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Luís Lobo Henriques a fotografar “almas” há mais de 40 anos

É um dos nomes de referência da fotografia em Portugal. A fotografar “almas” há mais de 40 anos, Luís Lobo Henriques assume-se um profissional disciplinado na captação de imagens com uma visão quase “cinematográfica das pessoas”. Participou em vários concursos nacionais e internacionais, conquistou vários prémios, editou um livro e assume que as fotografias da sua vida são muitas, mas destaca uma tirada na cidade do Porto e que correu o mundo. Conheça nesta entrevista mais sobre o seu percurso profissional e sobre os sonhos de um homem que se assume apaixonado por aquilo que faz.

AIRInformação – Cerca de 40 anos a fotografar. Qual é a melhor forma de descrevermos o Luís Lobo Henriques e as suas fotografias?

Luís Lobo Henriques- Penso que quem nos descreve melhor são os outros, no entanto tenho consciência que deixo transparecer muito de mim nas imagens que faço. Tenho uma inequívoca atração pela cor, pelos grandes cenários com céus dramáticos e elementos humanos dentro, pelo glamour e pelas pessoas: gosto de captar almas e fazer produções em que possa dirigir os modelos que fotografo.

A paixão pela fotografia é uma “herança de família?
Foi o meu pai que me fez despertar para ela e para os conceitos técnicos. Aos 5 ou 6 anos eu posava para ele e já folheava um livro sobre fotografia que ele tinha comprado para aprender a explorar a arte. Ao longo da minha adolescência, foi sobretudo a minha mãe que me apurou a sensibilidade para observar as pessoas e a natureza em toda a sua essência; com ela aprendi a fervilhar com as nuances da luz e as emoções que esta nos suscita.

Mas em que altura descobre que a fotografia fazia parte da sua vida?
Se em Angola, já estava em embrião, quando vim para Portugal aos 15 anos comecei a amadurecer essa paixão. Primeiro nasceu uma fase de gostar de estar do outro lado: ser modelo. Mas em simultâneo sentia que era preciso estar do lado do fotógrafo para satisfazer os dois desejos. Então passei ao autorretrato. Chamo-lhe a fase narcisista. Mas foi com ela que, aos 18 anos, comecei a perceber que gostava mesmo de retratar gente. Captar rostos, silhuetas, expressões e enquadrá-los no visor para depois esperar ansiosamente a revelação do filme de 36 fotos… Comecei a explorar o P&B e a cor em simultâneo, depois o diapositivo. Adquiri a minha primeira Canon AE1 em 1978. Um ano depois estava em Coimbra na faculdade de Letras e a frequentar cursos e workshops de fotografia nos tempos livres, promovidos pela Associação de Estudantes. Surgiu a primeira exposição coletiva e os primeiros “clientes” e fãs, que eram colegas que me pediam sessões fotográficas, comprando os rolos e pagando as revelações dos respetivos negativos. Dali para a frente foi o non stop. Quatro anos depois via uma fotografia minha destacada na revista francesa Photo, no concurso internacional de amadores, ao lado de outras 500 publicadas, selecionadas de 50.000 recebidas para a competição. Os incentivos sucederam-se desde então…

Como caracteriza o seu estilo?
Digamos que sou muito disciplinado na captação de imagens e isso nota-se no resultado final. Digamos também que tenho um estilo clássico, por vezes mais arrojado, consoante a lente usada e a circunstância ou tema fotografado. E digamos também que tudo isso se deve à escola de fotógrafos que segui desde os 16 anos, em que devorei livros e a revista Photo ou outras da especialidade, aprendendo a ver e a fazer com grandes mestres que foram sempre a minha grande fonte de inspiração como o Cartier Bresson, o Helmut Newton, o David Hamilton, o Steve McCurry, o Ansel Adams e acima de tudo o Sebastião Salgado.

Mas no fundo o que é que mais gozo lhe dá fotografar?
Pessoas. Gente. Tenho uma visão quase cinematográfica das pessoas e gosto de as dirigir posando para mim. Estáticas ou em movimento, mas sempre exprimindo emoções. Mesmo que as simulem. Gosto que sejam os meus atores naquele momento fotográfico e que sintam prazer naquilo que estão a fazer, tal como eu os faço sentir da minha parte e lhes tento transmitir esse entusiasmo, essa euforia, esse êxtase. Preciso que se sintam estrelas e adivinho à partida a satisfação com que vão constatar o resultado final de ambos. Isto no que toca à fotografia de moda ou retrato. Depois tenho o lado da paixão pela fotografia das pessoas na rua, no seu habitat: as crianças, os idosos, os povos do mundo. E aqui destaco a paixão por fotografar na Índia, onde já estive duas vezes a captar “almas” que quase entram nas minhas lentes pelo gosto que as gentes têm de se “oferecerem” a elas…

Porquê?
Essencialmente porque gosto de pessoas e de descobrir o seu caráter, os seus mistérios, a riqueza dos seus esgares, os traços do rosto, as linhas dos corpos, a sua curiosidade por saber como saem depois nas fotos…

Toda a fotografia exige muita criatividade para não ser apenas mais uma foto. Onde se inspira?
Deixo simplesmente que o momento, a paisagem, a luz, um céu, um enquadramento, uma pessoa me inspirem. Nem sempre sou feliz, ou seja, bem sucedido. Nesse caso, é muito simples hoje em dia: apaga-se o ficheiro!

Que técnicas fotográficas mais gosta de utilizar?
Gosto muito da composição. É aí que sou mais rigoroso e clássico, mais disciplinado, como referi anteriormente. Mas as técnicas não me preocupam. Preocupam-me as lentes e alguns efeitos que elas permitem. Depois, o trabalho de edição ou pós-produção que é muitas vezes minucioso para poder melhorar o trabalho e enfatizar aspetos que gosto de destacar.

Das várias figuras públicas que fotografou de quem gostou mais?
A próxima (risos). Não posso mesmo fazer distinções porque quero continuar vivo durante muitos anos. Até porque me movo muito nos meios sociais ditos cor de rosa e sou politicamente correto com toda a gente. Mas sim, tenho uma figura favorita por ela encarnar todo o glamour que gosto de captar, quer no gesto quer na indumentária.

Foi premiado em vários concursos nacionais e franceses de fotografia, tem vários trabalhos editados em revistas portuguesas e francesas de fotografia, revistas de viagens…sente que é um fotografo conhecido e reconhecido pelos portugueses?
Tenho vindo a ser reconhecido por uma boa parte da comunidade fotográfica e pelos que seguem o meu trabalho (sobretudo nas redes sociais hoje em dia) e até a ser polémico. Uns gostam, uns nem tanto, outros invejam algum sucesso e poucos sabem que sou humilde o suficiente para ter consciência de que se pode fazer muito melhor, com muito melhores recursos, sobretudo nos temas que me agradam. Como vivo essencialmente do ensino, nem sempre invisto em grande equipamento que me pudesse realizar mais a certos níveis.

O que é que lhe falta ainda fazer enquanto fotografo?
Falta-me viajar muito mais. Queria andar mais pelo mundo e realizar sonhos fotográficos que chegassem aos calcanhares do Sebastião Salgado, mas sem o querer plagiar.

Das várias exposições realizadas qual a que quer destacar?
“Viagem a um pequeno mundo”. Uma coleção de imagens de crianças a P&B que fotografei durante alguns anos em certos países de África, Brasil, Europa e Ásia.

Como descreve o seu livro?
Foi o livro sugerido. A temática sugerida. Pelo facto do editor ter achado que o meu tema forte era a moda e o glamour. No entanto, tentei só incluir imagens que contivessem algo de poético e premiadas nacional ou internacionalmente. De poético na composição, ou no olhar dos modelos, nos cenários ou na atmosfera e elementos incluídos. Pensei no título, que tudo tinha a ver comigo, e selecionei as imagens em função dele: “Corpo, luz e alma”.

O que é para si uma boa fotografia?
É aquela que nos desperta emoções. Aquela que nos faz ter pena de não termos sido nós a fazê-la!

O Porto é uma cidade bonita para fotografar?
Se é!! É uma cidade absolutamente inspiradora. Tem a melancolia da luz e do casario que se derrama nas margens do rio, o povo comunicativo e que está habituado à captação de imagens por fotógrafos de todo o tipo. E a Foz tem o dramatismo e o impacto que o mar nos proporciona ao açoitar tão teatralmente aquele farol. O farol mais fotogénico de Portugal, muito em parte por isso mesmo: a violência do mar de inverno. Esse mar que vale a pena!
Tive uma cliente suiça que me comprou dezenas de fotografias para fazer um livro, com poemas da sua autoria e imagens minhas, que acabou por se apaixonar pelo Porto à custa das minhas imagens e que veio explorar a cidade e o Douro e quer voltar com mais tempo para se enamorar de ambos.

Tem feito muitos trabalhos fotográficos nesta cidade?
Sim, tenho umas centenas. No Douro, na Casa da Música, nas ribeiras, na Foz…

Qual é a fotografia da sua vida?
Pois uma das fotografias da minha vida foi mesmo tirada no Porto. Na Livraria Lello. É a capa do meu livro e já correu o mundo. Há muito para dizer sobre essa imagem que no entanto é tão simples como o instante único que ela me proporcionou. Foi premiada pela revista Photo em França (sendo que o júri me surpreendeu com a leitura plurissignificativa que dela fez) e esteve exposta em várias cidades em Portugal numa coletiva de fotógrafos de Leiria que resultou da edição dum livro promovido pelo Centro do Património da Estremadura. Nessa coletiva, ela foi sempre escolhida como o ícone da exposição em cartazes e flyers de promoção. Mas tenho outras fotografias que me dizem muito pela história e pelo momento, como por exemplo o nascimento do meu filho, a que assisti emocionado por trás da câmara e mediante uma cesariana de certa forma complexa.

Professor e fotógrafo ou professor e de vez em quando fotógrafo…?
Sou professor e fotógrafo todos os dias. Em simultâneo. Tanto dou uma aula, como venho para casa editar imagens, ou agendar uma sessão fotográfica, ou partir com a câmara para captar algo. Tanto me apaixono pelos alunos na sala de aula com a tarefa de os fazer crescer com o conhecimento que lhes transmito, como a seguir estou a descobrir elementos novos em imagens que fiz e ficaram por analisar detalhadamente, debruçando-me sobre elas com a paixão de quem teve um novo filho.

O que acha que a fotografia lhe ensinou nestes 40 anos?
Ensinou-me a crescer. Sem margem para dúvidas. Impulsionou-me o gosto por viajar e conhecer pessoas, a vivenciar o mundo com os cinco sentidos em toda a sua plenitude.

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Fotos. DR

AGC

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8 Comments

  1. É difícil descrever o Luís Lobo Henriques, pois qualquer adjetivo que nos venha à mente, parece-nos insuficiente perante a grandeza do seu olhar e da sua sensibilidade.
    Resta-me aplaudi-lo de pé e agradecer-lhe tudo o que me ensinou!
    Ah… “Pedra Filosofal”, para mim é “a foto”!
    Um abraço, Luís.

  2. Conhecia o trabalho deste fotografo de uma forma pontual. Vi trabalhos seus em sites de fotografia e sempre os admirei. Gostei muito de conhecer o outro lado do fotografo.
    Paulo Lima,Viana do Castelo

  3. O nome do fotógrafo não me era estranho. Sempre disse que o futuro da comunicação passa por sitios de informação como este. As televisões e os jornais diários não têm espaço nem tempo. Enfim. Gostei do que li, do que vi e…o fotógrafo é giro.lol
    Lidia Silva
    Póvoa do Varzim

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