Entrevistas
Mimicat: “Levo o Porto comigo”
Depois de um percurso feito com persistência e mudanças de registo, Mimicat olha hoje para a música como um território conquistado com tempo, maturidade e identidade própria. Cantar em português é uma escolha central, num percurso que cruza teatralidade, performance e canções pensadas para o palco. A vitória no Festival da Canção marcou um ponto de viragem, mas é no trabalho continuado, para lá da Eurovisão, que consolida o seu lugar e abre novas perspetivas, assumindo o sonho da internacionaliação. São declarações de uma entrevista à Agência de Informação Norte, num regresso ao Porto, cidade com a qual a cantora mantém uma ligação antiga.
7 de janeiro 2026
Agência de Informação Norte (AIN) – A interpretação de Morgana, a bruxa do mar, em “A Pequena Sereia no Gelo” marcou dois meses de apresentações no MAR Shopping Matosinhos, entre novembro e janeiro, perante cerca de cem mil espectadores. O que representou este desafio, num espetáculo que cruzou patinagem, música ao vivo e teatro, e de que forma este registo dialogou com o seu percurso no teatro musical?
Mimicat – Esta experiência foi a confirmação de que adoro fazer teatro. Já tinha feito teatro musical, estreei-me no ano passado, com a mesma equipa e a mesma produtora, a interpretar o Génio, em Aladino, e fiquei completamente apaixonada. Achei que seria algo pontual, que não aconteceria com frequência, mas este ano convidaram-me novamente. Esta descoberta para este papel foi a confirmação de que isto é quase uma segunda natureza para mim. Foi um processo duro, com ensaios muito rigorosos. É um papel exigente, mas dá-me um enorme prazer. Faz-me muito feliz!
Como é que se preparou para uma personagem tão marcante?
É marcante e complexa. Quis dar-lhe um tom divertido no meio da maldade, porque é uma personagem muito má. Ao mesmo tempo, quis que tivesse esse lado mais louco, que não fosse unidimensional, nem apenas maldade pura. Trabalhámos essas camadas, até porque há momentos mais cómicos no espetáculo. Procurei equilibrar o humor com a maldade mais crua, sem perder a sensualidade, nem o lado feminino. Precisava desse cariz mais sensual. Acho que consegui encontrar um bom caminho e cheguei a um lugar com o qual fiquei muito satisfeita.
Torna-se mais difícil quando o espetáculo é sobretudo para crianças?
Não, na verdade não acho. Olhamos sempre para o público como um todo. As crianças vêm acompanhadas pelos pais e não nos podemos esquecer dos adultos. As crianças também percebem quando o trabalho é honesto e nasce de um lugar de verdade. Toda a equipa tinha como objetivo entregar o melhor possível ao público, fossem crianças ou adultos. Não fizemos essa distinção.
Foram dois meses no Porto. O que mais a fascina nesta cidade?
Levo as pessoas. Esta foi uma experiência muito dura para mim, porque estive longe dos meus filhos. Tenho dois filhos pequenos e é difícil, enquanto mãe, sentir que não estou presente. Conheço bem o Porto, adoroesta cidade. Infelizmente não tive muito tempo para passear, mas quero muito voltar para tocar. Em 2026, de certeza que acontecerá algo. Se não for este ano, será no início de 2027. Estou a preparar uma digressão de auditórios e passará pelo Porto. É uma cidade que me diz muito.
Foi nesta cidade que concluiu o estágio final do curso…
Exatamente. Foi num musical, aqui no Porto. Estive cá dois meses nessa altura e apaixonei-me completamente. A minha ligação ao Porto vem daí. Levo-o sempre comigo.
Porque razão chegam agora os espetáculos ao vivo?
É uma questão de momento. Estou a construir esse momento. Apostei muito na divulgação das minhas canções e da minha música e estou, pela primeira vez desde a Eurovisão, a chegar a um público ao qual nunca tinha chegado. Arrisco dizer que o meu crescimento tem sido maior agora do que nessa altura. Sinto que estou a preparar o terreno certo para os concertos.
Há uma Mimicat antes e outra depois da vitória no Festival da Canção?
Talvez haja. Acima de tudo, há uma Mimicat depois do teatro. O teatro foi mais marcante porque me abriu um horizonte que eu nem sabia que existia. O Festival da Canção também abriu portas, mas era algo que eu já sabia que conseguia fazer. Foi mais uma realização. O teatro foi descoberta. Desde aí, evoluí muito, também musicalmente. A minha persona artística tem crescido e estou muito feliz com o caminho que estou a trilhar.
“Este último ano foi, no fundo, um ano de preparação”
Disse recentemente que 2025 teve um lado pessoal difícil, mas sublinhou o crescimento desse período. Quer continuar a partilhar esse percurso em 2026?
Sim. Sinto que as pessoas me acompanham porque gostam da arte que partilho. Não tenho a pretensão de fazer o que outros fazem. Quero seguir apenas o meu caminho. As pessoas estão a perceber isso e a reagir de forma positiva. Quero continuar a partilhar esse percurso, porque o público faz parte do processo e do crescimento. Quando penso nas músicas, penso sempre no impacto que podem ter. Quero que as pessoas tenham uma experiência, tal como no teatro. Com a música é exatamente o mesmo. Este último ano foi, no fundo, um ano de preparação.
Começou a gravar ainda em criança e participou no Festival da Canção em 2001. O que a fez insistir?
Tinha 15 anos e não era autora, fui apenas intérprete. Na altura, o festival tinha perdido muita relevância no panorama musical. Sofri um pouco por influência disso, mas era adolescente e não dei grande importância. Foi uma experiência passageira. Só me lembrei verdadeiramente disso quando voltei a concorrer anos mais tarde.
Tem noção do impacto de “Ai Coração”, que representou Portugal na Eurovisão, em Liverpool?
Tenho, sim, e fico muito feliz! Os números da canção mostram isso. Saber que faz parte da vida das pessoas e lhes dá alegria é a melhor recompensa para um artista. Fico feliz por fazer parte da história do Festival da Canção, que considero bonita. A recuperação do festival foi importante para a música portuguesa. Continua a ser um espaço onde se dá visibilidade a artistas que, de outra forma, não a teriam.
É também uma boa escola para os artistas?
Completamente. Criar uma atuação para televisão foi uma aprendizagem enorme. Foi uma competição muito genuína, em que todos queriam mostrar a sua música. Criámos amizades e foi uma fase muito bonita.
Cantar em português e cruzar géneros é um caminho para continuar?
Sim, em português. Já escrevo muito pouco em inglês. Quero continuar neste registo que assume a teatralidade que faz parte de mim. Pode gerar alguma resistência, mas é o meu caminho. Quero ser fiel a ele.
“Cresci muito como pessoa e como artista”
Diz que como Mimicat pode ser tudo. Essa liberdade vem de onde?
Há a Mimicat e há a Marisa por trás. A Marisa tem medos e dúvidas. A Mimicat não. A Mimicat sobe ao palco e faz o que tem de fazer. É como ligar e desligar um botão. Hoje estou em paz com isso. O teatro ajudou-me muito a abraçar essa identidade de performer.
O que continuam a partilhar Marisa Isabel Lopes Mena e Mimicat?
Muito. A Marisa criou a Mimicat. Diria que 80% da artista é a Marisa. A diferença é que a Mimicat não tem medo de se mostrar.
O álbum Peito é descrito como uma “casa de emoções”. Que emoções quis fixar?
Representa uma viagem de dez anos. Cometi erros, cresci e aprendi. O álbum reflete esse percurso. Trabalhei novamente com pessoas do primeiro disco, num verdadeiro fecho de ciclo. Há muita verdade ali e tenho muito orgulho nesse trabalho.
Sente que o tempo joga finalmente a seu favor?
Sim. Cresci muito como pessoa e como artista. Aprendi que a idade é um limite que muitas vezes impomos a nós próprios. Hoje acredito que o tempo está do meu lado e que só pode trazer aprendizagem.
Recorda o pai como a pessoa que mais admirava. Que valores herdou?
Herdei dele a capacidade de sonhar sem limites. Da minha mãe, a coragem e o amor-próprio. Foram fundamentais na construção de quem sou, com tudo o que isso implica.
Cresceu fora dos percursos escolares tradicionais. Que impacto teve isso?
Venho de uma família pobre, com uma forte noção de sacrifício. O esforço sempre esteve ligado ao resultado. Isso faz parte de mim.
A internacionalização continua a ser uma ambição?
Já foi mais central. Agora está adormecida. Quero construir uma carreira que possa ir para fora, quando os meus filhos forem mais crescidos. Deixei de acreditar nos limites da idade.
Que lugar ocupa hoje na música portuguesa?
O meu. Portugal é um país de criadores, mas com um mercado pequeno. Isso limita a diversidade que chega ao público.
As redes sociais mudaram esse cenário?
Completamente. São um novo portal. Rompem com lógicas antigas da indústria. Hoje, o foco está na comunidade. É aí que o artista deve estar.
Portugal tem artistas a mais?
Não. Há é mercado a menos. Mas esse espaço está a crescer graças às redes sociais. A comunicação mudou e, muitas vezes, é mais eficaz do que antes.
Fotos: Claudia Batalhão




Que entrevista tão agradável. Desconhecia a ligação da Mimicat ao Porto. Que maravilha. Adoro as suas canções e foi um gosto ver a Morgana no gelo, depois de a acompanhar nas redes sociais. Só faltam agora os concertos nesta cidade. Esperamos por si.
Festival. Aquilo que a Mimicat fez em palco foi único. Não esteve apenas a cantar, esteve a viver cada palavra. Foi cantora e atriz ao mesmo tempo, intensa, expressiva, completamente entregue. Daquelas atuações que ficam na memória e no coração. Barcelos espera por si.
Felicidades.
Gosto da garra com que canta. Nao sabia desta sua ligação ao norte. Gosto ainda mais de si.