Entrevistas
Rosa Alice Branco: “Nós precisamos de mapas para nos perdermos. Também, para nos acharmos, de vez em quando…”
Rosa Alice Branco é filha do mar e das ondas de Aveiro. Nasceu em 1950. Filha de um artista, amante de cinema, e “menina invisível” nas noites de cultura, da sua casa, onde se reuniam os intelectos contra o regime da época. A escritora tem, hoje, 14 livros de poesia publicados em Portugal, incluindo a sua obra poética reunida Soletrar o Dia (2002). Vencedora de vários prémios e reconhecida internacionalmente, a autora tem a sua poesia publicada em inúmeros países. Lança, agora, Mapa dos amores Incompletos, um livro que reúne a sua obra, e nos faz sentir o mergulho nos traços, na vida e na obra de uma mulher sensível às cores, ao ser humano, à lealdade e à solidariedade. Para Rosa Alice Branco O Porto é uma cidade com uma personalidade espantosa e A. M Pires Cabral, o poeta transmontano, um dos seus poetas favoritos.
12 de fevereiro 2026

Agência de Informação Norte – Cícero disse uma vez, uma casa sem livros é como um corpo sem alma. Alice sem poesia poderia não ter conseguido mostrar-nos a sua alma… Concorda?
Rosa Alice Branco – Tenho cerca de 8.500 livros. Todas as vezes que mudei de casa, foi por causa dos livros. Porque as tantas já estavam espalhados pelo chão e não era possível caminhar direito.
Mas normalmente um escritor foi antes um grande leitor. Eu comecei a ler quando tinha quatro anos de idade e imediatamente, logo a seguir, aos cinco anos já estava a ler também francês. Tive uma infeção, uma tuberculose, e aos oito já tinha lido todos os livros para crianças. E aí começou logo a literatura para adultos. Fui compulsiva em muitas coisas. Mas sobretudo na leitura. E, depois o meu pai tinha uma grande biblioteca. Tinha e ainda tem na nossa casa de família. Neste momento é uma casa das artes. Também vocacionada para a literatura. O meu pai deixava-me ler tudo, menos alguns livros de Eça de Queiroz. E eu percebo, acho que ele me conhecia muito bem.
A paixão pelo cinema vem do seu pai e nasceu em Aveiro, tal como a Rosa Alice Branco. E, de repente, a menina que lia muito e que tem uma casa aberta para a cultura, durante uma Ditadura, vê, ouve e abarca conhecimentos que não seriam comuns para as crianças. Como era a vida da “Menina Invisível”?Não gostava de viver em Aveiro nessa altura. Aveiro era muito aborrecido para as raparigas. Saía com o meu pai quando ele ia filmar, sobretudo porque ele filmava muito o trabalho das rias, das salinas, dos marnotos. E essa parte sempre adorei. Mas não a outra parte que eu chamo a parte das avenidas. E praticamente só tinha uma grande amiga da minha idade. Isto, porque não liam ou quando liam era só para ler “politicamente”. Portanto, eu dava-me muito mais com os adultos, que eram os amigos dos meus pais. E, outros adultos que faziam teatro e faziam-se coisas muito interessantes, e um bocado inovadoras nessa altura.
Normalmente, ficava em casa, até porque lá, na sala de cinema, que é igual aos outros estúdios, iam muitos dos amigos do meu pai. Sobretudo, aquilo era a sede noturna. Era a sede da oposição ao regime de Salazar. Não era o meu pai que liderava, era o Mário Sacramento. O meu pai era um artista. A casa estava menos vigiada, porque achavam que ele devia ser um lunático. Por isso recebíamos os poetas aqui do Porto, de Coimbra e outros.
Eu fazia de miúda invisível. Tanto não me notavam como estavam habituadas à minha presença. E sentia-me muito melhor em casa, até porque havia um grande desequilíbrio social. E o que acontecia é que as minhas amigas mais pobres eram muito maltratadas. E isso gerou em mim um sentimento que eu não queria viver naquele espaço.
Matemática era outra das suas paixões… para além da leitura e do cinema.
Eu sei que foi uma vida um bocadinho atípica para uma criança. Então eu fazia em casa problemas de matemática. Uma paixão única e verdadeiramente especial.
E como é que a Rosa de hoje olha para a Rosa desses tempos? E para as mulheres desses tempos?
A minha paixão por cinema, por exemplo, nunca me abandonou, obviamente. Por isso é que às vezes eu lembro de ter um dos críticos que escreveu sobre mim, disse que eu tinha livros muito fotográficos. Eu disse, repara, as melhores são mais cinematográficas.
Mapa dos Amores Incompletos. Porquê este nome para o livro?
Isto tem a ver com o epígrafo que está no livro de uma escritora que eu adoro, que é Marguerite Duras Em determinada altura, no India Song, ela diz… Ela pergunta “por um caminho para se perder. E ninguém sabe”. E comecei a pensar na questão dos mapas. Eu pensava sempre… Eu acho que nós precisamos de mapas para nos perdermos. Também para nos acharmos, de vez em quando… Isto quer dizer que um mapa é, no fundo, um processo de exploração. Nós temos aí um pretexto enorme para explorar. É a exploração da nossa vida. Como se de veias e artérias, se tratasse. Temos um mapa do nosso corpo que está desenhado de muitas maneiras. A partir de um vaso maior, abrem-se outras vasos. O que eu queria, neste mapa, era que pudesse abrir… e que abrisse algo novo em mim.
Então, aí, o livro termina-se por ele próprio. O mapa, a ideia de abrir, nessas autoestradas principais, novos caminhos, veredas, estradas pequenas de terra batida. Irmos conseguindo desenhar tudo aquilo que sabemos e tudo aquilo que não sabemos.
Portanto, aqui também há uma proposta para que as pessoas não fiquem nas suas vidas quietas e sempre as mesmas. Mas que, por um lado, explorem toda a vida. Portanto, todo o amor. No sentido de torná-lo cada vez mais incompleto.
Rosa, neste livro, se nós pudéssemos escolher cores para o pintar por dentro, que cores é que nós poderíamos colocar? Para além do vermelho da capa, do preto e do branco.
Vermelho, branco e preto é o registo arquetípico, o registo simbólico primitivo, em todas as sociedades tribais foram as primeiras cores a serem usadas. O branco como dia, como cosmos, como ordenação. Já o preto como trevas e o vermelho significa a vida que nos corre nas veias, o sangue. Porque, antigamente, não havia uma oposição entre a vida e a morte. Havia um ciclo de vida, onde fazia sentido a morte e a vida.
Porque este livro também vai às minhas origens e desencadeia depois o que teve que desencadear por aí fora. E, portanto, no fundo também há em mim qualquer coisa de uma mulher tribal, possivelmente. E, nesse sentido, eu queria que o livro tivesse estas cores.
“O Porto é uma cidade com uma personalidade espantosa”
Como é que está a nossa sociedade aos olhos da Rosa Alice Branco?
Nós somos solidários e isso é o que permite tudo, tudo aquilo que é possível à humanidade. E também há um filósofo, que é também, um grande cientista, e que escreve do ponto de vista da filosofia, que é o Francisco Varela, que apelava “a que a relação entre as pessoas volte a ser encantamento”. Partindo daí, deve imaginar que esteja um pouco desencantada em relação a esta ideia, mas eu sei que esta ideia é uma utopia. Agora, eu acho que nós devemos sempre desejar utopias para ficarmos mais próximos dela. Para as realizarmos a maior parte das vezes. Mas as utopias positivas acho que nos ajudam imenso a seguir um caminho, ou até vários caminhos.
Mas, no fundo, vai tudo dar, se quisermos, à solidariedade ou ao contrário. Ora, o que acontece é que vimos ultimamente a solidariedade, quando houve uma grande ameaça, que foi a Covid. E, nesse momento, as pessoas olhavam para as varandas, cantavam, achavam que iam ficar diferentes a seguir. Porquê? Porque eu acho que nós só somos, de facto, solidários quando somos vítimas da mesma ameaça.
Portanto, quando há uma ameaça que paira sobre nós para sobrevivermos, e nós temos um grande instinto de sobrevivência, temos que nos unir. Acho que também foi muito o que aconteceu agora nas eleições. Havia uma grande ameaça à democracia, e o povo português respondeu unindo-se.
Tempos difíceis, trazem novas vozes, novos desafios. Concorda?
Eu estou a escrever, estou a traduzir uma antologia, pois há novas vozes em Gaza a fazer poesia neste momento, no meio dos escombros e eu quero contribuir para este grito de revolta. Porque nós nem sequer temos o respeito pela identidade de um povo, pelos seus territórios, como antes… Já não tínhamos, neste tempo em que vivemos, aparentemente, da calma, já não tínhamos respeito sequer por aquilo que faz a identidade de um povo também, que é a sua língua, não é só o seu território.
Mas, portanto, como vê, eu acho que neste momento há um caos, há um caos, uma entropia que se está a desenhar em termos mundiais.
O Porto é uma cidade de encantos. Foi lá que estudou… mas há lugares que se entranham.
O Porto é uma cidade com uma personalidade espantosa. Em todos recantos é preciso descobrir.
Sem dúvida. O piolho era o meu lugar mais libertador. Passávamos horas a partilhar ideias e a discutir assuntos. O sitio onde eu gosto de chegar.
A cidade do Porto tem uma magia única, é onde o rio e o mar se encontram no interior . E vivi uma segunda infância. Inesquecível. Depois atinei no curso de filosofia, que me apaixonou.
Que referências tem do Douro?
O Douro é das zonas mais lindas que eu já vi. Organizei com o meu marido, uma viagem para 42 pessoas, muitas delas espanholas. Um rio que muda de cor, ao longo do percurso.
Que tem nomes como Miguel Torga que me levou a uma das melhores imersões literárias, “os bichos”, um conto muito pedagógico, que nos faz colocar no lugar do outro. Um grande poeta. Um grande contista.
Mas para mencionar outro nome, posso falar do A.M. Pires Cabral que é um dos meus poetas favoritos. É maravilhoso ver a paisagem dos sentires que o rodeiam. É dos grandes poetas Portugueses.
Por: Andreia Carneiro
Foto: DR



