Sociedade

Tinalhas: Uma terra de tradições

Tinalhas – É uma típica aldeia beirã, situada entre o campo albicastense e as faldas da Serra da Gardunha.
A agricultura sempre foi o forte da economia local, sobretudo em tempos idos, onde havia três ou quatro casas senhoriais sendo, consequentemente, as grandes empregadoras, com destaque para a Casa Agrícola do Visconde de Tinalhas. Hoje o trabalho no campo é assente numa base de subsistência, ou feito por carolice, pois depois da emigração dos mais novos nos anos 60 do século passado, as novas gerações apostaram mais na formação escolar e em novas formas de vida.
As tradições são outro ponto forte da história da aldeia. A romaria da Rainha Santa Isabel, que agora se celebra na data que lhe é dedicada no calendário religioso, a quatro de julho, era tradicionalmente realizada no fim de semana da Páscoa, sendo das primeiras da região depois do período recatado da quaresma, tendo por isso grande nomeada e sendo data obrigatória para reuniões familiares.
Hoje persistem, com ligeiras adaptações, o “Maio Menino”, a 1 de maio, e o “Ah que se chá… “, sempre na noite de 5 para 6 de janeiro. A primeira tradição é feita com as crianças da escola primária, que levam pelas ruas o “Maio Menino” (antes o mais pequenino do grupo, vestido de giestas, mas que hoje é substituído por um boneco, para não ser tão agressivo para a criança que tinha de ir ‘vestida’ de giestas). Têm uma cantiga própria, que vão cantando pelas ruas e enchendo a bolsa com as guloseimas que a população lhes oferece.
O “Ah que se chá…” é o cortejo dos Reis Magos. A sua origem perde-se no tempo, pois os nossos avós já ouviam os avós deles falar desta tradição. Uma coisa é certa, é algo único de Tinalhas. A população reúne-se junto à capela do Espírito Santo, cuja sineta toca durante todo o dia, por quem ali vai passando. Dividem-se em dois grupos, o dos solteiros e o dos casados, cada um deles acompanhado pelos músicos da quase bicentenária Sociedade Filarmónica de Tinalhas, fundada pelo primeiro Visconde, que foi também seu regente (maestro) e tem uma atividade ininterrupta. À frente segue um candeeiro, que simboliza a estrela guia, e os grupos vão cantando alternadamente uns versos próprios desta tradição. Partem do largo do Espírito Santo, onde o cortejo termina depois de percorrer todas as ruas da aldeia e, em frente à capela, cantam ao desafio, até uma das partes se render. No final, o convívio segue entre todos, com a distribuição gratuita de filhós e vinho.
As filhós são hoje providenciadas pela Ergamus – Associação de Salvaguarda Patrimonial de Tinalhas, que tem tentado manter as tradições e não deixar perder usos e costumes, que formam a identidade deste povo.
Um povo simples, mas hospitaleiro, como é apanágio das gentes da Beira Baixa.
Foi com o seu bem receber beirão que acolheu no seu início de carreira o médico Fernando Namora. Mas Tinalhas foi também berço de algumas figuras ilustres do nosso país. Destaque aqui para o padre jesuíta Estêvão Dias Cabral, que ali nasceu no início do século XIX, mas depois de ter ingressado jovem na Companhia de Jesus, rumou a Roma, onde se formou em Matemática. Mas foi na Hidráulica que se especializou. De regresso a Portugal, foi um dos protagonistas do encanamento do Mondego e da criação da Mata do Choupal; da intervenção nas barreiras do Ribatejo, para tentar evitar as cheias; mas até mesmo no arranque das obras do Aqueduto das Águas Livres em Lisboa. Uma figura discreta e não muito conhecida, mas com muito por descobrir.
A Banda Filarmónica de Tinalhas, conhecida em toda a região,  foi fundada em 1828 pelo primeiro Visconde de Tinalhas, tendo tido ao longo os anos maestros de reconhecido valor, com menção a José André Eusébio. Entre os seus elementos que dedicaram mais de 60 anos à instituição, destacam-se o nome de José Cândido (Zé Bomba) e António Apolinário Ramos (António Abílio).
Outra referência da aldeia foi o café Bomba, durante 50 anos, um ponto de encontro de muitos tinalhenses e gente dos arredores, onde o “ti Zé Bomba e a ti Elvira” serviam o vinho da região e cerveja sempre muito “fresquinha”. Entretanto, a pandemia deitou o seu encerramento.

 

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One Comment

  1. Olá boa noite, gostei de ler e relembrar as tradições da minha aldeia, no entanto fiquei triste por não mencionarem o nome do meu avô Abel Jorge Ramalhinho, foi membro da filarmónica durante muitos anos, chegou a ser o membro mais idoso, mas tocava com muito gosto. Eu fazia muito gosto que fosse também lembrado nestas exposições das tradições da nossa terra. Obrigada. Cumprimentos. Fernanda Rafael.

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