Espetáculos Nacionais

Maria João Luís e Rita Blanco no Teatro Municipal Rivoli

O Teatro Municipal do Porto recebe este sábado, dia 31 de janeiro, a peça “Na Solidão dos Campos de Algodão”, com Maria João Luís e Rita Blanco.
Estão sozinhas em palco. O contacto de duas pessoas sem passado comum, sem linguagens familiares, sem cumplicidade histórica, acontece em território neutro, numa noite fria e deserta de sinais, numa qualquer rua sem memória, silenciosa.
Voltar a Koltès significa decifrar uma obra imprescindível para a compreensão da dramaturgia do final do século XX, representativa da condição humana em diálogo com os nossos tempos. Um universo com raízes na rua, nos marginais, nos descriminados, nos injustiçados, NA SOLIDÃO DOS CAMPOS DE ALGODÃO, obra ilustrativa deste torrencial autor, apresenta–nos uma atitude insubmissa face à hierarquia social do bicefalismo estrutural de dois extremos: o vendedor e o comprador.

A extensa crítica social insiste na fatalidade do irracional prejuízo na ausência de critério, que condenam a Humanidade a manter uma postura de desconfiança face ao outro, comprometendo toda a possibilidade de se conhecerem. A linha reta em que ambos seguiam, converte-se numa linha curva e labiríntica sem espaço para hesitações.
Como dois animais que se cruzam no mesmo território, uma hostilidade violenta submerge estes dois seres humanos, igualmente confusos, cara a cara, dois estrangeiros, degladiam-se ali, num tempo e espaço argumentativo de: ou diálogo ou morte; um combate dialético dominado pelo medo, que apesar da densidade verbal, assinala, um conflito que ultrapassa em muito as palavras. Sem alternativas à ausência de desejo, surge a inevitável guerra e lutam.
Maria João Luís, Rita Blanco e Marcello Urgeghe, criam uma despojada dramaturgia cénica, estratégia estética de uma geração que abdica de grandes cenografias ou dispositivos que diminuam a força da palavra deste texto fundamental. Um cenário minimalista e a música de José Peixoto completam esta seca abordagem, e focam o espectáculo no trabalho de actor, centrando-o entre o ritmo, a corporalidade e a entoação verbal.
A austeridade poética proposta na peça, jogada com poucos elementos, resulta na máxima rentabilidade, onde tudo significa e nada provoca indiferença.

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