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Vodafone Paredes de Coura: um festival cada vez mais cultural e alternativo
Distribuição de livros pelo recinto do festival, um ciclo de cinema, aposta em nomes com influências jazz e um concerto exclusivo de homenagem a Sérgio Godinho. São novidades da edição deste ano do Festival Vodafone Paredes de Coura. A comemorar 33 anos como o festival mais antigo do país que se realizou sem interrupções (à exceção do ano da pandemia), nesta edição há cerca de cinquenta concertos de artistas consagrados e de outros mais desconhecidos. O evento decorre da próxima quarta-fira, dia 12, até 15 de agosto, na praia fluvial do Taboão
10 de agosto 2026

Distribuir livros pelos festivaleiros presentes no recinto do Vodafone Paredes de Coura. É uma das novidades da edição deste ano, graças a uma parceria com a Wook. O objetivo é “chegar às pessoas, sensibilizá-las, transmitir-lhes valores e cultura”, explica João Carvalho, diretor da Ritmos e responsável máximo pelo festival, em entrevista à Agência de Informação Norte. Promover a leitura, trocar livros, fazer intercâmbio de ideias e de histórias é o propósito desta iniciativa, num espaço onde já é habitual ver festivaleiros acampados que aproveitam as horas de lazer para pôr as leituras em dia.
Este ano, o festival tem também um ciclo de cinema, com curadoria do Porto/Post/Doc: Film & Media Festival. Trata-se de um festival internacional, dedicado ao cinema do real e às práticas contemporâneas do documentário, realizado na cidade do Porto. João Carvalho justifica estas duas novidades dizendo que sente que “o mundo passa por um sedentarismo cognitivo, as pessoas estão desatentas, dão tudo como certo, perdeu-se a curiosidade de saber a veracidade da informação, pelo que o mundo precisa de um abanão e nós queremos dar o nosso contributo para uma sociedade melhor”. A ideia é “partilhar informação e saberes, agitar consciências e despertar curiosidades”, explica o promotor do Vodafone Paredes de Coura.
Outra aposta é “um novo palco com sons minimalistas, sons jazzísticos”. Joana Alegre, Marisa Luisa Jobim, filha do célebre Tom Jobim, Rita Cortezão, Asa Cobra, Janeiro, Salvador Sobral e Miguel Marôco são alguns dos nomes que vão atuar nesse palco. “Investimos um pouco mais em todos os palcos porque queremos que haja não só diversidade musical, como também diversidade cultural”, justifica João Carvalho.
Marcar o evento pela diferenciação é o grande desafio para a organização. A afirmação cultural do festival torna-se, por isso, uma mais valia, até porque, diz João Carvalho, o público do Vodafone Paredes de Coura “é um público interessado, ávido de informação e de novas culturas, pelo que temos uma espécie de obrigação moral e seria um desperdício não apostar nesta dimensão cultural”.

Concerto exclusivo
Outro destaque desta trigésima terceira edição do Vodadone Paredes de Coura é uma homenagem ao cantor português Sérgio Godinho, que celebra mais de cinco décadas de atividade musical e criativa e que atuará no dia 14 de agosto, na praia fluvial do Taboão, com um concerto exclusivo, acompanhado dos seus Assessores e de alguns amigos convidados. João Carvalho justifica a presença dizendo que sente que “o mundo e o país estão a perder valores, pelo que quem melhor do que o Sérgio Godinho para nos lembrar do que é a liberdade, para nos lembrar do que são os direitos sociais, as obrigações sociais?”. Será, por isso, mais um contributo para pôr as pessoas a pensar e para fazer “uma homenagem muito bonita” ao cantautor que faz 81 anos no dia 31 de agosto.
Nessa homenagem, Sérgio Godinho terá estatuto de headliner e vai ter a acompanhá-lo mais de uma dezena de artistas nacionais convidados. Entre eles, Ana Lua Caiano, A Garota Não, Milhanas, Capicua, Manuela Azevedo, dos Clã e Samuel Úria. João Carvalho antecipa que “será um dos momentos épicos do festival” e “um concerto emblemático”, porque “ele vai tocar mais do que os 60 minutos normais que damos às bandas que não são cabeça de cartaz, acompanhado de outras grandes vozes”.

Mensagens políticas
Da vastíssima programação que compõe o cartaz deste ano, João Carvalho não esconde a expetativa em torno da atuação dos Kneecap, um trio de trio de hip-hop de Belfast, na Irlanda do Norte, que se tem afirmado pelo ativismo cultural, pelo forte teor político, pela reunificação da Irlanda e pela defesa da causa palestiniana. “Além da música, é uma banda que nos alerta para os problemas do mundo, que deixa mensagens políticas, que eu considero absolutamente necessárias nos tempos que correm”, diz João Carvalho. Este responsável vai também estar atento à atutação da cantora britânica e rapper M.I.A, que tem feito da crise dos refugiados e da imigração temas para alimentarem a sua irreverência e a sua imagem de marca. O promotor está, igualmente, curioso em relação às atuações do trio Wonderworld que “era um desejo antigo trazer a Paredes de Coura” e que, “dificilmente os voltaremos a ver em Portugal, porque tocam cada vez menos”, e do duo instrumental Hermanos Gutiérrez.
João Carvalho aposta, ainda, na bandas mais pequenas, que acredita que saem de Paredes de Coura “com um estatuto diferente daquele com que chegam” e nos artistas que têm um carinho especial por este festival. É o caso de Patrick Watson, que atua dia 15 de agosto, que não está em digressão, porque terminou a tourné em julho e que, apesar de estar de férias, “vai dar um salto a paredes de Coura, com a família, pelo carinho que tem ao festival”. O mesmo acontece com o Benjamin Clementine, repetente, que atuou no encerramento da edição de 2017 do festival e que regressa, este ano, para subir ao palco a 14 de agosto. “O Benjamin Clementine não estava em tour, eu falei diretamente com o artista, contornando o agente, que é uma coisa pouco habitual, e a resposta dele foi imediata, disse logo que regressava a Paredes de Coura”.
A ligação que artistas criam com o Couraíso, como é conhecido o Festival de Paredes de Coura, e a conexão que estabelecem com o público deste evento é singular. João Carvalho dá outros exemplos, como é o caso dos Franz Ferdinand que, no ano passado, disseram “finalmente, voltámos a ser convidados”, da Zaho de Sagazan, que marcou a edição de 2025 “e pediu para voltar”, o que há-de voltar a acontecer, garante o promotor, além de bandas como os australianos Arcade Fire e os norte-amercianos LCD Sound System e The National, que criaram “memórias incríveis neste anfiteatro de sonho para os artistas e que marca as pessoas”.

Todas as condições para quinze mil campistas
Mesmo antes do festival arrancar, já há grupos acampados no recinto. O parque de campismo do festival tem “capacidade para quinze mil pessoas, distribuídas por mais de quarenta campos, todos com acessos à secção de apoio ao campista”, descreve João Carvalho. Aliás, algumas das melhorias feitas na edição deste ano passam por “novos e melhores acessos à zona de campismo, novas casas de banho, mais bonitas, com mais pormenores, todas ligadas à rede de esgoto e todas com condições”, bem com uma “nova zona de segurança para sair do festival”. Além dos campistas, estima-se que outras “cinco mil pessoas fiquem em casas de particulares” das dezasseis freguesias do concelho.
O Vodafone Paredes de Coura está “preparado para receber 25 mil pessoas”, pelo que a organização acredita que vai ser um “festival cheio de gente, como tem acontecido desde 2005”. João Carvalho quer que este continue a ser “um festival de afetos”, pelo qual sente “um orgulho enorme”, por ser um evento de “família, de partilha e de ternura”, por ser “um espaço de paz”, que, em 33 anos, “nunca registou nenhuma quesília, uma briga, um incidente”.
Para os que aguardam a edição deste ano do Paredes de Coura, há cerca de cinquenta concertos, entre os quais se incluem atuações de Kneecap, Wet Leg, Underworld, Hermanos Gutiérrez, Block Party, M.I.A., Benjamin Clementine, Patric Watson, Thundercat e Amyland and the Sniffers. As portas abrem às 16 horas de 12 de agosto, decorrendo o festival até 15 de agosto, na praia fluvial do Taboão.
Foto: Miguel Oliveira-Pointand Shoot-Ritmos



