Entrevistas

José Barreiro: “O Primavera Sound entrou numa fase adulta e madura”

O festival Primavera Sound Porto regressa esta quinta-feira ao Parque da Cidade do Porto para quatro dias de música e a organização conta com cerca de 40 mil pessoas por dia. Na véspera do arranque, o Diretor do festival, José Barreiro, disse à Agência de Informação Norte que o evento entrou numa "fase adulta e madura" e que a prioridade passa, agora, por preservar a qualidade da experiência, sem abdicar de um cartaz pensado para diferentes gerações, continuando a proporcionar ao público o que distingue este festival: um bom cartaz e uma experiência de conforto.

Agência de Informação Norte – Que expectativas têm para esta edição, quer ao nível do público, quer do impacto que o festival terá na cidade do Porto?
José Barreiro – Estamos com expectativas muito elevadas porque, mais uma vez, vamos superar o público do ano anterior. Vamos ter praticamente, todos os dias do festiva, a lotação máxima, que é de 40 mil pessoas. A sexta-feira já está esgotada, os passes gerais também já se encontram esgotados e os restantes dias continuam a vender a bom ritmo. Acho que vamos voltar a bater um recorde de público.
Esse recorde traduz-se também num importante retorno financeiro para a cidade. Orgulha-nos promover o Porto a nível internacional e atrair um elevado número de visitantes, tanto estrangeiros como nacionais. Por exemplo, a segunda cidade onde vendemos mais bilhetes é Lisboa. Ou seja, além do turismo internacional, há também muito turismo interno que o festival traz à cidade do Porto. Estão, por isso, reunidas as condições para mais uma edição histórica.

O Primavera Sound continua a conciliar nomes históricos com artistas emergentes. Como se constrói um cartaz capaz de responder às expectativas de públicos tão diferentes?
Este ano, por exemplo, a média de idades do público aumentou bastante e está acima dos 30 anos. Ou seja, este não é um festival de verão tradicional, associado sobretudo à juventude. Desde a primeira edição, o conforto que criámos no recinto fez com que muitas pessoas que já não iam a festivais há vários anos voltassem a fazê-lo. A nossa aposta continua a ser um cartaz coeso e equilibrado, capaz de chegar a várias gerações. Isso alarga o espectro de público. Temos pessoas de todas as idades e, provavelmente, até mais público acima dos 50 anos do que abaixo dos 20.
É um festival que, independentemente da programação, já conquistou um público muito diversificado, o que nos permite ter alguma liberdade na construção do cartaz. Naturalmente, isso não depende apenas de nós. Estamos sujeitos à disponibilidade das bandas, que varia de ano para ano. Ainda assim, conseguimos construir cartazes coerentes para públicos muito diferentes. Temos um público muito fiel, mas, ao mesmo tempo, vamos renovando gerações quando programamos artistas mais jovens e aumentando a média de idades quando recebemos artistas mais clássicos.
É nesta conjugação entre contemporaneidade e património musical que nos movemos. Também queremos mostrar que a música de outras épocas continua a ter muito valor e está na origem de muito do que se faz hoje. Por isso, os nossos cartazes acabam sempre por atrair diferentes gerações.

“Não há palcos secundários”

A concorrência entre festivais é hoje maior que nunca. O que distingue, na sua perspetiva, o Primavera Sound Porto da restante oferta em Portugal?
Por um lado, a programação é sempre muito desafiante. Consegue reunir artistas de várias gerações e, quando se olha para o conjunto, percebe-se que não é um festival tradicional. Não há palcos secundários. Todos os cinco palcos do recinto têm programação relevante e cada pessoa pode construir o seu próprio percurso, de acordo com os artistas que prefere. Mas, acima de tudo, aquilo que nos distingue ao fim de 13 edições é o conforto que proporcionamos ao público. Cuidamos de muitos pormenores, desde os serviços, às filas e à circulação das pessoas, procurando evitar constrangimentos.
As pessoas sentem-se tranquilas aqui. O parque permite sentar, descansar, conversar e desfrutar do espaço. Há zonas onde a música quase não se ouve, precisamente para proporcionar essa experiência. O recinto tem excelentes condições e esse conforto, aliado à programação, continua a ser o nosso principal cartão de visita.

Ao fim de 13 edições, considera que o Primavera Sound Porto já atingiu a maturidade ou ainda há espaço para crescer e reinventar o festival?
Acho que o festival já entrou numa fase adulta e madura. Crescer apenas por crescer nunca foi o nosso objetivo. Estamos limitados pelo espaço disponível e pela relação entre capacidade e conforto. Poderíamos facilmente receber mais 10 ou 15 mil pessoas, mas isso comprometeria a experiência que o público leva para casa. Atingimos um ponto de equilíbrio e o nosso objetivo passa por manter este padrão de conforto e de lotação. Podemos dizer que o festival entrou numa fase adulta e madura.

Os custos de produção, a contratação de artistas e a sustentabilidade tornaram-se desafios cada vez maiores. Qual é a maior dificuldade na organização de um festival desta dimensão?
Uma das maiores dificuldades é a obtenção de patrocínios. No Porto isso não é fácil. Os patrocínios representam a terceira maior fonte de receita do festival e muitas das grandes decisões de Marketing continuam muito concentradas em Lisboa. Nem sempre é fácil fazer perceber a dimensão que este festival já atingiu e a qualidade que tem. Outra dificuldade passa por encontrar empresas em Portugal capazes de responder ao nosso nível de exigência na construção das estruturas do festival. É por isso que trabalhamos há muitos anos com fornecedores muito fiéis, que fazem um trabalho de equipa extraordinário. Mas isso também limita um eventual crescimento, porque há dificuldades de mão de obra e de capacidade das próprias empresas para acompanhar uma expansão significativa.
Se quiséssemos crescer, estes seriam os dois principais obstáculos: a captação de patrocínios e a capacidade de execução das empresas.

Disse recentemente que Paredes de Coura é amor e o Primavera Sound é paixão. Mantém essa afirmação?
Mantenho. O amor é aquilo que perdura no tempo. O Paredes de Coura começou em 1993, quando iniciámos aquela aventura, e é algo que nos ficou escrito na alma. O Primavera representa uma paixão diferente. É a vontade de fazer um festival numa cidade onde agora vivemos, onde temos a nossa estrutura instalada. É um desafio novo, que continua a entusiasmar-nos e a levar-nos a fazer as coisas com o mesmo rigor e o mesmo nível de exigência, mas num contexto diferente.
Desde o início quisemos criar um festival pensado para pessoas que já não frequentavam festivais há muito tempo. Não é um festival de campismo, nem um festival típico de julho ou agosto. O objetivo sempre foi proporcionar conforto e uma experiência diferente. Acho que conseguimos fazê-lo. Por isso, continuo a dizer que a diferença entre amor e paixão traduz bem aquilo que sentimos pelos dois grandes festivais que organizamos.

Fotos: Miguel Oliveira

 

 

 

Tags
Show More

Related Articles

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Close