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Na Feira, o tempo encurta à medida que a fogaça sai do forno

O tempo para conversa é quase nulo. Os fabricantes não têm mãos a medir. A poucas horas do dia grande para os feirenses, Santa Maria da Feira acelera em torno da fogaça, o doce que concentra devoção, memória e identidade coletiva.

O forno trabalha sem interrupções e o tempo mede-se em fornadas. Na Confeitaria Castelo, no centro histórico de Santa Maria da Feira, perde-se a conta às fogaças produzidas nos últimos dias. Ninguém abranda. As mãos mantêm o ritmo. Os olhos denunciam o cansaço. A Festa das Fogaceiras é amanhã e a pressão sente-se em cada tabuleiro que sai para arrefecer.

A casa pertence à mesma família desde 1968. É dali que saem, todos os anos, milhares de fogaças, num ciclo que se intensifica sempre que se aproxima o dia maior dos feirenses. O ponto alto da festa é amanhã, 20 de Janeiro, feriado municipal, mas todo o mês é vivido como uma longa antecâmara desse momento. A procura cresce dia após dia e transforma a pastelaria num centro nevrálgico da cidade.

A base do doce pouco mudou ao longo das décadas. Ingredientes simples. Proporções exatas. Tempos de espera rigorosos. O que distingue cada fornada não é o que entra na massa, mas a forma como tudo é conduzido até ao forno. “Aqui nada é feito à pressa, mesmo quando estamos cheios de pressa”, assegura Diogo Almeida.

As fogaças ganham forma à mão, uma a uma, até adquirirem o perfil que evoca as torres do Castelo da Feira. Seguem depois para o forno a lenha, em vagas sucessivas, tantas quantas forem necessárias para responder às encomendas que continuam a chegar.

Já quase no fim da cozedura, há um gesto que Diogo Almeida continua a cumprir. Entra no calor do forno e roda manualmente cada fogaça. Um gesto que muitos abandonaram. Ele mantém-no por convicção. Afiança que é ali que se decide a consistência final do doce.

Com formato arredondado e quatro bicos que representam os coruchéus da torre de menagem do castelo, a Fogaça da Feira, ícone da doçaria regional, é hoje produzida em várias casas do concelho. Distingue-se por aprestos tradicionais, quer no preparo da massa, quer na forma como vai ao forno, mantendo uma identidade que atravessa gerações.

No dia grande para os feirenses, o ritmo aperta ainda mais. Cada fornada demora cerca de três horas e meia. Só quem encomendou com antecedência garante fogaça do próprio dia. Cá fora, nas ruas do centro histórico, o movimento contínuo de pessoas à procura do doce da terra confirma que, por estes dias, Santa Maria da Feira vive ao compasso do forno.

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