Entrevistas
Um crime silenciado durante décadas inspira novo romance de Maria Cláudia Rodrigues
Um crime cometido contra uma mulher no Portugal dos anos de 1970 serviu de ponto de partida para A Conta Que Deus Fez, novo romance de Maria Cláudia Rodrigues. Inspirada num caso real que acompanhou enquanto jornalista, a autora constrói uma narrativa marcada pela violência, pelo silêncio e pela ausência de justiça, tendo como pano de fundo o interior transmontano da década de 1980.
20 de maio 2026

Agência de Informação Norte – A Conta Que Deus Fez volta a partir de uma história real. O que encontrou neste caso que justificava transformá-lo em romance?
Maria Cláudia Rodrigues – É verdade. O ponto de partida deste livro é, realmente, um caso real que trabalhei enquanto jornalista. O caso que me inspirou tem, na sua base, um crime cometido contra uma mulher, no último terço do século XX. Os assuntos que mais me tocam estão relacionados com a Justiça – ou com a falta dela. Mal ‘tropecei’ naquela história tive a noção de que poderia ser transformada em romance. Por outro lado, com A Conta Que Deus Fez também quis revisitar o Portugal do interior nos anos de 1980, porque considero que a literatura dessa época é praticamente inexistente.
A morte da mãe e a separação das duas irmãs acontecem logo no início do livro. Era importante que o leitor fosse confrontado desde cedo com essa rutura?
Maria Cláudia Rodrigues – Sim, porque são esses dois acontecimentos que dão origem ao desenvolvimento da narrativa. São acontecimentos intensos e dolorosos. Mas todo o percurso da Luísa, a personagem principal, é difícil. É entregue aos avós maternos, num ambiente hostil, onde, de criança, passará a sobrevivente.
O romance acompanha a vida de Luísa num contexto de pobreza, violência e isolamento. Como construiu esta personagem?
Maria Cláudia Rodrigues – A Luísa tinha de ser uma personagem forte, resiliente e determinada. Apesar de ser uma criança, está à beira da adolescência quando a vida dela muda radicalmente. É obrigada a viver e a conviver com um casal de idosos – os avós maternos – que a trata muito mal, como se ela fosse a personificação de um pecado. O pecado da mãe de Luísa. Há no passado da mãe dela um segredo pesado que faz com que os avós lhe tenham aversão. E a Luísa luta contra essa aversão, luta contra a hostilidade, luta contra a violência, a indiferença e luta também para descobrir que segredo é esse, aparentemente tão negro e intimamente ligado ao nascimento da própria Luísa. Algumas pessoas, antes de lerem o livro, perguntaram-me se a temática subjacente é o incesto. Não é. O que está aqui em causa é um crime – o incesto, em Portugal, não é crime – cometido contra mulheres nos anos de 1970 e que, à data, ainda não era considerado nem tinha sequer um nome. Só no final do livro é que sabemos que crime é esse.
O título deste livro sugere inevitabilidade, quase uma herança de sofrimento. O que representa para si?
Maria Cláudia Rodrigues – O título tem que ver com esta família de três – uma mãe solteira e duas filhas – que, até ao momento em que a mãe morre, é uma família perfeita, apesar das dificuldades económicas e da ausência de uma figura masculina, um pai ou marido. Uma família aparentemente atípica para aquela época, mas que, na verdade, é completa.
A violência sobre as mulheres e as fragilidades das instituições atravessam toda a narrativa. Até que ponto o livro procura recuperar um retrato social de um Portugal ainda recente?
Maria Cláudia Rodrigues – Sim, é mesmo essa a intenção: retratar um Portugal que, apesar de tudo, não é assim tão distante, sobretudo ao nível das mentalidades e também num certo tipo de facilitismo. Ambos estão muito enraizados e isso é fruto, sem dúvida, dos cinquenta anos que vivemos em ditadura.
“A Espera de Fernanda é baseado numa história verídica”
A ação decorre numa aldeia remota do Norte do país. Houve a preocupação de evitar qualquer idealização do interior rural português?
Maria Cláudia Rodrigues – A minha faceta de jornalista impede-me de fazer idealizações. É uma coisa natural. Tento que as descrições sejam o mais objectivas possível. Passei muitas férias da minha infância numa aldeia do planalto transmontano. Ainda hoje, essa aldeia tem um peso emocional muito grande em mim, no mais positivo dos sentidos. Mas, nos anos de 1980, não era fácil estar ali, muito menos para uma adolescente. Não havia saneamento básico, electricidade e já se viam muitas casas fechadas porque as pessoas iam morrendo e ninguém as ocupava. Ia-se à cidade, a cerca de vinte quilómetros de distância, fazer compras. Ou a Espanha. E muitos não tinham carro e o autocarro só passava uma vez por dia. Muitos garotos faziam a quarta classe e depois passavam a trabalhar com os pais nos campos, como se fossem adultos e como se esse fosse o destino mais natural do mundo. Não há como idealizar a ausência, o esquecimento ou a carência. Por outro lado, todas estas dificuldades contrastam com o que de melhor há na simplicidade: uma paisagem rica, em certas zonas exuberante; a erudição dos velhos; a mestria; uma bondade intrínseca; saberes ancestrais; o alcançar de enormes virtudes por via da necessidade. Esta é a aldeia de A Conta Que Deus Fez, a mesma onde os meus avós nasceram, os pais deles e o meu próprio pai.
O segredo familiar funciona como motor da narrativa. Como trabalhou o equilíbrio entre revelação e contenção ao longo do romance?
Maria Cláudia Rodrigues – Sou uma apaixonada pela Narratologia, enquanto ciência que estuda as variadíssimas formas de contar histórias. Há técnicas e recursos que estão à nossa disposição para usarmos nesse sentido: guardar ‘o melhor’ para o fim. Uma delas é subverter a cronologia de uma história, recorrendo a recuos e avanços, deixando pontas soltas e, assim, aumentar ‘o apetite’ do leitor. Todos, enquanto consumidores de informação, procuramos ser surpreendidos, tocados, emocionados. A Narratologia ensina-nos essas ‘fórmulas’. Às vezes aplicamo-las com sucesso, outras nem tanto. Mas errar e aprimorar faz parte do processo.
As personagens femininas do livro surgem marcadas pela resistência, mas também pelo silêncio. Considera que esse silêncio ainda persiste na sociedade portuguesa?
Maria Cláudia Rodrigues – Sim. Essa, sim, é uma herança dos tempos negros que vivemos nesse passado recente e que está, de certo modo, cristalizada.
Houve momentos particularmente difíceis de escrever neste romance? Que reações tem recebido dos leitores desde a publicação do livro?
Maria Cláudia Rodrigues – A determinada altura foi-me quase impossível descolar a personagem principal de mim própria. Ela sofria e eu sofri muito com ela [risos]. As reacções dos leitores têm sido muito positivas. O livro é tido como duro, mas emotivo, e há também muitas reacções de alívio na fase final da narrativa.

Depois de A Espera de Fernanda, volta a centrar-se numa história atravessada pela violência e pela perda. Há uma linha comum entre os dois romances?
Maria Cláudia Rodrigues – A Espera de Fernanda é baseado numa história verídica. As personagens são reais e a documentação que surge ao longo do livro também é verdadeira. Em A Conta Que Deus Fez inspiro-me num caso real para o arranque da história e, depois, tudo o resto é fruto da imaginação. Mas sim: ambos abordam a Justiça – ou a ausência dela – e ambos retratam uma busca, uma procura, uma necessidade.
O jornalismo influencia a forma como observa as pessoas e constrói as personagens das obras?
Maria Cláudia Rodrigues – Não tenho dúvidas de que o facto de ser jornalista influencia muito a minha escrita. Quer nas temáticas abordadas, quer, consequentemente, na construção das personagens. Em ambos os livros, a focalização está na vítima. Mas não se tratam de vítimas marcadas pela autocomiseração. São vítimas, sim, mas resilientes e lutadoras. E há sempre esperança. Sempre. Na minha vida profissional, enquanto jornalista, dou voz às vítimas com o intuito de as ajudar a alcançar justiça.
“Para se escrever, é preciso ler. Ler sem preconceito”
Até que ponto a experiência em televisão e reportagem alterou a sua relação com a escrita de ficção?
Maria Cláudia Rodrigues – Em ambos os livros que escrevi há um ponto de partida real. E isso advém, sem dúvida, da minha actividade enquanto jornalista. A matéria-prima do meu trabalho são as histórias reais e não consigo, enquanto autora, desligar-me dos casos que trato no meu quotidiano jornalístico. A televisão tem algum peso: a comunicação audiovisual deve ser fluída, seca, rápida. Penso que ambos os livros que escrevi reproduzem, de algum modo, essa fórmula que se aplica à comunicação audiovisual: parágrafos e capítulos curtos, visuais, descritivos, mas limpos. Essa forma de escrever tornou-se um hábito, fruto de um treino de muitos anos de actividade.
Referiu que a leitura de Adeus, Princesa, de Clara Pinto Correia, despertou em si a vontade de escrever. Que importância teve a literatura no seu percurso? Já está a trabalhar num novo projecto literário?
Maria Cláudia Rodrigues – Penso que, para se escrever, é preciso ler. Ler sem preconceito. Ler os autores de que mais gostamos, mas ter a capacidade de descobrir outros. A diversidade ajuda-nos a aprimorar um estilo. Os livros estiveram sempre presentes na minha vida e agradeço muito aos meus pais por me terem incutido esse gosto. Havia alturas, na década de oitenta – a década da minha infância e do início da minha adolescência – em que o dinheiro não abundava, mas, mesmo assim, os livros nunca deixaram de entrar lá em casa. Adeus, Princesa foi um deles. E foi o primeiro livro de “adulto” que li. Teria uns dez ou onze anos. Pouco depois, li uma entrevista de Clara Pinto Correia num jornal – o meu pai comprava, pelo menos, um jornal todos os dias – onde ela contava o que a escrita representava para ela. E eu, não sei bem porquê, identifiquei-me. E nunca mais deixei de pensar na possibilidade de um dia escrever um romance. E aconteceu muito tempo depois, aos quarenta e seis anos.

Escrever é, para si, um ato de coragem, de libertação ou de tentativa de compreensão?
Maria Cláudia Rodrigues – Escrever é uma forma de interpretar o mundo, uma tentativa de lhe dar sentido.
Até que ponto é possível separar completamente a escritora da mulher que observa e vive estas histórias?
Maria Cláudia Rodrigues – É indissociável. A autora e a jornalista vivem mergulhadas na realidade. Um romance, por mais ficcionado que seja, é sempre o espelho da realidade, do mundo. Uma projecção.
Fotos: DR



