Entrevistas

Bombeiros de Esmoriz põem à prova resposta a catástrofes

Uma catástrofe natural pode, em poucos minutos, colocar à prova todo um sistema de socorro. Em Esmoriz, cidade do distrito de Aveiro marcada pela proximidade ao mar, os bombeiros querem antecipar cenários extremos e testar a capacidade de resposta no terreno. O ALERTA 95 junta formação e exercício operacional, numa iniciativa dos Bombeiros Voluntários de Esmoriz que decorre no dia 10 de outubro. O comandante da corporação, Jacinto Reis Oliveira, explica o que está em causa.

Agência de Informação Norte – O que levou os Bombeiros de Esmoriz a promover um seminário especificamente dedicado às catástrofes naturais?
Jacinto Reis Oliveira – Mais do que um acontecimento isolado, foi a própria evolução do risco que nos levou a considerar este tema prioritário. As catástrofes naturais caracterizam-se precisamente pela dificuldade em prever a dimensão e a velocidade com que uma situação aparentemente controlável pode evoluir. A experiência mostra-nos que a preparação não pode começar quando o alerta toca.

O próprio Barrinha Rescue tem seguido uma lógica de preparação para ocorrências cada vez mais complexas. Em 2022, trabalharam-se técnicas de elevação e estabilização, bem como cenários multivítimas. Em 2023, incêndio e resgate em aeronaves. Em 2024, acidentes ferroviários e, em 2025, busca e resgate em estruturas colapsadas. A edição de 2026 acaba por alargar essa preparação a uma realidade transversal, com situações de catástrofe natural capazes de provocar simultaneamente inundações, colapsos, vítimas, cortes de acessos e uma pressão muito elevada sobre todo o sistema de socorro.

Há também uma realidade muito concreta, tanto internacionalmente como à nossa porta. Em junho de 2026, a Venezuela foi atingida por dois fortes sismos, que provocaram milhares de vítimas, destruição de edifícios e graves danos em infraestruturas, demonstrando como um fenómeno de poucos segundos pode colocar todo um sistema de emergência sob enorme pressão.

Mais recentemente, em agosto de 2026, o Nepal enfrentou uma enxurrada catastrófica associada ao colapso de um glaciar, que arrastou povoações, pontes e outras infraestruturas e provocou centenas de mortos e milhares de desaparecidos, obrigando a uma operação de busca e salvamento de enorme dimensão e complexidade.

Temos também exemplos bem mais próximos. Em novembro de 2025, a depressão Cláudia provocou 45 ocorrências que exigiram a intervenção dos Bombeiros de Esmoriz, sobretudo relacionadas com precipitação intensa e inundações. Em fevereiro de 2026, o Município de Ovar ativou mesmo o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil perante previsões de chuva intensa, vento forte e risco acrescido de inundações.

Tudo isto demonstra que não estamos a falar apenas de cenários teóricos, mas de acontecimentos reais que podem surgir de forma súbita e exigir uma resposta rápida, coordenada e preparada.

O ALERTA 95 nasce, portanto, dessa necessidade de nos prepararmos para aquilo que não conseguimos evitar e cuja dimensão não conseguimos antecipar totalmente.

Esmoriz vive junto ao mar e conhece de perto a vulnerabilidade da faixa costeira. Essa proximidade aumenta a responsabilidade e a necessidade de preparação dos bombeiros?
Sem dúvida. Para nós, o mar não é um risco abstrato. Faz parte do território em que trabalhamos diariamente e obriga-nos a conhecer as suas características, os acessos, as zonas mais expostas e as populações que podem ficar vulneráveis numa situação extrema.

O concelho de Ovar tem cerca de 17 quilómetros de costa e o próprio Município reconhece que o troço entre Esmoriz e o Torrão do Lameiro está entre os setores costeiros mais dinâmicos de Portugal, apresentando graves problemas de erosão, recuo da linha de costa e episódios recorrentes de danos em infraestruturas provocados pela ação do mar. O Município refere mesmo Ovar como o concelho do Norte mais afetado pela erosão costeira.

A proximidade ao oceano obriga-nos a estar preparados para situações de forte agitação marítima, galgamentos e inundações costeiras, mas também para operações de salvamento aquático. Essa relação com o mar está historicamente presente na própria corporação. Os Bombeiros de Esmoriz mantêm uma estrutura dedicada ao salvamento aquático e têm continuado a investir na formação dos seus operacionais, incluindo formação específica para operar motos de água.

Por isso, viver junto ao mar aumenta efetivamente a responsabilidade. Quem conhece o risco de perto tem também a obrigação de o estudar, treinar e antecipar.

Quais são os cenários de catástrofe natural que mais preocupam os Bombeiros de Esmoriz, tendo em conta as características deste território?
Pelas características de Esmoriz e do norte do concelho de Ovar, há vários cenários que merecem especial atenção. Em primeiro lugar, estão os fenómenos associados a precipitação extrema e inundações rápidas. Já tivemos situações reais em que a acumulação de chuva provocou alagamentos de vias, habitações e zonas tradicionalmente vulneráveis. Durante a depressão Cláudia, em novembro de 2025, registaram-se dezenas de ocorrências. Houve também transbordo do rio Lambo, zonas da praia e da estação inundadas e vários eixos rodoviários condicionados.

Depois, temos naturalmente os fenómenos costeiros, como a forte agitação marítima, a erosão, o galgamento e a inundação costeira. O risco está oficialmente reconhecido nos instrumentos de ordenamento e proteção costeira e existem investimentos previstos especificamente para reforçar a proteção na Praia Velha dos Pescadores de Esmoriz.

“Temos uma capacidade sólida para assegurar uma primeira intervenção”

Mas os riscos para este território não se limitam às inundações e aos fenómenos costeiros?
Não. Temos também as tempestades acompanhadas de vento forte, com queda de árvores e estruturas, interrupção de vias e danos em edifícios e redes essenciais. São ocorrências que muitas vezes surgem ao mesmo tempo que as inundações e multiplicam o número de pedidos de socorro.

Há também de considerar o incêndio rural e florestal, sobretudo nos períodos de temperaturas elevadas, baixa humidade e vento. Em 2026, houve inclusivamente avisos específicos de perigo de incêndio para a população de Esmoriz, e a corporação está a reforçar a capacidade nesta área através da aquisição de um novo veículo florestal de combate a incêndios.

Por último, apesar de apresentarem uma probabilidade de ocorrência diferente, não podemos excluir os sismos e os consequentes colapsos estruturais. São ocorrências menos frequentes, mas potencialmente catastróficas, porque podem gerar simultaneamente edifícios colapsados, vítimas encarceradas, falhas de comunicações, acessos interrompidos e múltiplos focos de emergência. Foi precisamente essa vertente de busca e resgate em estruturas colapsadas que esteve no centro do Barrinha Rescue de 2025.

Se acontecesse hoje uma situação extrema, os Bombeiros de Esmoriz têm meios humanos, técnicos e formação suficientes para dar uma primeira resposta?
Temos uma capacidade sólida para assegurar uma primeira intervenção. No entanto, numa verdadeira catástrofe, nenhuma corporação deve considerar que consegue responder isoladamente a todas as necessidades.

Há indicadores objetivos do nível de preparação existente. Em novembro de 2025, a 02homologou os Bombeiros de Esmoriz como Corpo de Bombeiros Tipo 1, o nível operacional mais elevado do sistema, passando a corporação a dispor de cinco secções operacionais. Essa classificação resultou, segundo a própria corporação, do investimento continuado em formação especializada, equipamentos e reforço de meios humanos.

Há ainda especialização em áreas diretamente relacionadas com os riscos locais, nomeadamente salvamento aquático, busca e salvamento em estruturas colapsadas e combate a incêndios, além de um histórico permanente de exercícios e formação. A corporação dispõe igualmente de uma frota diversificada para incêndio, socorro, assistência técnica, comando e logística.

Uma catástrofe pode ultrapassar os meios disponíveis

 Mas, perante uma catástrofe de grande dimensão, até onde vai essa capacidade de resposta?
Há uma diferença importante entre primeira resposta e resposta integral a uma catástrofe. Uma ocorrência extrema pode ultrapassar, em minutos, os recursos de qualquer corpo de bombeiros. Pode haver dezenas ou centenas de vítimas, várias ocorrências simultâneas, estradas bloqueadas, falhas de energia ou comunicações e operacionais também afetados pela própria catástrofe.

Temos capacidade e preparação para iniciar rapidamente a resposta, fazer a primeira avaliação, salvar vidas e organizar o teatro de operações. A partir daí, a dimensão do acontecimento determinará a necessidade de reforços municipais, sub-regionais, regionais ou nacionais.

Também é importante referir que os dados públicos não permitem saber quantos operacionais e viaturas estão efetivamente disponíveis num determinado minuto. Essa prontidão varia consoante as escalas, as indisponibilidades e os meios já empenhados noutras ocorrências.

O exercício operacional vai levar a formação para o terreno. O que vai ser testado e até que ponto este tipo de simulação permite perceber onde estão as fragilidades?

A informação divulgada até agora confirma que o exercício decorrerá a partir das 15h00, nas futuras instalações da Academia dos Bombeiros, e que pretende colocar em prática procedimentos e conhecimentos relacionados com a resposta a situações de emergência. O cenário concreto e todas as valências que serão avaliadas ainda não foram divulgados publicamente, pelo que não seria correto antecipar detalhes como se já estivessem confirmados.
Num exercício desta natureza, o mais importante não é apenas verificar se um bombeiro conhece uma determinada técnica. É perceber se todo o sistema funciona sob pressão. Isso implica avaliar o alerta e o reconhecimento inicial, o comando da operação, as comunicações, a definição de prioridades, o salvamento de vítimas, a triagem, a segurança dos operacionais, a logística, o pedido de reforços e a articulação entre equipas.

São precisamente as simulações que permitem encontrar fragilidades que uma formação em sala dificilmente revela. Um procedimento pode parecer perfeito no papel e depois verificar-se que uma comunicação demora demasiado tempo, que duas equipas utilizam metodologias diferentes, que um acesso não permite a passagem de determinada viatura ou que a informação não chega com rapidez suficiente ao comando.

Os Bombeiros de Esmoriz já seguem essa lógica noutros exercícios. No simulacro municipal de 2021, foram expressamente testadas a mobilização, a prontidão, as comunicações, a transmissão de dados e a articulação entre corpos de bombeiros, procurando identificar falhas e constrangimentos.

Portanto, o erro num exercício não é um fracasso. É informação. É muito melhor descobrir uma fragilidade numa simulação, onde podemos parar, analisar e corrigir, do que encontrá-la pela primeira vez numa catástrofe real.

Uma catástrofe pode obrigar à intervenção simultânea de várias forças de proteção e socorro. A articulação entre essas entidades está suficientemente preparada e treinada para uma situação real?
Temos já trabalho feito e experiência de articulação entre diferentes entidades. Mas esta é uma área em que nunca podemos considerar que a preparação está concluída.

Os Bombeiros de Esmoriz têm participado em exercícios conjuntos há vários anos. No simulacro municipal de 2021, trabalharam com os Bombeiros de Ovar, Santa Maria da Feira e do concelho de Espinho, precisamente para avaliar a articulação, a capacidade de mobilização, a prontidão e as comunicações.

Em 2025, o exercício de queda de aeronave na Barrinha levou essa articulação bastante mais longe. Estiveram envolvidos, além dos Bombeiros de Esmoriz, os Serviços Municipais de Proteção Civil de Ovar e Espinho, a Força Aérea, a Polícia Marítima, a Capitania do Douro, a PSP, a GNR e os Bombeiros do Concelho de Espinho. O objetivo assumido foi testar capacidades e reforçar a coordenação operacional numa ocorrência complexa.

O próprio Plano Municipal de Emergência existe precisamente para permitir escalar essa coordenação. Quando foi ativado, em fevereiro de 2026, o Município salientou que essa ativação permitia reforçar a coordenação entre entidades, mobilizar meios humanos e materiais adicionais e agilizar a tomada de decisão.

Mas é possível estar totalmente preparado para uma situação real?
Há estrutura, experiência conjunta e treino. Mas dizer que a articulação está “suficientemente preparada” para qualquer catástrofe seria excessivo. Uma situação real introduz fatores que nenhum exercício consegue reproduzir totalmente, como falhas de comunicações, operacionais indisponíveis, vias cortadas, população em pânico, ocorrências simultâneas e a necessidade de tomar decisões com informação incompleta.

É precisamente por isso que exercícios como o ALERTA 95 são importantes. A articulação entre entidades não se garante apenas através de planos e protocolos. Constrói-se quando as pessoas treinam juntas, conhecem os procedimentos umas das outras, sabem quem decide, quem comunica e como se integram os diferentes meios no mesmo teatro de operações.

O objetivo não é chegar ao ponto de pensar que estamos preparados para tudo. É garantir que, quando acontecer aquilo que não conseguimos prever, sabemos trabalhar em conjunto, reconhecer rapidamente as nossas limitações e mobilizar a resposta adequada.

Foto: DR

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