Entrevistas

Mariana Alvim: “Escolher o amor” também é escolher as amizades

Há laços que não vêm do sangue, mas que podem ser decisivos para enfrentar os momentos mais difíceis. No primeiro romance para adultos, O Amor que Escolhemos, Mariana Alvim parte da amizade entre três mulheres para abordar relações tóxicas, conflitos familiares, homofobia, injustiças e perda, numa história sobre a importância de quem escolhemos para caminhar connosco.

Agência de Informação Norte – O Amor que Escolhemos remete imediatamente para a amizade. Porque quis colocar esse amor no centro da história do seu primeiro romance?
Mariana Alvim: Dou muito valor à amizade. São os amigos que nos salvam desde pequenos, que nos mostram que há diferenças de personalidade, educação, cultura familiar e social. À medida que vamos crescendo, são quem nos ampara nos desgostos de amor, até de amizade, nos desabafos, na troca de ideias, tanto nos disparates como em conteúdos sérios. Sempre valorizei isso. Sobretudo, na intimidade, na confiança e na partilha. E muitas vezes saía de conversas entre amigas a pensar: “Devia escrever sobre isto”. Não é só sobre a amizade, mas sobre todos os temas de que o romance fala: injustiças, narcisismo, famílias difíceis, maus colegas de trabalho, homofobia e tanto mais. E não é nos desabafos que nos amparamos? Conversas com aqueles que escolhemos, que nos ouvem e nos compreendem, mesmo no meio das diferenças. É sobre muito mais do que amizade, este romance. São desabafos íntimos e honestos de pessoas que espelham as reais.

Serão as amizades femininas pouco valorizadas na literatura?
Acho que não. Não senti essa falta enquanto leitora, pelo menos não conscientemente, mas, enquanto escritora, senti a necessidade de ter este como o mote principal de um aglomerado de temas, o fio condutor. No início, até pensei que seria mais um romance, mas o que existe acabou por perder protagonismo. As personagens ganharam vida e mudaram o rumo da história. A força da amizade tem disto.

Se fossem flores, quem seriam Laura, Vitória e Catarina? E porquê?
A Laura seria uma peónia, a flor da sensibilidade, da dignidade silenciosa e da força que resiste apesar das feridas. A peónia simboliza lealdade, honra e bondade. A Catarina seria um hibisco: vibrante, criativo, independente, uma flor que cresce em ambientes difíceis. E é muito associado à culinária, a infusões, a sabores fortes… A Vitória seria um girassol, a flor da resiliência, da alegria que esconde sombras, da força que se vira sempre para a luz. Tem uma energia luminosa, simples, direta e simboliza coragem e esperança, mesmo quando há dor escondida.

Há algum momento da história que tenha sido especialmente difícil de escrever?
Sobre o luto de uma gravidez mal sucedida. Apesar de ser um enredo secundário, é um tema demasiado delicado. Tentei escrever com amor, sensibilidade e, sobretudo, muito respeito.

O que espera que os leitores sintam quando fecharem o livro?
Que não estão sozinhos nos pensamentos escondidos. Que se revejam. Que encontrem aqui amigas verdadeiras e que isso os faça refletir sobre as amizades que têm, que melhorem, que se abram mais, que escolham esse amor, tão vital nas nossas vidas. Tenho recebido algumas mensagens de leitores a dizer que se reviram, que se viram ao espelho, inclusive fotografaram parágrafos e disseram: “É mesmo isto”. Fiquei tão contente. Senti que estou a conseguir cumprir a minha missão.

Conhecemo-la há muitos anos como comunicadora. Descobriu uma nova Mariana ao escrever ficção para os mais crescidos?
Descobri a insegurança que sempre soube ter multiplicada muitas vezes. Quando escrevi para adolescentes, não me lembro de ter tido tanto receio como com este romance. Pela responsabilidade, pela importância dos temas que abordei e, sobretudo, pela exigência, que é minha, em primeiro lugar, e depois a dos leitores.

Que tipo de conversa gostaria que este livro provocasse entre amigos?
Gostava que amigos se juntassem e abordassem os assuntos que os preocupam, que os atormentam. Tive leitoras que disseram que este romance as fez repensar muitas coisas, que até lhes deu coragem. Que seja para se abrirem mais, para se defenderem, para não aceitarem menos do que merecem. Que valorizem a vida e percebam que as relações que escolhem são a ajuda ideal para fazerem esse caminho.

Andreia Gonçalves
Foto: DR

 

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