Entrevistas

Nikita: “Cantar alimenta-me o ego, mas escrever alimenta-me a alma”

Há sonhos que nem a falta de visão consegue apagar. Nikita sabe-o desde que perdeu a visão quando dava os primeiros passos na música. Um percurso de desafios, conquistas e transformação, em que Catarina faz parte da história e Nikita se afirmou como a mulher e a artista que é hoje.

Agência de Informação Norte – Num ano em que assinala 25 anos de carreira, o que lhe apetece dizer?Nikita – Todos estes anos ensinaram-me a acreditar, a lutar e a agradecer. Sigo de coração cheio. E ainda há muito para cantar e para viver.

Há 25 anos imaginava que a música seria o lugar onde iria passar uma vida inteira?
Eu sempre soube que a música era o meu lugar, a minha vida, mas confesso que nunca tive a certeza de que iria conseguir. Mas uma coisa é certa: o palco sempre foi o meu sonho.

Perdeu a visão quando a carreira ainda dava os primeiros passos. Em algum momento acreditou que a música pudesse acabar aí?
Sim, sim. Tive muito medo, principalmente porque estava a dar os primeiros passos na minha carreira e, de repente, a visão foi-se. Não foi nada fácil. Mas, olhando para esse tempo, tenho a certeza de que há sonhos que nem a falta de visão consegue apagar.

O que é que todos estes anos lhe provaram sobre si própria?
Ui! Pergunta difícil. Provaram-me que sou uma mulher mais forte do que aquela que eu imaginava e, mesmo quando tudo muda num segundo, posso escolher seguir acreditando sempre. E foi isso que eu fiz e continuo diariamente a fazer.

Costuma dizer que gosta de ser independente em tudo. Essa independência foi construída por necessidade ou por convicção?
Foi pelas duas razões, na verdade. A necessidade ensinou-me a ser independente e, com o tempo, tornou-se também uma escolha.

A intuição acabou por substituir aquilo que a visão deixou de lhe dar?
Foi preciso deixar de ver para conseguir ver o verdadeiro ser humano. A partir daí, a intuição tornou-se o meu guia no meu dia a dia.

A luz é uma imagem recorrente nas suas palavras. Como é que se aprende a falar de luz sem a poder ver?
Quando falo de luz, não falo da que os olhos veem. Falo da luz que trago dentro de mim. É essa luz que me guia, pois a minha verdadeira luz não está nos olhos, mas sim na alma.

Ao longo destes 25 anos, sentiu mais vezes que teve de conquistar oportunidades ou de desconstruir preconceitos?
Um pouco das duas coisas. A minha vontade de mostrar ao mundo do que era capaz de fazer, de cantar, de dançar, de me afirmar, foi também uma forma de desconstruir preconceitos. E hoje sinto que sou um exemplo de resiliência e de superação de preconceitos.

Costuma dizer que “a deficiência está nos olhos dos outros”. Ao fim de 25 anos, sente que essa frase continua a fazer sentido?
Existe um ditado que eu guardo em mim e me acompanha há anos. É muito fácil ver um cisco no olho dos outros e não ver uma trave que temos no nosso. Porque ninguém é perfeito. Cada um de nós tem as próprias lutas, as suas próprias limitações e a própria maneira de enfrentar a vida. Por isso, é sempre bom olhar para nós antes de olhar para os outros.

Quando sobe ao palco, entra uma mulher invisual ou entra apenas uma cantora?
Quando subo ao palco, sobe uma mulher, uma artista, mas, acima de tudo, uma cantora. A imagem faz parte do espetáculo, mas é a voz e a emoção que me definem. E, quando canto, não há luz nem distância que me impeça de tocar o coração de quem me ouve.

Há alguma ideia feita sobre si que, ao fim de 25 anos, ainda gostasse de desfazer?
Às vezes, as pessoas têm ideias erradas de nós e julgam-nos sem conhecer o nosso verdadeiro valor e aquilo que somos capazes de fazer. Houve quem pensasse que, pelas minhas limitações, eu não conseguiria chegar tão longe. Mas, ao fim de 25 anos, aqui estou eu, com muitas vitórias e conquistas.

Escreve para muitos artistas portugueses. Quando escreve para os outros, escreve para uma voz ou para uma pessoa?
Eu não escrevo para uma voz, escrevo para uma pessoa, para um coração. Tenho uma sensibilidade muito especial para sentir aquilo que está dentro de cada artista e encontrar as palavras certas para que, quando as canta, se identifique verdadeiramente com elas, como se fossem suas. Deus tirou-me a visão, mas acho que me deu o dom para eu poder chegar ao coração das pessoas e perceber o que querem transmitir através da música. Depois, eu e o meu parceiro da música, produtor e compositor Jorge do Carmo, adequamos a melodia ao artista. Para nós, o mais importante é que os nossos artistas sintam a canção como se fosse escrita por eles mesmos.
É por isso que a nossa parceria Nikita/Jorge do Carmo continua há tantos anos, desde 2003. Temos algo muito especial na forma de compor. Algo que nos torna especiais, porque conseguimos chegar ao coração de cada artista e de cada voz. E quero continuar a escrever por muitos e muitos anos, porque cantar alimenta-me o ego, mas escrever alimenta-me a alma.

“Eu não escrevo para uma voz, escrevo para uma pessoa, para um coração”

Escreve para muitos artistas portugueses. O que é mais difícil, encontrar a voz dos outros ou nunca perder a sua?
Acho que o mais difícil é encontrar a voz dos outros sem nunca perder a minha. Quando escrevo para um artista, entro na sua alma. Procuro perceber o que sente e as palavras com que ele se reconheça na canção. Ao mesmo tempo, levo sempre a minha sensibilidade, a minha identidade e a minha forma de sentir. Talvez seja esse o segredo. Conseguir dar a cada artista a sua voz, a sua essência, sem deixar de ser eu própria.

O amor atravessa grande parte daquilo que escreve. O que continua a encontrar nessa palavra que ainda não encontrou noutra?
O amor é a palavra que mais me toca, porque dentro dela cabem tantas outras. A saudade, a dor, a entrega, a esperança, a perda e a felicidade. Eu sou amor. E foi preciso aprender a amar-me a mim própria para conseguir amar verdadeiramente os outros, a música e tudo o que faço. Hoje procuro fazer tudo baseada no amor. É por isso que eu consigo escrever tanto sobre essa palavra tão mágica. Porque não escrevo apenas sobre ele, eu consigo senti-lo e transmiti-lo.

O público conhece a Nikita. Quem continua a chamar-lhe Catarina?
(Risos.) Confesso que pouquíssimas pessoas me chamam de Catarina. Não é por mal nem porque não gosto do meu nome, simplesmente nunca me identifiquei com ele depois de uma determinada fase que passei na minha vida. A Catarina era aquela menina que tinha sonhos, mas ainda não tinha concretizado. Quando nasceu a Nikita, foi como se essa Catarina tivesse adormecido e uma nova mulher tivesse despertado. E essa mudança aconteceu precisamente numa fase muito marcante da minha vida, quando deixei de ver. Por isso, quando me chamam de Catarina, eu respondo por educação e com carinho, mas confesso que já não me reconheço nesse nome. A Catarina faz parte da minha história, mas a Nikita é quem eu sou.

“Ver sempre foi um sonho e voltar a ver continua a ser”

Mas o que é que a Catarina ainda guarda que a Nikita nunca perdeu?
A única coisa em comum que a Catarina e a Nikita nunca perderam foi o sonho de cantar, a fé, a esperança e a vontade de nunca desistir. De resto, somos mulheres muito diferentes. Vou confessar uma coisa que pouca gente sabe. Ver sempre foi um sonho e voltar a ver continua a ser, mas existe um receio muito difícil de explicar. Imagino muitas vezes como seria voltar a descobrir o mundo através dos olhos, mas também penso na possibilidade de a Catarina despertar e a Nikita adormecer. Porque gosto muito da mulher que me tornei. A Catarina ficou naquela fase da minha vida, no momento em que tudo mudou, e a Nikita nasceu dessa transformação. Tenho medo de deixar de me reconhecer e perder a Nikita que hoje sou. Sem dúvida, a Nikita, mesmo na escuridão, tem muito mais luz.

Se a Nikita de hoje pudesse encontrar a Catarina de há 25 anos, o que lhe diria antes de ela subir ao palco pela primeira vez?
Ui! Diria-lhe para continuar a não ter medo, para continuar a acreditar nos seus sonhos, mesmo quando a vida te levar por caminhos que nunca imaginaste. Vais passar por momentos difíceis, mas vais descobrir em ti uma força que ainda não conheces. Diria-lhe ainda que a vida vai ensinar-te que a dor também traz sabedoria. Há momentos que nos transformam, nos fazem crescer e nos tornam pessoas melhores. Aprende a agradecer a Deus não só por tudo o que Ele te dá de bom, mas também por aquilo que Ele te ensina através das dificuldades. E confia n’Ele, mesmo quando não compreenderes o teu caminho. Agora olha para mim, Catarina. Passaram 25 anos. Tu só sonhavas cantar e nunca imaginaste aonde este sonho te levaria. Nunca imaginaste sair da tua terra, conhecer tantos lugares, tocar tantos corações e conquistar tudo o que conquistaste. A vida reservou-te bem mais do que alguma vez sonhaste. Por isso, nunca desistas do teu sonho, porque o sonho comanda a vida.

Quando olha para o caminho que fez, o que pesa mais, aquilo que conquistou ou aquilo que teve de superar?
Talvez pese mais tudo o que tive de superar. Porque foi isso tudo que me tornou mais forte. Eu sempre tive medo de não conseguir, mas, ao mesmo tempo, sentia uma fé e uma voz dentro de mim, vinda de Deus, que me dizia que me ajudaria a chegar aonde queria. Sempre lutei pelos meus objetivos e nunca desisti. E cada conquista dava-me mais força para continuar. Tive muitas batalhas e ouvi muitas críticas, mas nunca deixei que elas destruíssem a minha autoestima ou me fizessem parar. Hoje, quando olho para o caminho que fiz, percebo que cada dificuldade teve um propósito. Ensinou-me a acreditar em mim e tornou o sabor das conquistas e das vitórias ainda mais especial.

O que é que, ao fim destes 25 anos, ainda ficou por aprender?
Acho que, ao fim destes 25 anos, percebi que nunca sabemos tudo e que há sempre algo novo para aprender. A vida ensinou-me que a dor também pode trazer sabedoria, que a dificuldade também nos pode transformar e, quando acreditamos em nós e mantemos a fé em Deus, conseguimos ir mais longe do que imaginávamos. Ensinou-me também a não deixar que os outros definam os nossos limites. Hoje sinto que ainda tenho muito que aprender, muito para viver e muito para dar. E talvez esta seja a maior lição. Depois de 25 anos, a história continua a escrever-se.

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