Opinião

Mundo de Princesas III/XV

TRÊS

Pai, meu querido António: esta noite não me foi possível evitá-lo de novo, eu bem que o queria, mais por ti que por mim, e em fé do que digo e sinto sigo uma fímbria cervantina (desculpa a presunção, ando a ler dom quixote), que para o ser mais verosímil o reafirmo com retoques de imaginação, porém em abono da verdade que a ti não posso calar: fintou-me hoje como ontem, como sempre que me acomete, entrando-me sem antecipado aviso, e aqui estou eu minha bela e doce dulcineia, com a diferença vera e justa de que eu sou a verdadeira, em campo aberto qual doroteia sofrida, sem fantasias nem mentiras vis como se em mim vivesse pespegada e de mim se alimentasse, no mais autêntico sentido das palavras antes ditas, até ao agora em que me ponho a escrever-te uma carta mais; quixote disse em se debatendo com sancho e doroteia e mais circunstantes: ela peleja em mim e vence em mim, e eu nela vivo e respiro, e tenho vida e ser: o monstro mentiu, eu não, que tudo ali naquela frase é verdade para as duas de nós e sei que em cada uma de ambas ela vence em processo doído de multiplicação, mais verdade que o milagre de jesus com seus peixes e seu pão. Ele deu de comer aos homens e fez voto para que elas a eles servissem (ou foram os doutores da igreja que tudo inventaram para nos dominar), para que as pecaminosas procriassem, carne com carne e sémen de luz, de onde vim e aqui me pus: aqui me tens como criança do universo, parida do milagre do teu encontro com a mamã, as mamas secaram-lhe, mas eu sobrevivi graças ao teu e dela labores, e da mãezinha. Tenho vindo a esforçar-me, ia eu a dizer, e assim o concluíramos todos, incluindo o senhor doutor que aconselha vãs psiquiatrias e juízos descomunais a uma cabecita que ele sabe não funcionar mais direito; um merdeiro hipócrita é o que ele é senhor meu pai, um fingidor pior que os poetas, porque os poetas são urgentemente bons, um energúmeno consagrado, a bendita vaca, a vaca sagrada do norte, comenta-se nos meios científicos e académicos, um senhor fulano que vai de conferência em conferência despejando saberes sobre a miséria alheia como se de mim e de nós alguma coisa soubesse ou até quisesse saber; que estou a melhorar, disse ele em certa sessão de terapia familiar, e queria com isso dizer que eu estava a engordar ou a emprenhar com os amores proibidos e poeticamente comestíveis, e ele sabe quase tão nada de nós (ao saber do meu intento de me desembaraçar ele quis-me encaminhar para um amigo do privado, que nega no público e nele atende o que dizem ser de lei ainda proibido e atende a todos os crimes em casa, no consultório particular, enquanto retardam os homens de leis, o legislador soberano, que na letra e na forma de lei sempre foi, é e será definitiva e sempre se vai a revogar, definitivamente, ou a contrariar, sem piedade nem dó nem idade nem drama nem sociologias que lhes valha a pena escutar, vai o crime encomendado, de lágrimas e dinheiros, pagos estes e aquelas por saldar, com os fetos cano abaixo, tudo limpo e asseado por tão solitários cinquenta contos de reis apresentados, sem recibos nem faturas nem outros papéis que apresentar: ainda me dói aquilo que tivemos de fazer e ouvir e pagar para que eu deixasse de estar cheia não podendo cheia continuar: fui eu a esvaziar do amor mal feito e o nosso silêncio quedou-se a nos matar: o castigo depois virá, segundo a inapelável lei divina, não é minha querida mãezinha); estive quase a bater-te à porta e só não o fiz porque o teu ressonar era extenso e sonoro, grandíloquo, a casa toda dançava a música emanada do teu descanso profundo e reparador e eu sabia que trabalharas até de madrugada para sustentares todas as aflições da família, mas quando a doença ataca, pai António, já está no inconsciente donde partira e donde aliás nunca dali saíra e vai emergindo ladeira acima, emergindo até ao descampado menos opaco e mais visível mas ainda sombreado do subconsciente, até em sendo eu domada rumo ao ter de o fazer, a assombração, o já não te querer acordar, o entregar-me ao ofício do frigorífico e da despensa, ao assado que sobejara e que me soube a pouco, eu costumo comer um boi, tu sabes, descobrir os haveres da lista que me são vedados, procurar com afinco e encontrar a farinha triga e a bolacha, o queijo gordo e o magro e o toucinho, a manteiga e o arroz, a marmelada e o chocolate se os houvera encontrado, quase tudo marcas brancas, que disto melhor o entendes tu, que até te esqueces de fechar a diferentes chaves alguns dos esconderijos da casa, que deixas, de boamente, cada vez mais precária a despensazinha, como se pobrezinhos fôssemos e somos, que disto melhor o entendes tu, outra vez o digo e reafirmo, que os psiquiatras das nossas vidas, que muito burocraticamente nos atendem, que me atendem, para ser mais precisa e honesta, que a ti eles, e muito em especial o último e mais importante de todos, nem nos teus olhos repara, o besta, o merdeiro. Desculpa a expressão besta, perdoa a expressão merdeiro, mas é uma modesta forma de homenagear o teu velho pai meu paizinho, a quem eu gostava de subir pernas acima, dentro das calças fazer-lhe as cócegas que eu sabia ele ter e ele a brincar de as não ter a sério, saltar-lhe para cima do lombo e da barriga como o fui fazendo com atrevimento até duas horas antes de ir ele a morrer no odioso hospital, em promessas de vida ainda ele andava o meu paizinho: e não estavas lá, não estava lá deus nem nenhuma santidade que lhe valesse, sequer um clínico geral de serviço, que o hospital era de província e havia poucos direitos de cidadania, o fatalismo geográfico e a insensibilidade harmonizados, estavam umas irmãzinhas caridosas mas que confundiam a urgente respiração boca-a-boca com o temente beijo e o rebeijo que era preciso dar, e ser ele o princípio de violentos desejos silenciados e sublimados no sabor das hóstias transfiguradas do corpo inteiro do senhor, com pénis e tudo, de que elas diziam ser imunizadas, os quais beijos mais tarde se vieram a ilustrar nas escolas quão perniciosos eram e continuaram a ser, oh pânicos por conta dos rosários da sida, que esta vinha a despontar nos continentes todos e a dizimar multidões, como se peste negra houvera de ser, ou em vias de sê-lo fosse, no fim dos tempos deste milénio que vai a passar: o bispo de milão falou em castigo divino, anos depois da morte do paizinho.

Desculpa todo o mal que te faço, não odeio os que gostam de mim nem sou hipócrita, nem outras coisas a que te referias naquele papel que me escreveste com sentimento, depois de veres os resultados de mais uma noite de rapina no celeiro da casa: se soubesses como me senti ladra, se soubesses como me senti desarmoniosa, talvez fosses mais brando no olhar, mas eu compreendo-te: andas a aprender a tolerar, a ver se colocas mais amor no odiar. Sou cruel nos meus atos, mas também sou a primeira vítima deles, serás tu competente para compreenderes isto um dia. Como das outras vezes, volto a prometer: juro que foi a última vez.

Mas tu sabes bem que ela mora mais no inconsciente, que folga no subconsciente e me invade a alma pelo consciente adentro; sabes que ela, não nos sendo dado vê-la, é mais real que todas as damas quixotescas inventadas e por inventar. Sabes bem que hoje quando escreveste, abriste-te comigo porque sabias que eu prometera dar conta dela sem poder dar e que tu ficarias outra vez furioso e triste, outra vez, como de costume; não te denuncies inocente. Lamento a tua ignorância fingida, lamento-te a ti inteiro, não suporto que o meu ídolo seja um ser tão vulgar, um entre os iguais neste mundo de aparências e de falsidades, a dizer coisas do mundo normal como se fossem normais os gestos que atraem e repelem uns aos outros neste lugar imundo de loucos: como é crua a tua normalidade mesquinha: como te deixaste corromper, pai, ser inútil e vulgar. Tu eras grande, do tamanho da minha desilusão depois de iludida ter estado tantos anos; sabes, António, como dissera Eugénio, o poeta, todo o meu corpo cresceu, e não exerço a cidadania por inteiro: louca, vivo no ensaio da lucidez em estado de garça ferida.

O que lamento realmente sem equívocos, princesa minha, é que a tua doença não te deixe pedir ajuda e não te esteja deixando olhar de frente a vida real, a vida fora do teu quarto flui, seja loucamente, seja de trapos aparentes: os homens e as mulheres que se vão e se dão na via privada ou na liberdade pública, vivem fora da tua e da nossa muralha; se se mordem ou se se batem dentro de suas casas, ficam as nódoas no desabrigo dos muros, se nem queixas houve na polícia, se do hospital não ficou registo, que dores sem memória não falam.

Mas fala alto o teu silêncio de pedra, metida que estás num esconderijo bélico, no búnquer das nossas guerras: rompe os umbrais da tua toca, emerge do teu gostoso mundo de aparências.

Quiseras tu crescer em lúcidas e contentes alegrias, em vez de te perderes pelos atalhos da enganosa sabedoria: a beleza anda em rodopios entre o que parece e o que não é, e o que não o parecendo parece sê-lo; e nunca foi nem será tangível a leveza dos espelhos das passarelas onde candidamente te moves, retiro de máscaras, insustentáveis camarins: queiras tão tu somente fluir livre e, vincadamente, perambular pelas autoestradas do crescimento.

Sei que ambos sabemos que não podes rebobinar o filme da tua vida, mas não posso deixar de persistir, até ao desmantelamento, até ao armistício: a armadilha em que ela te tomou deve ter muitas fantasias, que, como compreenderás, escapa ao comum dos mortais; ademais, ela dá-te felicidade, que eu bem o vi nos teus olhos lacrimejados, em tu sorvendo os privilégios dela, ancorada em mim julgando que a minha heroicidade é inspirada nos filmes e documentários trágicos: a felicidade da doença é em ti obscena e eu sou um herói com muitos calcanhares de Aquiles. Ambos sabemos que não foi hoje, esta noite, que ela te atacou; ela ataca a todas as horas do dia e da noite; ela, através de ti, espreita todas as falhas de segurança deste quase antes éden, agora no presente masmorra insegura (a nossa casa de cinco, se contarmos a cadela que também come e dorme contigo), em estando ela em ti de dia instalada, ou contigo metida em cavalgadas noturnas, inspeciona todos os detalhes de todos os esquecimentos: lamento muito ter-me esquecido do coelho assado no frigorífico: era o nosso almoço, filha.

Até quando poderei eu investir a minha vida em preocupações tão domésticas, tão mesquinhas, eu também estou doente, sabes, frase que já não sabe explicar se disse, se pensou, se sonhou, soube apenas e sumamente sabe que ela lhe dançou nos rebordos da memória e apetecia-lhe multiplicar a chantagem como forma de terapia. Não rogues mais perdões nem arrependimentos, nem mais promessas faças que não possas cumprir: não amarás mais senhor que possa morrer, ainda te lembras de Sophia, ou foi-se de todo a poesia. Os pensamentos atropelam-se, mas a vida tem de continuar até que o carro deslize em frente, não há curvas, há escarpas meus deuses, a solo, a muitos cavalos conduzido a dois ou a cinco, a quatro, que a cadela não entra no meu quase Ferrari de Bordéus, não, isto não posso dizê-lo à princesa: nisto veria ela teatralidade burlesca e ambos sabemos que da história não constam suicídios anunciados se e quando dispõem do requerido tempo de serem esconjurados.

Sem mais delongas, atirou finalmente: sabes, Antonieta, aqueles que realmente te conheciam, como eu julgava conhecer-te, e olham para ti, os que ainda te olham porque tu ainda toleras, ainda te dás ao trabalho de fazer de conta que me e os escutas, acham-te irreconhecível sem to poderem dizer, que se estás bem fica por conta da vileza da gordura, se mal te dizem estares a cargo fica de gordurosas mentiras; talvez tu não consigas dar-te conta do aspeto doentio que mostras aos outros, e eu sei que não se julgam as doenças mas cuidam-se dos vivos para melhor se homenagearem os mortos, e os que, viventes ainda rastejem, e parecem ter-se finado, contudo vivem, pelo que nada há a perdoar, que a nossa vida não cabe numa religião; há quatro, cinco anos atrás, eu julgava que não era possível continuar a degradação, mas parece que é possível que o pior continue e te leve, inexoravelmente, para o lado de lá, de que nem a sombra alcançaremos, restando o eu aqui e o eu agora neste altar de palavras aturdidas: com efeito, o texto vai-se-me fugindo das palavras, e mais não resta que seus ecos de dor, descoloridos.

Mas eram na sua maior parte solilóquios, ou colóquios inventados como catarses de uma mente adoentada, nada que ao mundo dissesse respeitos, por isso continuou a sentenciar: terás um funeral condigno minha princesa e serás lembrada como uma grande menina que se debateu em desesperos inúteis contra uma das mil doenças da mente, por causas do corpo e de tamanhos e roupagens censuradas, que também se acomodou enormemente, que teve familiares e amigos à mão e não os soube ou não pôde ou não quis aproveitar, que, que, que, Terás um funeral com muita gente que agora te rejeita e muitas, muitas lágrimas, algumas de crocodilo outras de sal sentido, Flores nos primeiros anos, missas para cumprir um possível e malquerido calendário, nos intervalos da solidão e das faltas, Lágrimas, porque o nosso amor por ti não as secou ainda, apesar de já nos teres morrido muitas vezes, Serás lembrada enquanto vivermos, depois vagamente esquecida pela pressa ou a presa do tempo que a todos abriga e submerge, Os psiquiatras não investirão numa sessão de terapia dos nossos ossos em processo de inevitável apodrecimento e nos congressos vêm à dança os casos de bom sucesso, Que nós seremos um caso perdido para lá dos confins da morte, disse um dos estagiários na ignorância do seu interlocutor à mesa de um jantar da associação de vizinhos: daquela família, nem os ossos se hão de aproveitar, com perdão de eu ter aprendido, na formação especializada, a ficar calado, se o não calam mas o hão dito todos os orientadores de estágio desorientados, que calados nos quedássemos, entendeste-lo bem minha filha.

Na hora de selar a missiva, depois de selecionada a prosa permitida, a ser introduzida na frincha da porta do quarto voltado a poente onde dizem ser o pôr-do-sol a par do mundo dos mortos, foi ainda a força de dizer com alguma pitada de esperanças sem as ter crido: estive, estou e estarei e ainda continuarei a estar disponível para te ajudar a sair do abismo: assim a queiras: um beijo ateu.

Houvera sido, e a ser continuaria a comunicação possível de uma bizarra família que se comunica por cartas, mesmo em vivendo em comunhão de facto: com consagrados matrimónio, batismo, comunhão e crisma e tudo o mais que sói ser: que para deus tudo é pouco.

Gostaria de poder cultivar uma relação autêntica, aberta, amiga, que deixasse correr e falar o sangue de ambos. Ele havia tanta coisa que um pai como ele e uma filha como ela tinham para dizer um ao outro, mas ela não deixava, ele não tinha engenho nem compreensão bastante. Compreendia quão dolorosa ela deveria ser para ela e, em simultâneo, quanto amiga parecia ser-lhe. Ela, era assim que frequentemente tratava a doença, dava-lhe muitas lágrimas, muito sofrimento, muita fome, muita fome, muita fome. Sabia disso e julgava mesmo saber mais: ela dava-lhe, talvez, o outro lado: um certo estatuto pessoal, familiar, social: um mal compreendido pretexto para permanecer imóvel, quieta no seu estatismo de rapariga grega, vestida de rígidas vestes, do período arcaico, e severamente agarrada ao eterno bloco de pedra, mas sem aquele perene sorriso de moças ingénuas e sem o colorido mediterrânico dos panejamentos helénicos, ela era um esqueleto vestida de negro: uma legitimidade para o deixar andar, os outros que se amanhem, que eu sou a doente, a doente sou eu, repetia, entretida no estudo das calorias e da aferição dos índices de massa corporal de todas as pessoas que via, bastava olhar e já estava: vinte e quatro, vinte cinco, trinta, trinta e cinco, cinquenta de índice de massa corporal, um mundo de gordos e de morbidezas mentais, de que se tornara a melhor especialista, entre aspas, eles é que são loucos, todos se apoucam e se deixam em fealdades antes de mim: ela dava-se-lhe, sabia ele lá, o direito de assisti-la, a obrigação de desistir de tudo, menos dela, porque afinal ambas se queriam tanto: até à exaustão. Por isso os outros, aqueles que a queriam ver livre dela, seriam simplesmente derrotados. Porque ambas tinham um poder enorme. E, no entanto, em cada dia, emergia do quarto escuro numa aparência de menina cândida, sempre frágil, com os olhos sôfregos de compreensão e de súplicas, de silêncios e sacos de plástico mal escondidos, seriam para se denunciar, mas o silêncio sobrevinha, porque ela, a outra, sabia que os silêncios vão matando os que a amam, a ela, sem ela, a outra, a maldita, a prostituta, a cobarde, a destruidora, a mil vezes odiada, sim, sem ela, a desavergonhada, a descarada, a malcriada, a abusadora, a porca, a delinquente, a destruidora de pessoas e bens: serão estes os primeiros signos sinais da loucura, não há espaço para interrogações.

Tornava-se enfadonha a lista interminável de nomes que tinha para soletrar, mesmo à flor da pele, sem contar com o turbilhão diabólico de apelidos e alcunhas malévolas que lhe espreitavam os sonhos de cada noite. Decerto era por isso que não era capaz de decifrá-los. Eles eram tantos e compridos, enrodilhados uns nos outros que sarilhavam todo o mecanismo intelectual cada vez que tentava deslindar uma ponta da meada. Serenamente pensou dizer-lhe, de forma racional e propositada: não quero que penses, minha filha, que os que te rodeiam estão a lutar contra ela. Não, contra ela eu sei que nada podemos, sei que é só através de ti que eu chego a ela e que ela é poderosa, uma velhaca sem idoneidades. Ela sabe que jamais te abandonarei, sabe que por sua causa eu tenho um ar carrancudo, que ando ansioso, que tomo comprimidos atrás de comprimidos, como antigamente com o tabaco, lembras-te como fui um fumador compulsivo. Ela, a tua amiga, sabe disso e folga muito com os estragos que vai fazendo. Ela quer mesmo é liquidar-me de vez, mas, por outro lado, ela quer-me vivo para garantir a sobrevivência de ambas, quer chegar ao tutano de mim, mas sem me fazer o enterramento. E, acrescentou naquele pensamento emocionado e provocador: ela quer que vás usando os outros, uns aqui, outros ali, aqueloutro além, de forma subtil e com sabedorias de bondades mil vezes disfarçadas, dissimuladas, outras vezes da forma mais estúpida e inocente que até aborrece o riso da sua cegueira.

Com a primeira princesa, a Catarina, tinha o diálogo autêntico e doce, que a sua natureza de mulher-menina lhe permitia, orgulhava-se rendido à inocência dos diminuídos e puros: uma relação bonita e muito expressiva, os abraços e os beijos eram aos braçados e aos molhos, ternos, suculentos, completos, todos ligados por um sorriso inextinguível. Já com a segunda princesa, a Antonieta, as conversas e os silêncios que as doenças do estilo de vida, em simbiose perfeita, lhe impunham, lamuriava, nos passos pesados de uma via-sacra sempiterna. Mal dizia do desgraçado deus de todas as suas infâncias, da meninice, que lhe soube a pouco e a acre. Doía-lhe a alma, por isso se queixava muito: do pecado de fazê-la ao amor de tê-la, da condição vilã e irremediavelmente austera ao mais pleno e perfeito fado do desperdício consumista. De todos os esquecimentos a que uma alma atravessada de paixão é capaz de sentir depois do adeus, de cada adeus quotidiano.

Fingindo que era sensível ao fado das letras, disse-lhe um dia em sonoridade poética: os olhos dela / não te deixam ver / claramente. Três versos curtos numa solitária estrofe. Mas as contas do seu rosário misturavam-se, e a poética saída das valas e dos escombros metralhavam, era um julgamento vestido de versos, intrusão na vida livre de pessoa adulta e idónea embora errónea e deixava-se deslizar para uma prosa agastada, simétrica, sangrada e muito, muito lamuriada, de mau gosto e sempre desferindo golpes rasteiros e desprezíveis: a tua família está cansada – que escreve a Catarina nas suas cartas – porém ela, a tua inseparável companheira, não te deixa ver claramente – parecia-lhe tudo redundante –, tu e os que te amam são seres desprezíveis… As malditas reticências do meu general, pensava ela. Ela, a minha amiga, sempre que se impõe é suprema, infinita, enfim sumamente mais importante; o resto é hipocrisia, falsidade, ilusão, mentira, raiva, fome, outra vez a fome, já basta a que tenho, trapaça, fraude, chicana e prostituição, ele há tantas formas de prostituição, vómito, outra vez o vómito, o choro, as dores e as causas delas…, elas de novo, agora as minhas reticências, silêncios cobardes, ódios misturados com pitadas de amor, ausências e justificações infantis.

Tédio, continuava, um certo prazer de navegar nas demências próprias e alheias, dinheiro emprestado que nunca chega a ser restituído – rastos perdidos de dívidas saldadas e outras por saldar, quem me acode – hipoteca do nome, da pessoa, hipoteca do ser… Frivolidade e raciocínio pueril e roupa, muita roupa para compor os ossos que servem para dizer aos outros quem sou, quem quero ser, quem manda. O tabaco. Ela. O quê. Quem. Até quando.

Mais de quinze anos de perguntas, eu sei, meu querido. Como eu te adoro meu ídolo resistente.

Hoje já nem falsas promessas pronuncias, princesa, retornou à forma poética: o arroz (que deveria chegar para o almoço) / o queijo / o leite / as bolachas / o melão / reticências e que, em prosa falando, mais seria, se a despensa estivesse aberta, à mão, ou tivesses dinheiro com abundância; não vale a pena conversarmos sobre ela, tanto que conversar por via de papeis escritos é conversa fiada; talvez ela te dê um certo estatuto, repito, e até sirva de desculpa para tanta coisa. Consequências. Resultado. Estão à vista de todos. Só tu não queres ver a realidade. Claramente.

Do seu arsenal infinito, mil munições, quase disformes, foram proferidas contra o monstro. Tratava-se de tentar aramar pequenos rebentos possíveis de vida, pelo menos era assim que pensava e seriamente acreditava. Como era crédulo aquele estúpido rapazinho feito no leito de Salazar, tão indefeso, tão inseguro, tão medroso, agora imaginando-se enorme, entrincheirado com mil obuses obsoletos. Ei-los nesta exposição, enferrujados: dormir ou comer, enganar os outros, enganares-te a ti própria, dor de dentes, cabeça, ossos, alma e desnutrição africana, vomitório quotidiano, orgia alimentar e mais vomitório, desregramento geral, silhueta esbelta para dar nas vistas, mulher de negro, miséria, solidão e medo – pobre pai, que sabes disto – magreza estúpida e ridícula, mas os olhos dela, os dela, não te deixam ver claramente. Outra vez a redundância, retirada silenciosa, dois antidepressivos, um indutor de sono, um copo de uísque e a releitura atenta dos efeitos secundários: confusão emocional, capacidade de reação diminuída, confusão, sonolência diurna, fadiga, cefaleias, tonturas, fraqueza muscular, ataxia, visão dupla, podendo ocorrer ainda problemas gastrointestinais, alterações da libido ou reações cutâneas, enfim amnésia, depressão (se estiver no estado latente revela-a, que graça senhores doutores da prevenção, oh psiquiatras borrachões), inquietação, agitação, irritabilidade, agressividade, ilusões, ataques de raiva, pesadelos, alucinações, psicoses, comportamento inadequado e outros efeitos adversos de comportamento, fim de transcrição. Mas estes efeitos paradoxais, atenção, são mais frequentes nas crianças e nos idosos, pode tomar à vontade, senhor António. Dependência.

 

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