Notícias
Hip-hop domina segundo dia do MEO Kalorama com Lauryn Hill a fechar a noite
O segundo dia do MEO Kalorama ficou marcado pelo hip-hop, pelo rap e pelo jazz, num cartaz que juntou diferentes gerações e geografias. Sam the Kid, Vince Staples, Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago estiveram entre os destaques de uma jornada encerrada por Ms. Lauryn Hill perante um recinto cheio.
30 de agosto 2026

O segundo de três dias do MEO Kalorama trouxe um cartaz marcado pelo hip-hop e pelo rap, sem deixar de lado a diversidade que caracteriza o festival, com propostas que atravessaram o jazz, o post-punk, o shoegaze, a eletrónica e a música alternativa. Entre nomes nacionais e internacionais, o público enfrentou uma tarde de muito calor em Lisboa, onde rapidamente nenhuma sombra ficou a salvo dos festivaleiros. Nem os seguranças ficaram de fora das brincadeiras, com alguns a avisarem, entre risos, que um lugar à sombra já custava 50 €. Ainda assim, o calor não foi suficiente para afastar quem ali estava, que acompanhou a música até à noite.
No Palco Sagres, Femme Falafel, uma das vozes emergentes em Portugal e vencedora do Termómetro Unplugged em 2023, trouxe um concerto descontraído e divertido, cruzando jazz, house e hip-hop. Entre um baixo bem marcado, sintetizadores e percussão, foram as letras irónicas e cheias de humor, com temas sociais como o ambientalismo e a saúde mental, que mais se destacaram, arrancando sorrisos à plateia e criando um ambiente leve.
Os britânicos Dry Cleaning levaram o post-punk ao Palco MEO, com a voz recitada e profunda de Florence Shaw a contrastar com guitarras que passeiam entre o post-punk e o noise. Formada em 2018 e a tocar pela segunda vez em Portugal, a banda pareceu ter saído diretamente do final dos anos 80, acompanhada de Sagres na mão para combater o calor e com influências que parecem vir de Sonic Youth e My Bloody Valentine.
Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago juntaram-se no Palco Sagres, numa união entre rap, jazz e raízes culturais que cruzou Brasil, Cabo Verde e Portugal. Criolo e Amaro, vindos do Brasil, e Dino, português de ascendência cabo-verdiana, trouxeram as suas origens para palco, num concerto marcado pela sintonia entre os três. Perante uma plateia diversificada, não faltaram carinho, dança e muita energia, tornando o Palco Sagres num dos pontos mais animados da tarde.
O cantor, ator e rapper Vince Staples chegou ao grande palco acompanhado pela banda que o levou recentemente ao Tiny Desk, trazendo o som mais próximo do rock presente no seu último álbum, Cry Baby. Entre guitarras e uma energia intensa, Staples levou para palco alguns dos temas centrais do disco, como o racismo, a violência policial, os traumas e as desigualdades sociais nos Estados Unidos. A crítica à sociedade americana esteve também presente quando questionou quem gostava da América: “Who likes America?”, recebendo uma resposta maioritariamente negativa.
Os Mind Enterprises começaram em grande no Palco Panorama Lisboa, com “Idol”, um dos seus grandes êxitos. Trouxeram o Italo disco dos anos 80 para o palco, com roupas da época, baterias eletrónicas, sintetizadores e vocoders. Pela terceira vez em Portugal, voltaram a conquistar quem os ouvia, deixando a promessa de que vão deixar saudades.
Sam the Kid, acompanhado pela orquestra que já o segue há sete anos e pelos Orelha Negra, com quem trabalha há 17, atuou no Palco Sagres. Um concerto que, pela sua dimensão e pela quantidade de pessoas presentes, poderia facilmente ter ocupado o palco principal. Leal e conhecedor, o público sabia todas as letras de cor e acompanhou Sam do início ao fim. O magnata do rap português atuou praticamente em casa, em Chelas, onde nasceu, na freguesia de Marvila, onde decorre o festival.
Ms. Lauryn Hill, uma das vozes mais influentes da sua geração, encerrou a noite no Palco MEO, perante um recinto cheio, num concerto de ritmo alucinante e contagiante, integrado na celebração dos 30 anos de The Score, dos Fugees. Acompanhada por Wyclef Jean e pelos filhos YG Marley e Zion, assumiu em palco o papel de matriarca, partilhando com eles vários momentos de proximidade e dando especial destaque à família. Entre grandes êxitos e colaborações, não faltaram “No Woman, No Cry” e “Three Little Birds”, de Bob Marley, levando a plateia a cantar e dançar do início ao fim.
Conhecida também pela sua posição ativa sobre racismo, desigualdade e direitos das mulheres, Lauryn Hill trouxe para palco não só a sua música, mas também uma dimensão de consciência social que acompanha o seu percurso. Foi a segunda vez em Portugal, depois da atuação em 2010 no Festival dos Oceanos, que celebrou os 100 anos da República Portuguesa, num concerto totalmente gratuito.
A elevada afluência trouxe, ainda assim, alguns constrangimentos no recinto, nomeadamente no acesso às casas de banho e ao apoio paramédico.
O segundo dia terminou, assim, com uma noite marcada pelo hip-hop, rap e jazz, entre grandes atuações nacionais e internacionais e momentos de forte ligação entre artistas e público. Com Ms. Lauryn Hill a fechar a noite perante um recinto cheio, fica agora a expectativa para o último dia do MEO Kalorama.
Texto: José Martins e Beatriz Henriques
Fotos: Beatriz Henriques



