Entrevistas
José Manuel Monteiro: “O Por Perto nunca foi sobre temas. Foi sobre pessoas”
Mesmo num contexto de reorientação estratégica do Porto Canal, o "Por Perto" mantém a identidade assente em histórias de vida e percursos pessoais. José Manuel Monteiro assegura que o formato se adapta a novas áreas, incluindo o desporto, sem abdicar do foco humano que o distingue. “O programa nunca foi sobre temas. Foi sobre pessoas. E haverá sempre pessoas para contar”, afirma, defendendo que também no universo desportivo “a melhor história do jogo começa anos antes do apito inicial”.
19 de fevereiro 2026
Agência de Informação Norte – Entra diariamente nas casas dos espectadores com histórias de pessoas, tradições e comunidades. Que responsabilidade sente ao dar visibilidade a realidades que raramente chegam ao espaço mediático nacional?
José Manuel Monteiro – Sinto que não é apenas um trabalho. É quase uma missão. Há muita gente que passou a vida inteira sem nunca ter sido escutada. Quando a câmara liga, não liga só para gravar. Liga para reconhecer. E, na grande maioria das vezes, o que aquelas pessoas procuram não é fama, é dignidade. Saber que alguém achou que a sua vida merecia tempo de antena.
Num contexto mediático cada vez mais centralizado, que papel pode o jornalismo de proximidade desempenhar?
Pode lembrar-nos que o país não é um mapa, mas uma coleção de vidas. A proximidade não é apenas geográfica, é emocional. Quando contamos uma história local, ela deixa de ser local. Torna-se humana.
Continuam a existir comunidades e histórias afastadas da atenção dos grandes meios de comunicação?
Muitas. E não são marginais, são fundamentais. Há um país que não faz barulho e, por isso, não aparece. Mas é esse país que guarda a memória, os ofícios, os valores. O silêncio não é ausência de histórias, é falta de quem escute.
Até que ponto é relevante haver meios como o Porto Canal que funcionam como espaço de voz para as comunidades locais?
É essencial. Um canal regional não é menor. É mais próximo. E, quando alguém se vê representado na televisão, percebe que também faz parte do retrato coletivo. A televisão pode aproximar mais do que qualquer discurso político.
O “Por Perto” cruza informação e entretenimento. Como se constrói esse equilíbrio sem comprometer o rigor jornalístico?
Eu não separo emoção de rigor. A emoção nasce do real. Não inventamos histórias, apenas lhes damos tempo. O entretenimento, para mim, é tornar a verdade interessante sem a trair.
Num panorama marcado pela rapidez e pela fragmentação da informação, ainda há espaço para contar histórias com tempo e profundidade?
Há, e talvez seja precisamente isso que falta. As pessoas continuam a querer ouvir histórias, só já não querem ruído. Quando lhes damos tempo, elas dão-nos atenção. A profundidade tornou-se um valor diferenciador.
A aposta na cultura popular e nas identidades locais é uma das marcas do programa. Este trabalho contribui também para preservar memória coletiva?
Muito. Muitas vezes percebo que estamos a gravar coisas que talvez desapareçam daqui a poucos anos. Festas, saberes, formas de falar… A televisão, nesses momentos, não é só presente. É memória futura.
Tem manifestado um apreço particular por histórias de vida. O que encontra nesses testemunhos que continua a motivá-lo enquanto jornalista?
Humildade. Quanto mais pessoas conheço, menos certezas tenho. Há histórias de sofrimento contadas com serenidade que nos colocam no lugar certo. E isso faz bem a quem vê e a quem entrevista.
“O programa nunca foi sobre temas. Foi sobre pessoas”
O destaque dado a artistas emergentes revela uma preocupação com a renovação cultural. Que importância tem essa aposta?
Todos nós começámos porque alguém acreditou primeiro. Dar espaço a quem está a começar é devolver o que um dia recebemos, mesmo que indiretamente.
Foi anunciada uma nova orientação estratégica para o Porto Canal, com maior enfoque no desporto. Como perspetiva esta mudança?
O desporto é emoção pura, mas o que mais me interessa são as pessoas por trás do resultado. Um atleta é também uma história de disciplina, família e sonho. É isso que me atrai.
O Por Perto pode adaptar-se a essa nova fase do canal?
O programa nunca foi sobre temas. Foi sobre pessoas. E haverá sempre pessoas para contar.
O desporto é também feito de percursos pessoais, rotinas e identidades. Esse lado mais humano pode vir a ganhar espaço no programa?
Acredito muito nisso. Às vezes, a melhor história do jogo começa anos antes do apito inicial.
“A rádio ensinou-me a escutar antes de falar”
A passagem da rádio para a televisão aconteceu de forma natural. O que mudou na sua forma de comunicar com a introdução da imagem?
Passei a falar também com o silêncio. Na rádio imaginamos. Na televisão confirmamos. A palavra continua central, mas o olhar ganhou peso.
A televisão trouxe uma exposição pública diferente. Isso alterou também o seu sentido de responsabilidade enquanto jornalista?
Sim. Quando alguém confia em nós para contar a sua vida, essa confiança pesa. E deve pesar. A exposição nunca pode banalizar a intimidade.
O direto exige capacidade de adaptação e rapidez de resposta. Como se prepara para lidar com o imprevisto?
Preparando-me para ouvir. O imprevisto raramente é um problema. Normalmente é onde nasce o melhor momento televisivo. Quanto mais estudo o contexto, mais liberdade tenho para improvisar. O direto não é ausência de preparação. É preparação invisível.
Regressou recentemente à rádio, um meio ao qual sempre esteve ligado. O que representa este voltar nesta fase do seu percurso?
É voltar a casa. A rádio ensinou-me a escutar antes de falar. Voltar agora é lembrar-me porque comecei.
Depois da experiência acumulada na rádio e na televisão, que desafios gostaria ainda de assumir enquanto jornalista e comunicador?
Continuar curioso. No dia em que achar que já percebi as pessoas, deixo de fazer isto bem. O meu objetivo é simples. Continuar a emocionar-me para poder continuar a contar. Mais do que formatos, procuro projetos onde faça sentido ouvir pessoas e compreender realidades. O maior desafio é não perder a capacidade de olhar para cada história como se fosse a primeira.




Um programa que chega onde outros meios não chegam e dá visibilidade a quem vive longe dos grandes centros. A imprensa de proximidade garante que todas as pessoas têm um espaço onde podem ser ouvidas e reconhecidas. O por perto deve continuar. O Porto Canal não deve mudar.
O José Monteiro é um grande profissional e o Porto Canal deve estar orgulhoso disso. É através destes programas que muitas comunidades conseguem mostrar a sua realidade ao resto do país. Sem estes espaços de proximidade, muitas preocupações e conquistas ficariam no silêncio. Estes programas aproximam a informação das pessoas e as pessoas da informação. Dão vida e permitem a realização de sonhos.
São uma ponte essencial entre as comunidades e o espaço público. Parabéns pela reportagem. É também uma forma de dar voz a quem nem sempre tem a oportunidade de a mostrar.
Acabar com o Porto Canal generalista será um erro grave. A televisão necessita de programas destes que mostram o que realmente acontece no terreno, com verdade e proximidade. Dão voz a quem raramente tem oportunidade de falar nos grandes meios nacionais. Valorizam o território, as pessoas e as suas histórias, com respeito e rigor. São um reflexo fiel da vida das comunidades e das suas realidades. Vejo sempre o programa. Sinto-me perto do Porto e da região. Posso mesmo dizer que o programa já me ensinou várias coisas. Coisas simples que eu desconhecia.
Elvira Castro
Braga
Que entrevista interessante. Que realidade por vezes desconhecida. Ufa! Concordo com os comentários anteriores. Estes programas são essenciais para garantir que nenhuma comunidade fique esquecida. Tornam visível aquilo que muitas vezes permanece invisível. Dão espaço às pessoas comuns e às suas histórias extraordinárias. Acompanham de perto a vida das populações e as suas preocupações. São uma presença constante junto de quem mais precisa de ser ouvido. Mostram que todas as comunidades têm valor e merecem ser representadas. Não desistam. Grande apresentador. Tem muito à-vontade.
Um programa importante para a televisão.e concordo que mesmo no desporto tem pernas para andar.
Brilhante!