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Imaginarius terminou com gelo suspenso e performances corporais
Na edição em que comemora 25 anos, o Imaginarius - Festival de Artes Performativas em Espaço Público assume-se como um espaço de resistência, que não procura conforto ou consenso, mas antes como território de pensamento, de questionamento e de criação.
23 de maio 2026

A crise climática e a exposição do corpo no espaço público marcaram o último dia do evento, que é uma das marcas culturais de Santa Maria da Feira, com um bloco de gelo suspenso a 40 metros de altura e uma intervenção artística que questionou as normas associadas ao corpo feminino.
O presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Amadeu Albergaria, faz um balanço positivo da 25.ª edição do Imaginarius, apontando a forte adesão do público e a qualidade da programação artística como sinais da relevância do festival para a dinâmica cultural e económica do concelho.
Segundo o autarca, Santa Maria da Feira voltou a encher-se de visitantes de diferentes faixas etárias ao longo do evento, num ambiente marcado pela presença de propostas artísticas diversificadas e de grande impacto visual.
Amadeu Albergaria defende ainda que o Imaginarius “é uma marca cultural nossa e é inseparável de Santa Maria da Feira”. O responsável municipal considera que o festival cresceu em paralelo com a cidade e contribuiu para consolidar “uma forma muito própria de viver a Cultura, nas ruas e praças, junto das pessoas”, mantendo a capacidade de surpreender quem visita o concelho.
Para o último dia da edição deste ano, o presidente da autarquia perspetiva uma forte participação do público, destacando a continuidade de uma programação com “espetáculos de grande impacto visual e artístico”. “A expectativa é que o público continue a viver intensamente esta edição até ao último momento”, refere.
Entre as propostas que mais atenção atraíram esteve Thaw, uma criação centrada na emergência climática. Durante oito horas consecutivas, três performers utilizaram, de forma alternada, um bloco de gelo com cerca de 2,5 toneladas suspenso por uma grua a 40 metros de altura, enquanto a estrutura se desfazia lentamente perante o público.
A instalação partiu de um contentor onde, ao longo de 20 dias, a água foi transformada em matéria sólida. A própria descrição da obra estabelecia o contraste entre o gelo preservado artificialmente e a perda acelerada das massas glaciares no planeta. “Enquanto este gelo ganha consistência dentro de um espaço controlado, lá fora o gelo do mundo perde-se, a um ritmo que já não conseguimos acompanhar”, podia ler-se numa das faces da estrutura.
Ao longo da intervenção houve momentos realizados a dezenas de metros de altura e outros junto ao público, na zona da escadaria da Igreja Matriz. A direção artística do festival descreveu a criação como “uma imagem poderosa do presente que habitamos”, sublinhando a necessidade de “responsabilidade coletiva” perante a emergência climática.
Também este sábado, ao final da tarde, o coletivo brasileiro Desvio Coletivo regressou ao Imaginarius com MAMIL(a)S, uma performance de intervenção social centrada no corpo feminino e na ocupação do espaço urbano.
Ao longo do percurso pelo centro histórico, cerca de 30 participantes caminharam integralmente cobertos por tecidos que anulavam marcas de género, deixando apenas os mamilos expostos. A criação procurou confrontar a leitura desigual do corpo em espaço público, questionando normas sociais associadas à exposição do corpo feminino.
Nove anos depois da apresentação de CEGOS no festival, o coletivo voltou a Santa Maria da Feira com uma nova intervenção de caráter político e participativo, envolvendo pessoas com e sem experiência artística.
A edição deste ano do Imaginarius decorreu desde quinta-feira e reuniu 200 artistas de 42 companhias oriundas de 16 países. Ao longo de três dias realizaram-se 125 apresentações de teatro, dança, música, circo, performance e artes digitais espalhadas pelo centro histórico da cidade, numa edição que voltou a trazer milhares de pessoas a Santa Maria da Feira.



