
Esta manhã, a caminho do trabalho, passei por uma estação de serviço, daquelas com área de lavagem de automóveis, e fiquei abismada: na fila para a lavagem estava, seguramente, bem mais de uma dezena de carros. Observei-os; alguns, pelos meus padrões, nem estariam ainda a necessitar de limpeza. E fiquei a pensar: será que lavar um carro é mesmo uma necessidade inadiável para todas as pessoas que ali estavam, ou uma daquelas rotinas de fim de semana das quais não se consegue prescindir?
E assim, de uma simples observação e de uma pergunta que fiz para mim própria, surgiu o tema para esta crónica: quando será que as pessoas vão perceber que alguns comportamentos têm de começar a mudar, por força das circunstâncias? Numa altura em que o país está a enfrentar um cenário de seca severa – a pior seca dos últimos cem anos -, é sensato continuarmos a gastar os nossos recursos naturais a crédito?
O meu marido contava-me, há dias, que em muitos dos Verões tórridos que passou na juventude com os avós, em Carrazeda de Ansiães, a água chegou a ser racionada. As torneiras ficavam a seco durante a maior parte do dia e só havia água para consumo doméstico durante duas ou três horas diárias. No resto do tempo, a água das fontes públicas tinha de dar conta das necessidades. Depois construiu-se uma barragem, para suprir a carência da água e para que a população não voltasse a sofrer de tamanho problema. Mas, passados tantos anos, já nem a barragem evita que a água falte na região outra vez.
Neste Verão quente de 2022, durante uma visita recente à costa vicentina, apercebi-me da presença de inúmeros cartazes na beira das estradas, afixados pela população local, a exigirem apenas uma coisa: “ÁGUA PARA TODOS!”. Isto porque, numa região onde os períodos de seca são uma realidade já de há décadas, a proliferação de estufas gigantes e de áreas dedicadas à agricultura intensiva fez com que, nos últimos anos, a pouca água disponível fosse cada vez mais encaminhada para os grandes empreendimentos agrícolas, em detrimento dos pequenos produtores e da agricultura doméstica – e estes, desgraçadamente, vêm a sua subsistência ameaçada pela escassez do mais essencial de todos os bens.
Vivemos, pois, nesta dicotomia: enquanto há zonas do nosso país onde a água já quase não chega, sequer, para regar os cultivos que hão-de fornecer alimento, noutras zonas (como a nossa) continuam a consumir-se dezenas de litros de água, despreocupadamente, só para – entre tantos outros exemplos – limpar o pó dos carros. Na minha escala de importância, e no contexto em que nos encontramos, esta devia ser uma das últimas necessidades e, logo, uma das primeiras a cair. Mas as pessoas, por alguma inexplicável razão, parecem incapazes de olhar para o todo, para lá das suas necessidades imediatas, e de agir em conformidade.
Será que esta postura negligente resulta de falta de informação ou, pelo contrário, será do excesso de informação? Inclino-me para esta última hipótese. Quer-me parecer que o tom apocalíptico das notícias em alguma comunicação social foi esticado até ao limite, estafou e desacreditou-se. De tanto se anunciar a desgraça e, demasiadas vezes, ela não se concretizar, chegou-se a um ponto em que os cidadãos comuns já não dão crédito aos que alertam para o desastre iminente. As pessoas já não querem saber. Pior do que isso: sob a influência perniciosa das redes sociais, há demasiada gente que faz gala em não querer saber.
Apesar de estarem à vista os resultados catastróficos das alterações climáticas – fogos cada vez mais devastadores em vários pontos do mundo; situações de seca extrema num lado do planeta ao mesmo tempo que ocorrem cheias de proporções bíblicas noutros lados; recordes de temperatura sucessivamente batidos; falta de água ou de alimento em áreas críticas do planeta; espécies de fauna e flora a desaparecerem a um ritmo vertiginoso, pondo em risco o equilíbrio dos ecossistemas e, a prazo, a própria subsistência da vida no planeta, etc. -, é cada vez maior o número de pessoas que repudiam as evidências. De todas as formas de negacionismo, admito que esta é, para mim, uma das mais difíceis de perceber. Como pode negar-se algo que está tão flagrantemente à vista de todos? Será este o tempo em que atingimos o pico do individualismo, ao ponto de rejeitarmos encarar a realidade da crise climática global e renunciarmos à mudança de comportamentos; ao ponto de não conseguirmos abdicar de alguns pequenos confortos para podermos corresponder aos imperativos de sobrevivência da nossa espécie? Noutras regiões do mundo há vidas e comunidades inteiras em risco – em resultado da acção directa do homem e dos altos níveis de poluição, que escalaram a partir da revolução industrial – mas, por cá, talvez só ganhemos consciência do momento dramático em que a humanidade se encontra quando o mal nos bater à porta e em força.
No mês de Julho, em apenas dois ou três dias de calor anormal no Reino Unido, em que todos os recordes foram batidos, aquele país registou milhares de mortes em excesso (para os padrões normais desta altura do ano), devido aos efeitos da vaga de calor. Segundo notícias recentes, também Portugal registou um aumento substancial no número de mortes, no mesmo mês. Pela mesma altura em que isso acontecia, um especialista português alertava, num canal de notícias, que “estamos a morrer com as alterações climáticas”, explicando que as mudanças no clima estão – directa e indirectamente – a afectar as nossas condições de vida e a nossa capacidade de sobrevivência. As declarações de um estudioso do assunto deveriam ser suficientes para suscitar a reflexão. Ao invés disso, e para meu assombro, suscitaram uma onda avassaladora de descrédito, rejeição e escárnio ignorante. Das centenas de comentários que aquela entrevista motivou nas redes sociais, contavam-se pelos dedos de uma mão aqueles que valorizavam as declarações do especialista e admitiam a gravidade do problema. Mortificada, li-os, um a um, e fiquei chocada com toda aquela exibição orgulhosa e abrutalhada de falta de conhecimento. Cheguei a recorrer, eu própria, à ironia, ao escrever na mesma caixa de comentários que “mais depressa o mundo acaba do que nós deixamos de ser um país de ignorantes”. É uma tirada impertinente, é certo, mas não será de todo injusta ou infundada.
Em 2022 – e na sequência de uma pandemia, de uma vacinação em massa, de uma guerra súbita e de um Verão muito seco, quente e mortífero – está na moda ser ostensivamente ignorante e negacionista, tanto do conhecimento científico, como da realidade observável. Os factos alternativos ganham cada vez mais espaço e impacto, e começam a entranhar-se no discurso do cidadão comum e a minar a percepção coletiva do mundo. Fechar os olhos aos problemas e rejeitá-los é uma estratégia de auto-defesa tão velha como o mundo, mas só resulta até um dado ponto. Talvez ainda não o tenhamos percebido, mas o planeta dá-nos sinais alarmantes de que esse ponto já passou. O mundo, tal como está hoje, não se compadece do autismo dos homens e exige mudança em todas as frentes, dos indivíduos aos governos, sob pena de ser a geração já a seguir (ou seja, a dos nossos filhos) a pagar a pesada factura do que andamos, irresponsavelmente, a fazer há décadas. E, se algum bom senso ainda me assiste, essa é uma culpa que não desejo carregar na minha consciência. Façamos todos, em cada dia, a nossa parte para mudar o rumo do mundo; uma pequenina mudança de cada vez.
(Nota: É óbvio que o propósito deste artigo não é diabolizar o negócio da lavagem de carros, nem será por abdicarmos meramente desse hábito que o estado do mundo vai mudar. Serviu-me apenas como leitmotiv para toda esta reflexão; como exemplo simbólico dos hábitos enraizados e dos recursos que damos por garantidos, por oposição às pequenas mudanças individuais que temos todos, em consciência, de empreender. Só assim, questionando alguns comportamentos e mudando outros, poderemos – também nós, à nossa pequena escala – contribuir para deter esta marcha insana da humanidade rumo à capitulação.)
Sandra Marques
Jornalista



