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Festas do Povo: onze anos depois, Campo Maior volta a florir. Evento só acontece quando a população decide LEAD
Campo Maior, em Portalegre, prepara-se para voltar a abrir as ruas ao mundo. Onze anos depois da última edição das Festas do Povo, o evento regressa entre 8 e 16 de agosto. Mais de quatro mil voluntários vão transformar uma centena de ruas com milhões de flores de papel feitas à mão. Reconhecidas pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade, as Festas do Povo deverão atrair perto de milhão de visitantes. O orçamento é superior a 600 mil euros.
30 de julho 2026

Quando a noite cai, Campo Maior parece adormecer. Mas basta entrar numa das casas onde se fazem flores para perceber que a vila continua bem acordada. À volta das mesas, repetem-se os mesmos gestos, noite após noite. As horas acumulam-se sem que ninguém lhes faça contas. Os olhos cansam-se. As pontas dos dedos ficam marcadas por milhares de dobras, cortes e colagens. Ainda assim, ninguém abranda. Cada detalhe contará, quando chegar o momento de abrir as ruas ao mundo.
O trabalho decorre longe dos olhares dos visitantes. Em casas particulares, sedes de associações e até numa antiga padaria de Rui Nabeiro (1931-2023), transformada numa oficina improvisada, mais de quatro mil voluntários dedicam os serões à preparação das Festas do Povo. Durante meses, milhões de flores vão ganhando forma pelas mãos de quem mantém viva uma das mais marcantes manifestações de cultura popular do país. O resultado será revelado entre 8 e 16 de agosto, onze anos depois da última edição. Em poucos dias, dezenas de ruas transformar-se-ão num jardim a céu aberto. Até lá, há prazos para cumprir, materiais para distribuir e milhares de peças para concluir.
Na Rua 13 de Dezembro, segundo troço, Joana Monteiro coordena uma das equipas responsáveis pela ornamentação. Aos 46 anos, a educadora de infância assume a função de cabeça de rua, organizando materiais, participando nas reuniões da associação, distribuindo tarefas e garantindo que tudo avança dentro do calendário definido. A maior dificuldade, admite, está na gestão do tempo e na capacidade de manter a equipa mobilizada. “O mais difícil são as horas. Temos de cumprir prazos e, ao mesmo tempo, motivar e cativar as pessoas a participarem”.

Fiéis ao tradicional, mas com um toque de inovação
O envolvimento começou ainda antes de a associação distribuir o papel. Joana reuniu os moradores, bateu de porta em porta, para perceber quem queria participar, e apresentou uma proposta para a decoração. A ideia procura respeitar a identidade das festas sem repetir soluções anteriores. “Mantivemo-nos fiéis ao tradicional, mas com um toque de inovação. Quisemos transformar a rua num jardim muito natural”, explica. Para reduzir custos, a equipa recorreu também a elementos recolhidos na natureza, recuperando métodos usados por gerações.
Entre 10 e 15 pessoas participam nos trabalhos, cada uma com o tempo que consegue retirar à vida profissional e familiar. Joana Monteiro conhece bem esse equilíbrio difícil. Mãe de dois filhos, divide os dias entre a profissão, a família e a responsabilidade de fazer avançar a ornamentação. Desde o início do ano, a rotina deixou pouco espaço para tudo o resto. “Os meus dias são trabalho, trabalho, filhos, filhos, flores. Deixei praticamente de ter vida”, graceja.
É à noite que a rua ganha outra vida. Várias gerações trabalham lado a lado, enquanto as crianças brincam e os moradores recebem quem passa. A preparação deixa de ser apenas uma tarefa e transforma-se num ponto de encontro. “Nós trabalhamos na rua, ainda mesmo à maneira antiga. As crianças brincam, há sempre pessoas a passar, vêm pessoas de outras ruas sentar-se connosco, conversamos e mostramos a casa das flores a quem nos visita”.
Quem passa é convidado a entrar e a acompanhar de perto o que está a ser feito. Para muitos dos moradores mais velhos, aqueles serões são também uma oportunidade para sair de casa, conversar e participar numa tradição que continua a atravessar gerações. É nesse convívio que o conhecimento se transmite. Este ano, uma menina de oito anos aprendeu a atar o teto com uma moradora de 81. Joana admite que nem ela consegue executar a técnica da mesma forma. “Tenho 46 anos, não consigo fazer aquele trabalho como ela faz”. Atar o teto exige experiência, destreza e um saber que continua a passar dos mais velhos para os mais novos, diz.
As flores são a imagem mais visível das Festas do Povo, mas há um trabalho essencial que raramente aparece nas fotografias. Enquanto as mulheres se dedicam sobretudo à sua produção, os homens asseguram grande parte da montagem das estruturas, dos arcos, das medições e da colocação do teto. “Fazer flores é importante, mas por trás delas há um teto, arcos, medições e toda uma estrutura que quase nunca se mostra”. Para a cabeça de rua, o teto é “uma arte” e merece o mesmo reconhecimento.
A festa, contudo, não se esgota na ornamentação. Joana Monteiro cresceu a ver as portas de casa abertas para receber quem precisasse de descansar, beber água, petiscar ou simplesmente fugir ao calor. É essa forma de acolher que, acredita, continua a distinguir Campo Maior. “Há muito mais do que as flores. Há o calor humano de bem receber”. Na noite da enramação, esse esforço disperso por casas, garagens e oficinas chegará finalmente à rua. As estruturas serão montadas, os tetos colocados e os adereços de maiores dimensões ocuparão o espaço que lhes foi reservado. Em poucas horas, tudo aquilo que foi preparado durante meses deixará de estar escondido.

Começámos a trabalhar logo em janeiro
Na Rua 5 de Outubro, o trabalho também começa muito antes de as primeiras flores chegarem à rua. Cada passo é planeado ao detalhe para garantir que nunca falta material e que todas as peças ficam prontas a tempo. À frente da equipa está Luís Marvanejo, responsável por coordenar uma das ruas mais emblemáticas das Festas do Povo. Além de distribuir tarefas, acompanha diariamente o ritmo dos trabalhos e prepara com antecedência aquilo que será necessário nos dias seguintes. “Temos de andar a ver o material todo, distribuí-lo e distribuir trabalho para nunca faltar nada a ninguém. Temos de começar a pensar quase uma semana antes naquilo que se vai fazer”, explica à Agência de Informação Norte.
A preparação arrancou logo em janeiro. Antes de avançar para a produção, foi preciso testar a ideia que a equipa queria apresentar este ano. O objetivo mantém-se inalterado: surpreender quem visita Campo Maior sem perder a identidade das festas. “Tentamos sempre trazer uma novidade, algo inovador que nunca tenha sido feito nas festas. Este ano não vai ser diferente. Começámos a trabalhar logo em janeiro e, no final do mês, já tínhamos um troço da rua montado para testar se a ideia funcionava”.
Com 86 metros de comprimento, a Rua 5 de Outubro mobiliza atualmente cerca de 40 voluntários. Quando os trabalhos começaram, eram apenas sete ou oito. O crescimento da equipa acabou por ser determinante para concretizar o projeto. “Foi muito importante termos ajuda de vários sítios para conseguirmos fazer um projeto bonito”. Só o teto deverá receber cerca de 280 mil flores, sustentadas por cinco quilómetros de cordel. São números que ajudam a perceber a dimensão de um trabalho que decorre durante meses e que exige organização quase diária.
A inovação tornou-se uma das imagens de marca da rua. Na última edição, a equipa abandonou a estrutura tradicional e apresentou treze arcos gigantes, cada um composto por 5.200 flores. Luís Marvanejo conta que vários elementos da associação lhe disseram que, este ano, haverá projetos inspirados nessa solução, que considera ter sido pioneira. Ainda assim, a decoração preparada para esta edição continua em segredo. “A minha base vem um bocadinho da arquitetura. Tentei olhar para o teto e pensar como podia fazer tudo com o tradicional, mas dar-lhe um ar completamente novo”.
Conciliar a preparação das festas com a atividade profissional tornou-se um desafio diário. Proprietário de uma loja em Campo Maior, acompanha a organização da rua enquanto atende clientes ao balcão, responde a telefonemas e distribui novas tarefas. À medida que a abertura das festas se aproxima, todo o tempo conta. “A dada altura, deixamos de contar as horas. Esta semana, tenho saído das flores à meia-noite, trabalho na loja até às quatro da manhã e às dez já cá estou outra vez”. A dedicação acabou por invadir também a vida familiar. A casa transformou-se num prolongamento dos trabalhos e deixou de cumprir apenas a função de habitação. “Enquanto eu via paredes e teto, dizia que ainda cabiam mais flores”. A frase resume, diz, os últimos meses. “Desde fevereiro que costumo brincar que não tenho casa. A minha casa é a Casa do Povo”. Apesar do cansaço acumulado, o entusiasmo mantém-se intacto. Quando fala da Rua 5 de Outubro, não esconde o orgulho. “É a rua mais linda da vila. É a principal”. E explica porquê. “Sem ela estar enfeitada de flores, não são as Festas do Povo, é um jardim de papel”.
Ao longo de vários meses, cenas como esta repetem-se um pouco por toda a vila. Em casas, garagens, sedes de associações e antigos espaços comerciais, acumulam-se flores, arcos e adereços que aguardam apenas a noite da enramação. Segundo a organização, mais de quatro mil voluntários participam na edição deste ano. Em agosto, todo esse trabalho ficará finalmente à vista de quem visitar Campo Maior.
As flores acompanham Elsa Muacho desde a infância. Tinha apenas quatro anos quando os pais emigraram para França, mas nunca deixou de acreditar que, um dia, regressaria à terra onde nasceu. Cumpriu essa promessa há 26 anos e, hoje, aos 56, integra novamente a comunidade que, de edição em edição, transforma Campo Maior num enorme jardim de papel. “Fui para França com quatro anos, mas sempre disse que um dia havia de voltar a Campo Maior”. Esta é a quarta vez que participa nas Festas do Povo. Fá-lo sem esperar qualquer recompensa material. O que a move é o sentimento de pertença. “O que me faz fazer este trabalho todo é o amor que tenho à minha terra, ao meu povo e a estas festas, que acho maravilhosas e espero que nunca acabem”.
Os dias dividem-se entre a ótica onde trabalha e os serões passados à volta da mesa a fazer flores. Desde 11 de janeiro, as noites prolongam-se quase sempre até perto da meia-noite. Quem visita Campo Maior durante as festas vê apenas o resultado final. O que fica escondido são meses de organização, logística e entrega diária. “Tem sido muito trabalho, muita dedicação e muito stress, porque há muita logística que quem vem de fora não vê”.
Foi ainda em criança que aprendeu a olhar para uma simples folha de papel de outra forma. Sempre que regressava a Campo Maior nas férias de verão, passava horas ao lado de uma tia que fazia flores. Guarda dessas tardes as cantigas, os bolos, o licor, o convívio e o fascínio de ver nascer uma flor das mãos de quem dominava aquela arte. “Lembro-me dos serões, das pessoas a cantar às saias, do licor, dos bolos e de pegar num bocadinho de papel e fazer uma flor. Achava aquilo tão lindo que sempre quis fazer”. Hoje, é ela quem transmite esse encanto. Explica que o processo parece simples, mas exige criatividade, paciência e persistência para conseguir transformar uma ideia em realidade. “De um bocadinho de papel sair uma flor não é fácil. E quando queremos criar a flor que temos na imaginação também não é fácil, mas conseguimos”.
Nem tudo, porém, são momentos de tranquilidade. À medida que os prazos apertam, o cansaço acumula-se e surgem inevitavelmente pequenas divergências entre quem trabalha lado a lado. Elsa Muacho desvaloriza esses momentos. Garante que passam depressa e dão lugar ao entusiasmo, à medida que Campo Maior começa a sentir a aproximação das festas. “Quando se começa a ouvir o mexer do papel e as pessoas a irem buscar arame à associação, o bichinho começa a mexer cá dentro”. Esse sentimento, diz, espalha-se por toda a vila. As ruas ganham outro movimento, as oficinas improvisadas voltam a encher-se e os serões prolongam-se noite dentro. É o sinal de que as Festas do Povo estão novamente prestes a abrir as portas ao mundo.

“Queremos mostrar ao mundo aquilo que é a nossa arte”
Reconhecidas pela UNESCO em 2021 como Património Cultural Imaterial da Humanidade, as Festas do Povo deverão atrair este ano mais de 400 mil visitantes. A organização estima um investimento próximo dos dois milhões de euros, numa edição que assinala o regresso da maior celebração de Campo Maior, 11 anos depois da última realização.
À medida que agosto se aproxima, cresce também a expectativa em Campo Maior. As ruas aceleram o ritmo, os serões prolongam-se e, em muitas casas, as mesas continuam ocupadas por papel, cola e arame até altas horas da noite. Na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, há mais de 100 mil flores para concluir antes da enramação. É ali que Vanda Portela divide os dias, entre a Associação das Festas do Povo e a coordenação dos trabalhos da rua. O ultimar de preparativos é vivido entre a ansiedade e a confiança de que tudo ficará pronto a tempo. “Já estamos na reta final, ansiosos para que tudo chegue a tempo, mas também com aquele receio de saber se vamos conseguir ter tudo pronto. Queremos mostrar ao mundo aquilo que é a nossa arte, uma arte difícil, feita com muita dedicação e muito amor em cada pormenor”.
A responsabilidade aumenta à medida que se aproxima a abertura das festas, mas garante que o orgulho fala sempre mais alto. Depois de meses de preparação, começa a desenhar-se o resultado de um esforço coletivo que transforma completamente a vila e mobiliza centenas de pessoas. Para Vanda Portela, contudo, as flores representam apenas a parte mais visível da festa. O verdadeiro património está nas relações, durante meses de trabalho partilhado. “O melhor das festas é a união que se cria entre pessoas que, muitas vezes, nem se conheciam. São vizinhos recentes ou pessoas que nem sequer vivem naquela rua, mas que acabam por fazer parte da mesma família”. É essa capacidade de juntar gerações, familiares, amigos e até desconhecidos que, na sua opinião, explica a longevidade das Festas do Povo. Uma tradição que continua a passar de pais para filhos e que se renova a cada edição.
O reconhecimento da UNESCO trouxe um motivo de orgulho acrescido, mas faz questão de sublinhar que o compromisso da população não nasceu com essa distinção. “Não precisamos desse reconhecimento para sentir a responsabilidade. As festas foram crescendo naturalmente”. Depois de 11 anos sem sair à rua, acredita que a vontade de voltar a mostrar Campo Maior ao mundo é ainda maior e que isso se reflete na qualidade dos trabalhos que estão a ser concluídos. “Cada rua quer sempre ultrapassar o que fez na edição anterior. Este ano, tenho visto trabalhos lindíssimos”, afirma.
Quando lhe pedem para explicar o que torna estas festas diferentes de qualquer outra celebração, a resposta surge sem hesitação. “Esta festa transmite união. Faz-nos recordar as nossas origens, quando todos saíamos para a rua, conhecíamos os vizinhos e partilhávamos a vida uns com os outros”. Durante esses dias, diz, a vida deixa praticamente de acontecer dentro de casa. “Levamos a nossa vida para a rua, pomos mesas cá fora e partilhamos a mesa com os vizinhos e até com quem nos visita. É um mundo mágico”.
Nesta edição participam cerca de nove dezenas de ruas e troços. Embora admita ser impossível contabilizar todas as pessoas envolvidas, recorda que, na última edição, Campo Maior recebeu perto de um milhão de visitantes, um número que demonstra a dimensão alcançada pelas Festas do Povo. Destaca, ainda, a colaboração da Câmara Municipal e recorda Rui Nabeiro como uma figura “decisiva para o crescimento das festas” e para a projeção da vila. “O seu nome fica para sempre na história de Campo Maior. Se não fosse ele, a vila não teria a dimensão nem a visibilidade que tem hoje”. Quanto ao futuro, lembra que as Festas do Povo não obedecem a um calendário fixo, embora tradicionalmente se realizassem de quatro em quatro anos. Depois da edição de 2026, gostaria de voltar a ver Campo Maior vestido de flores em 2030.

“Muito mais do que um evento”
As Festas do Povo “são muito mais do que um evento”. Para Luís Rosinha, representam “a maior expressão da identidade de Campo Maior” e mostram “ao país e ao mundo aquilo que somos capazes de alcançar, quando uma comunidade se une em torno de um objetivo comum”. Para os campomaiorenses, acrescenta, estas festas traduzem “orgulho, tradição e um profundo sentido de pertença”. São um legado construído ao longo de gerações e um exemplo de participação voluntária que continua a fortalecer os laços da comunidade.
Após 11 anos de espera, as expectativas para esta edição são elevadas. O município espera receber centenas de milhar de visitantes e proporcionar-lhes “uma experiência inesquecível”, dando a conhecer não só as ruas ornamentadas, mas também “a hospitalidade, a autenticidade e a alma de Campo Maior e do nosso povo”, explica. Até lá, as luzes continuarão acesas em muitas casas da vila. Haverá flores por terminar, tetos por montar e ruas inteiras por transformar. Quando milhares de visitantes atravessarem aquelas ruas, poucos imaginarão as noites sem dormir, os serões passados à volta de uma mesa ou as mãos que, durante meses, deram forma a milhões de flores. É aí, muito antes da abertura oficial, que começam verdadeiramente as Festas do Povo.
Fotos: DR



