Entrevistas

Sofia Roque: “Ir para a escola pela primeira vez é uma exposição brutal”

Sofia Roque, psicóloga clínica, considera, em entrevista à Agência de Informação Norte, que o primeiro contacto com a escola representa para a criança uma experiência intensa e assustadora. A propósito do arranque de mais um ano letivo, a especialista sublinha a importância das palavras no processo de adaptação, alerta para os riscos de os pais transmitirem os seus próprios medos e critica um sistema educativo que, apesar de “partir de um pressuposto bonito”, se encontra em “pré-ruptura”.

Agência de Informação Norte – Quais são os principais desafios emocionais e psicológicos que as crianças enfrentam ao iniciar a escola pela primeira vez, e de que forma isso pode afetar o seu comportamento e rendimento escolar?
Sofia Roque
– Ir para a escola pela primeira vez é um exercício de uma exposição brutal, de sonhos e do imaginário. Mas estamos a fazer algo desconhecido, pela primeira vez, onde a criança tem de gerir não só as suas próprias expectativas mas também as dos outros ou as que ela acha que os outros têm dela. E, durante esta travessia, não há nenhuma pessoa de segurança por perto. Mais tarde, e após o período de adaptação, é expectável que sim, mas no início não. Tudo é desconhecido. Portanto, é terrivelmente assustador e, como tal, pode ter reflexo quer nas emoções quer no comportamento da criança – alteração do padrão de sono, do padrão alimentar, irritabilidade, ansiedade de separação, medos, crenças disfuncionais, labilidade emocional,  etc. É suposto que isto seja transitório, e cada criança tem o seu tempo de adaptação e as suas necessidades, mas o expectável é que esta montanha russa de emoções pela descoberta de um contexto e de um papel novo, se dilua com o tempo e que a escola, os professores e os colegas possam passar a ser figuras de referência e de segurança para a criança.

Em que medida a ansiedade manifestada pelos pais no início do ano letivo influencia a adaptação das crianças ao ambiente escolar?
Acima de tudo na gestão de expectativas e no sentimento de segurança. Quer das expectativas que a criança tem sobre ela própria, quer nas expectativas que ela acha que os outros têm sobre ela, nomeadamente das figuras parentais. As palavras são o nosso maior poder, por isso, a  comunicação verbal quando os pais partilham em excesso, na forma como se partilha, na linguagem usada, no debater temas em frente à criança, mas nunca a envolvendo,  e a não verbal das figuras parentais que acaba por ter o maior peso – postura distante, ausência de comunicação, expressões faciais, comportamentos vão ter sempre repercussões naquilo que possa ser ou não uma adaptação mais saudável e menos disruptiva da criança ao meio escolar. Se eu, enquanto pai/mãe/cuidador, permito que a criança perceba os meus medos, as minhas inseguranças, sejam eles o medo de a criança/jovem  errar, de falhar, de não conseguir, de não ser aceite pelos pares, estou, em última instância, a dizer à criança que aquilo pode acontecer e condiciona a forma como a criança se vai ver a si, ao contexto escolar, e, aos pares, por vezes, damos informação a mais.

Considerando o impacto prolongado da pandemia e das interrupções letivas, que estratégias recomendaria aos pais para ajudarem os filhos a gerir a ansiedade e o stress do regresso às aulas?
Creio ser importante trabalhar as emoções com as crianças, e o que podemos fazer com elas para nos sentirmos melhor. Os adultos também sentem e também têm dificuldades, por vezes, em lidar com essas emoções. É normal sentir ansiedade perante mudanças, novos desafios, em situações expositivas e nas quais nós podemos percepcionar como menos competentes- seja na vertente mais académica, social ou desportiva. O que não é normal é que essa ansiedade seja disfuncional, que bloqueie, que nos impeça de fazer as coisas. Mas, às vezes, vamos fazer com medos, com enigma, até percebermos que conseguimos fazer. A comunicação, a escuta ativa, o reforço positivo, a habilidade exploratória são fundamentais. Enquanto adultos, podemos partilhar o nosso dia, contar o que nos deixou tristes ou alegres, seguros ou  inseguros e tentar perceber se a criança/jovem vivenciou algo parecido. Ter tempo em família, de partilha, de trabalho em equipa, naquilo que é a organização sistêmica de cada família. Não achar que o único papel da criança é estudar. Responsabilizá-lo para isso, mas tirar o peso dai. A criança tem vários papéis, devemos valorizar todos eles e fazer com que ela se sinta competente no exercício dos mesmos.

Sinais de alerta no início do ano letivo

Quais os principais sinais de alerta que indicam dificuldades de adaptação emocional, social ou mesmo casos de bullying no início do ano letivo? 
Por norma, está sempre associado alguma alteração do padrão emocional ou comportamental – usar resposta mais fechadas, curtas, evitar os assuntos, algumas ‘regressões’ naquilo que seriam as aquisições de desenvolvimento já adquiridas enurese nocturna ou diurna, alteração do padrão de sono, terrores noturnos, pesadelos, insônia, alteração do padrão alimentar, alteração do estilo de vestir usar sempre roupa que tape o corpo todo, ter mais resistência em fazer coisas que antes fazia com motivação, (…).

De que forma o ambiente familiar e a dinâmica parental contribuem para a resiliência ou vulnerabilidade dos alunos perante os desafios escolares?
A modelação tem um peso terrível e as crianças são as maiores esponjas de conhecimento dos zero aos três anos e dos três aos 5 anos, e aprendem por repetição (não só). Portanto, se em casa a forma como se comunica é aberta, com escuta activa, com habilidade exploratória, com a validação do outro, de forma calma, a criança tendencialmente vai sentir-se segura para partilhar os seus medos ou as  suas inseguranças. Se, por outro lado, o contexto é mais intempestivo, mais reactivo, mais crítico, com comunicação passivo-agressiva, sem escuta activa, a criança tendencialmente não se sentirá validada, compreendida, vai ter uma perceção mais fraca de si, achando-se menos capaz, com baixo limiar à frustração, com medos e crenças que podem ser disfuncionais.

Quais são os riscos psicossociais mais relevantes a que os alunos estão atualmente expostos no contexto escolar, incluindo o bullying, e como podem os pais e os professores estarem mais atentos a estes perigos?
São vários e que vão sempre interferir naquilo que é a relação da criança com ela própria, com os outros e o contexto, ou os contextos, em que está. É na escola que os amigos começam a ser o epicentro do mundo da criança (fazemos o movimento de dentro para fora – contexto sistêmico para o contexto social). Nós somos seres sociais e de pertença. Portanto, se em algum momento este movimento é posto em causa, a identidade da criança também pode ser questionada. Nós vamos procurar a validação do outro e, nesse sentido, às vezes, os comportamentos de risco podem aumentar. Se eu tenho uma fraca perceção de mim, se os outros validam isto, se eu não me sinto seguro, começo a construir uma narrativa menos boa, sobre mim os outros e o mundo.

Uso de telemóvel e redes sociais prejudica jovens

E, relativamente ao impacto do uso intensivo do telemóvel e das redes sociais na saúde mental dos alunos, nomeadamente em relação à ansiedade e ao isolamento social?
O uso de telemóvel e redes sociais está mais que comprovado que tem um efeito negativo nos jovens, com o mau uso, o sobreuso ou uso sem supervisão. Perdem-se habilidades sociais, a comunicação é feita de outra forma, é diferente eu tecer um comentário ou expressar uma opinião cara a cara ou através de um rede social, há quase uma inimputabilidade dos nossos actos, porque estamos protegidos por um ecrã. A definição de amizade muda, porque, na verdade, ninguém tem 5mil amigos. Fazer scroll nas redes sociais é, muitas das vezes, receber informação que não pedimos e que, na verdade, não temos estrutura cognitiva e emocional para a processar. O juízo crítico vai sendo toldado e a narrativa do outro, às vezes, é tida como uma verdade absoluta. Não querendo ser redundante, mas a comunicação é fundamental. As palavras são o nosso maior poder. Portanto,  os pais e os professores devem fazer-se valer delas, fazendo com que as crianças ou os jovens percebam que nelas estão todos os amanhãs e que com elas todos conseguem ser, e que ninguém é sozinho. Ter empatia é fundamental.

Na sua opinião, o sistema educativo português dispõe de recursos e políticas adequados para responder às necessidades emocionais e psicológicas dos alunos, especialmente em termos de prevenção e combate ao bullying?
O sistema educativo tem coisas maravilhosas…muitas vezes, a escola é o único sítio onde as crianças se sentem ouvidas, onde pertencem, onde tomam banho e tem a única refeição do dia…! Parte de um pressuposto teórico bonito, mas, na prática, o sistema está em pré-ruptura, fica muito aquém daquilo que seriam os recursos necessários para fazer juz às necessidades já há muito identificadas.

Que recomendações concretas daria aos pais para acompanharem e apoiarem o desenvolvimento emocional dos filhos durante o ano letivo, garantindo um equilíbrio saudável entre acompanhamento e autonomia?
Mais uma vez, diria que a comunicação é fundamental. Responsabilizar a crianças /jovens naquilo que são as suas tarefas, validar as suas competências na execução dessas tarefas, estar disponível para satisfazer alguma insegurança ou dúvida…não fazer por eles, mas dar-lhes competências e ferramentas para eles poderem explorar e fazer, escolher e lidar com as consequências da escolha. Mas dizer-lhes que elas, as crianças e os jovens, são  muito mais que o papel de aluno e permitir que elas possam explorar todos os outros papéis. As crianças/jovens passam uma quantidade absurda de horas na escola e, depois, ainda tem actividades extracurriculares…o tempo que tem em casa, muita das vezes. É um tempo de conflito (não é gratificante, não é de qualidade), porque, se chega a casa tarde e tem de se tomar banho, comer, fazer os trabalhos de casa e depois dormir. 
Na verdade, a criança passa o tempo a produzir, e o ócio é importante. Diria que fundamental. Combater ferozmente a ideia de que não há tempo para ter tempo.

 

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