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APT oferece ceia de Natal para 150 sem-abrigo do Porto (Com Vídeo)

Não existe um número certo de pessoas sem-abrigo na cidade do Porto, mas sabe-se que são centenas. Há quem não goste de lhes chamar sem-abrigo, mas moradores de rua.

Cerca de 150 pessoas de todas as idades marcaram presença ontem numa ceia de Natal no 4.º piso do Silo Auto, localizado em pleno centro do Porto, que nesta noite se transformou numa grande sala de convívio e partilha, porque, para muitos dos que participaram, se não fosse esta refeição, com toda a certeza não tinham outra.

Bacalhau, batatas cozidas, hortaliça, ovos, azeite e doces tradicionais. Rapidamente nos apercebemos pelos ingredientes que se tratava de um jantar de Natal. Mas este era diferente porque um prato de bacalhau faz toda a diferença.

A iniciativa partiu de aproximadamente 25 voluntários que dão vida à APT – Ajuda Para Todos, que todas as sextas-feiras se concentram junto da Câmara Municipal do Porto para levar uma refeição a quem não a tem e, provavelmente, até dorme na rua.

O apoio para estas refeições vem de muitos amigos e de vários lados. “Somos nós, os nossos amigos e os amigos dos nossos amigos que espalham a mensagem e as coisas vão chegando até nós”, assumiu Susy Freire, uma das mentoras da iniciativa e da APT.

Esta foi a primeira consoada organizada pelos amigos da APT e, por isso, o desafio foi grande. “Tentamos saber o que é que necessitavam mais e conseguimos arranjar como prenda” porque nestas coisas o melhor é não fazer muitas perguntas uma vez que “a pobreza e a solidão podem ter diversas causas”, lembra.

Foram as dificuldades que levaram estas pessoas até à primeira consoada organizada pelos amigos da APT. No que diz respeito a voluntários também existe quem tenha chegado ali pela primeira vez. Gustavo Pacheco é médico dentista e assumiu que há muito pensava em ajudar e colaborar numa iniciativa destas. “Ajudei a comprar bacalhau, pedi a amigos que também colaboraram” e estar a servir aquelas pessoas é “muito enriquecedor”, assumiu.

Óscar Manuel Marques chegou recentemente à APT. Antes de entrar para este grupo de amigos fez questão de enfrentar a escuridão da noite da invicta que diz disfarçar muita coisa. “Esconde olhares, palavras, mas não esconde a solidão e a tristeza de quem dorme na rua”.

Todos deviam “fazer voluntariado”

Foi ao encontrar cartões que servem para tapar a entrada do frio, ao mesmo tempo que fingem ser colchão e cobertores em recantos abrigados na entrada de lojas comerciais, que Marques sentiu os primeiros murros no estômago. “São estes exemplos que nos fazem ver a vida de forma diferente, mas nunca estamos muito preparados para isto”, desabafou, tentando disfarçar a tristeza no olhar.

Defende que todos deviam “fazer voluntariado junto destas pessoas pelo menos uma vez na vida.” Óscar Marques diz que, do pouco tempo que tem dedicado ao voluntariado, se tem apercebido que “existem aqui pessoas com dificuldade extrema, a viverem sem qualquer tipo de condições”.

O tempo dedicado a estas pessoas resume-as como horas de emoções e sentimentos “difíceis de explicar” em palavras. “Temos sempre uma ideia do que se passa, mas só passamos a ter realmente noção dos problemas que as pessoas enfrentam diariamente ao vivermos uma noite como esta que passámos hoje ou andarmos pelas ruas da cidade”, assumiu.

Muitos perderam-se na vida, ficaram sem o emprego, a família restando-lhes a dignidade de querer trabalhar no futuro.

Houve silêncios, olhares caídos, muitos não quiseram falar para as câmaras e outros não querem ser reconhecidos pela família e amigos. Mas de uma coisa todos parecem ter a certeza. A noite foi longa e todos saíram com a certeza que naqueles momentos de partilha e convívio nada lhes faltou, com a esperança num 2016 melhor.

Texto: António Gomes Costa
Imagem Manuel Neves
Fotografia: Hugo Viegas

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3 Comments

  1. É sempre muito bom saber que não estamos sozinhos , e fazer sorrir a quem já não apetece sorrir . Por vezes com pequenos gestos que não nos damos ao trabalho de “Olhar ” para o lado e ver a realidade do sofrimento das pessoas Sem-Abrigo . Um bem haja a todas as pessoas do APT fazem um excelente trabalho .Momentos para repetir .

    Boas Festas . Um Ano 2016 cheio de Prosperidade !!

  2. Uma reportagem muito agradável. É bom saber que ainda existem pessoas boas que levam um sorriso até estas pessoas.
    Paulo Trindade. Braga

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