, além disso, os prémios Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Urbano Tavares Rodrigues, entre outros, bem como o Grande Prémio dst de Literatura, em 2023. Os prémios atraem certamente mais recensões críticas e, supostamente, fazem subir as vendas, mas também é verdade que um dos meus livros mais lidos, A Árvore das Palavras, não recebeu prémio nenhum.
Numa época marcada pela velocidade e pela dispersão, os seus contos continuam a propor um olhar atento sobre a condição humana. Acredita que os leitores procuram hoje histórias mais intimistas e humanas?
Creio que sim. Hoje o mundo está tão desumanizado, tão cheio de ódios, preconceitos e guerras, que tudo o que é humano e verdadeiro nos interessa e nos toca. Precisamos de nos reencontrar no mundo dos afetos, das experiências de vida, da coragem de existir. Estamos aqui, somos pessoas vivas e precisamos de comunicar. Contar e ouvir histórias é uma forma de resistir, de estarmos juntos, de viver as vidas de outros, de viver com os outros, de alargar horizontes, porque as histórias são sempre maiores do que nós.
Depois de uma obra tão vasta e reconhecida, Histórias de ver e andar regressa agora aos leitores numa nova edição. O que espera que permaneça no leitor depois da última página?
Gostaria que, depois da última página, o leitor desejasse ler mais livros. Meus ou de outros autores, não importa; o essencial é que quisesse continuar a ler.
Texto: Andreia Gonçalves
Foto: DR



