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North Festival: a noite em que Liniker fez da música foi poesia
Quando uma artista arrasta consigo a comunidade que representa, é meio caminho andado para a atuação estar ganha. Foi o que aconteceu com Liniker, a artista brasileira que abriu o palco principal da segunda noite do North Festival. Apesar do Estádio Municipal da Maia ter voltado a estar menos de meio, como dizem os fãs, foram “poucos, mas bons”.
6 de junho 2026
Transformar a prosa da vida, do quotidiano e das relações em poesia, com palavras que tocam a todos e com as quais qualquer um se podem identificar será, porventura, o grande desafio dos artistas. Liniker executa esse propósito com mestria. Na segunda noite do North Festival, a cantora brasileira trouxe à Cidade Desportiva da Maia partilhas de vida que a sua tribo de fãs sabe de cor e salteado e canta, de início ao fim. Como a própria intérprete disse, a meio do concerto, “a poesia não tem hora para chegar, chega quando vocês estão disponíveis para ela”. Agradeceu, por isso, à comunidade que a acompanha por “acolherem a minha história e a minha poesia” e disse que “é uma honra ouvir as minhas poesias nas bocas de vocês”.
Ao longo de mais de uma hora, a cantora deu voz às músicas do recente álbum “Caju”, cuja digressão terminou no espetáculo do North Festival, seguindo-se o “regresso ao Brasil já amanhã”, como a própria fez questão de sublinhar. Intercalando as músicas desse disco com temas mais antigos, Liniker voltou a protagonizar uma atuação intensa, cheia de ritmo, de sensualidade, delicadeza e magnetismo, dançou durante todo o espetáculo e interagiu diversas vezes com a plateia à sua frente. Os ritmos soul, R&B, pop e samba que a artista transgénero tão bem mistura transformaram o concerto numa experiência sensorial poderosa e intimista e numa afirmação de empoderamento inesquecível que arrastou uma legião de fãs da comunidade LGBTI para a arena do Pavilhão Municipal da Maia.
Foi o caso de Rafaela Sousa, que veio do Porto, apenas para ver Liniker, pela primeira vez. Empunhando um cartaz que dizia “Travesti no topo!!”, Rafaela justificou a mensagem dizendo “a gente está no topo, mas o povo faz de conta que não”. Acrescenta esta fã que Liniker representa “emoções, amor, amizade, felicidade e conexão”.
Também Rony Silva e Abelardo Pereira, estudantes naturais de Cabo Verde, a residir no Porto e a estudar Comércio Internacional, vieram ver Liniker ao vivo pela primeira vez e dizem identificar-se com a artista por ela “nos dizer que somos livres para amar, para sermos quem somos”. E por “ser música bem alto astral que, no mundo caótico em que vivemos, coloca-nos para cima”. A conexão com a brasileira resume-se, sublinha Rony, no facto de “a simples existência dela já nos dar a possibilidade de pensar noutras formas de vida”.
É muito graças a este engajamento com uma comunidade específica que faz de Liniker uma referência mundial. Depois de ter vencido o Grammy Latino, de se ter afirmado como um dos nomes mais influentes da música brasileira contemporânea e de já ter subido várias vezes a palcos portugueses, Liniker mostra que energia não lhe falta, que ela, em si mesma, é um statement de diversidade, de identidade e de conexão com a comunidade e que poesia é o seu nome do meio!



