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Aliança Underground Museum: um espaço único, onde Arte e vinho se fundem numa experiência multissensorial

Viajar às profundezas da terra, até 20 metros de profundidade do solo, para conhecer civilizações e partes do mundo, apreciar obras de Arte raras, sentir o cheiro intenso a vinho e poder até prová-lo. É o que propõe o Aliança Underground Museum, um espaço museológico ímpar, situado em Sangalhos, no concelho de Anadia, que alia a Arte e o vinho. Oito coleções distintas, com centenas de peças artísticas raras, originárias da coleção privada de Joe Berardo, ocupam 7.500 metros quadrados de salas, recortadas por galerias e túneis das caves Aliança, com um quilómetro e meio de extensão. Estes túneis são ocupados por milhares de garrafas e de barricas, onde repousam aguardente, espumante e vinho tinto, produzidos pela empresa Aliança Vinhos de Portugal.

No exterior, a fachada do edifício exibe uma fundição em bronze do mártir e guerreiro São Jorge, representativa da escola alemã do início do século XX, ladeada de várias esculturas mitológicas, da autoria de Martins Correia, datadas de 1964. Uns metros ao lado, na entrada do Aliança Underground Museum, duas estátuas grandes de budas sentados dão as boas vindas aos visitantes e introduzem-nos para o que vão encontrar lá dentro: um regalar constante das vistas e um desafio multissensorial, que convoca a visão, o olfato e a audição, em simultâneo, para uma experiência inesquecível.

 

Já no interior deste núcleo museológico inaugurado em 2020, e depois de passada a receção, o público depara-se com o logotipo do museu, inspirado no metro de Londres, e com um diagrama da rede de 26 “estações”, ou seja, das 26 paragens que é possível fazer, ao percorrer este museu que exibe parte do espólio do colecionador madeirense Joe Berardo. Delineado como se de uma rede de metropolitano se tratasse, as obras estão dispostas ao longo de cinco linhas do metro, metáfora de cinco regiões vinícolas, dispersas por cerca de um quilómetro e meio de túneis das caves Aliança, onde repousam vinhos há mais de 70 anos.

A partida para esta viagem é na chamada “Linha do Douro”, ao longo da qual estão expostas “três coleções africanas, de arqueologia, de etnografia e de escultura”, explica Catarina Neves, a guia que acompanha as visitas. “A exposição de escultura representa 82 tribos africanas, uma das quais já não existe – a tribo Bura -, originária do Níger”, contextualiza a anfitriã. Na parte arqueológica, é recriado “um cemitério dessa tribo”, com formas fálicas “que representam a virilidade masculina” e outras formas arredondadas “que simbolizam as mulheres e crianças”. A secção etnográfica inclui máscaras, rostos, objetos musicais, armas e artefactos usados por essas tribos africanas. Todas as peças desta fração do museu “têm como temática principal a fertilidade e a ideia da liderança e da chefia do homem, bem como a espiritualidade associada aos rituais dessas tribos”, refere Catarina Neves.

Barricas e garrafas dispostas como objetos de Arte

Entrando na “Linha do Dão” do Aliança Underground Museum, o viajante depara-se com uma estupenda “recriação da Última Ceia”, explica a guia. Uma parede pintada em tons ocre tem, a seus pés, 13 peças, novamente com formas fálicas, a representar o líder tribal e doze pessoas com ele sentadas à mesa. Segue-se uma impactante sala de eventos (que pode ser usada para festas e eventos empresariais) cujo centro exibe um pilar em forma de árvore. “O tronco e os ramos são feitos com madeira das barricas” da empresa Aliança Vinhos de Portugal, produtora vinícola, fundada em 1927 e onde está instalado o Aliança Underground Museum. Uma das paredes desta sala é ornamentada com garrafas iluminadas num tom rosado, numa espécie de mural que, por si só, também é uma grandiosa obra de arte virada para mesas com candelabros de velas ao centro. A música ambiente, com cânticos gregorianos que acompanham os visitantes desde que entram no museu, “é uma alegoria aos vinhos a repousar nas caves do edifício” e convoca os observadores a apurar a adição para sentirem o descanso da bebida, depois da fermentação das uvas.

Paragem obrigatória na “Linha do Dão” é, ainda, a secção de minerais e fósseis. A coleção dos minerais é constituída por “cerca de trezentas amostras, quase todas provenientes do Brasil, sobretudo, dos estados do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais”, contextualiza Catarina Neves. Entre os minérios expostos estão ametistas, quartzos, calcites, moscovites, turmalinas e distenas. Seguindo em frente, o público é surpreendido por uma rara, impressionante e muito bonita coleção paleontológica, composta por peças fósseis com mais de cento e vinte milhões de anos, que inclui peixes, moluscos, conchas, fósseis de rinocerontes, plantas e madeiras petrificadas oriundas da Argentina. Aqui, o olhar inebriado pela beleza do que vê é igualmente embriagado pelo extasiante e intenso odor a vinho, ou não fosse esta uma cave vinícola.

No fim desta secção, há também uma zona de azulejaria dos séculos XVIII e XIX e outra de azulejos contemporâneos, de origem portuguesa e francesa. A “Linha do Dão” é, ainda, preenchida com uma outra sala de eventos, que se destaca por ter uma ostensiva mesa de madeira de sequoia e cadeiras do século XVII, e com uma Pink Room, uma sala cujas paredes são forradas com minerais quartzo cor de rosa, de grandes dimensões.

O vigoroso cheiro a vinho que se sente em vários compartimentos deste museu subterrâneo acentua-se no Túnel do Espumante, um dos atrativos do museu. Situado na Linha da Bairrada, este corredor, em forma de descida inclinada, é ladeado de paredes revestidas com 50 mil garrafas de espumante, a maioria de 2001. As garrafas tapam as paredes, de cima a baixo, sendo esta apenas uma pequena amostra do espólio vinícola da empresa Aliança Vinhos de Portugal.

Duas das outras principais atrações deste museu surgem na linha seguinte, a Linha do Alentejo: a Estação Central e a Cave das Aguardentes, que são espaços de armazenamento de vinhos em barrica. Na zona da Estação Central estão cerca de trezentas barricas de vinho tinto em estágio, da colheita de 2019. Na Cave das Aguardentes, um dos maiores ex-libris desta estrutura museológica, encontram-se perto de três mil e seiscentas pipas com bagaceira, milimetricamente alinhadas em pirâmides, ao longo de um corredor, configurando, por si só, uma estética também ela artística que dá vontade de ficar a observar durante longos minutos. Num dos topos deste corredor, um espelho gigante aumenta a sensação de profundidade do espaço e candeeiros suspensos iluminam esta cave, num lusco-fusco que lhe confere algum misticismo. Sónia Oliveira, responsável pelo polo Bairrada do Enoturismo do Grupo Bacalhôa, o grupo detentor da fábrica Aliança Vinhos de Portugal, diz que esta unidade de Sangalhos produz, por ano, “cerca de um milhão de garrafas de espumante, quatrocentos mil litros de aguardente e quatro milhões e meio de garrafas de vinho tinto”. Acrescenta esta encarregada que “aqui, a arte do vinho está sempre em movimento, porque temos vinho e aguardentes em estágio que vamos retirando e vamos voltando a colocar vinho e aguardentes em estágio”.

Antes da chegada a essa Estação Central e à imponente Cave das Aguardentes, os visitantes passam, ainda, pelas secções Bordalo I e Bordalo II, também situadas na Linha do Alentejo. Estas áreas são dedicadas à tradição das cerâmicas, faianças e porcelanas das Caldas da Rainha, desde o chamado Período Arcaico ao Pós-Bordaliano. Entre peças raras e originais, dos séculos XIX e XX, produzidas por conceituados ceramistas, entre os quais Rafael Bordalo Pinheiro e Manuel Cipriano Gomes, estão aqui reunidas autênticas obras artesanais, entre as quais louças e objetos decorativos em forma de animais, candeeiros, flores e figuras humanas. É também nesta linha que se pode parar no recanto dos alambiques, onde estão expostos seis alambiques de cobre.

A visita subterânea não termina sem uma passagem pela Linha das Beiras, onde é possível conhecer as marcas da gama Aliança (Antíqua, Aliança XO, Antiquíssima e Aliança Velha) e o que as diferencia. Francisco Antunes é o Diretor de Enologia na Aliança Vinhos de Portugal, desde 1993, é responsável pelos vinhos das regiões dos Vinhos Verdes, Douro, Beira Interior, Dão e Bairrada, assim como dos vinhos espumantes e das aguardentes e foi distinguido, em 2023, como enólogo do ano.

“A luz da Índia apagou-se”, mas continua acesa

Subindo ao piso superior, há, por último, um espaço expositivo suplementar, intitulado Coleção Índia  – Mito, Sensualidade e Ficção. Uma das partes desta exposição é dedicada à vida e morte de Mahatma Gandhi, líder espiritual e ativista indiano. Aqui, são recriados objetos encontrados na casa do homem que foi líder do Movimento de Independência da Índia, como é o caso dos seus óculos, dos chinelos e da secretária. É também reproduzida, numa parede, a primeira página do jornal The Times of India, do dia 31 de janeiro de 1948, o dia posterior ao assassinato do homem que defendia uma Índia independente, baseada no pluralismo religioso. Com o título “Mahatma Gandhi assassinated at Dehli”, a capa do jornal desse dia mostrava uma fotografia de Gandhi em tronco nu, com as mãos em oração. Num outro painel explicativo sobre esta figura histórica, lê-se “A luz da Índia apagou-se”.

Mas o legado da resistência não violenta, das raízes hindus, das tradições, crenças e práticas espirituais do hinduísmo, uma das religiões mais antigas do mundo, continua aceso. Essa herança é visível na coleção sobre arte indiana que inclui, por exemplo, peças alusivas ao hinduísmo, como é o caso de vacas sagradas, figuras simbólicas, figuras humanas e portas. Desta coleção faz também parte uma exposição de fotografias dedicadas à família aristocrata de artistas indianos Singh Sher-Gil.

Equipamento museológico tão diverso, o Aliança Underground Museum espelha muito os gostos, os interesses, a visão de mundo e as relações pessoais além-fronteiras do empresário madeirense Joe Berardo. Todo este acervo, inserido no grande universo da Coleção Berardo, resulta do cuidado constante do colecionador em imunizar peças e obras de arte, de múltiplas origens e espécies, com significado por vezes histórico, mas muitas vezes também sentimental de um homem que dedicou a sua vida à Arte.

É essa paixão que transborda neste núcleo museológico “visitado por cerca 30 mil pessoas de todo o mundo, por ano”, incluindo estrangeiros, sobretudo, espanhóis e franceses. Muitas das visitas resultam do “passa a palavra”, são “turistas que ouviram falar do museu” e que “ficam surpreendidos por esta envolvência toda”, diz Sónia Oliveira, acrescentando que “muitos turistas estrangeiros dizem mesmo que nunca viram um museu assim”. Não tem dúvidas, por isso, em afirmar que a aliança entre a Arte e o vinho “é um casamento muito feliz”. Está também convicta de que “sendo esta cave uma das maiores da região, o facto de
nós termos esta oferta tão diferenciada de todas as outras que existem na Bairrada, acaba por trazer mais turistas que, de certa forma, aproveitam para conhecer também as outras
empresas da Bairrada”
, tornando esse movimento turístico “uma mais-valia para a região e para as empresas da região”.

O Aliança Underground Museum está aberto todo o ano, só encerra a 1 de janeiro e a 25 de dezembro. As visitas têm de ser feitas por marcação prévia (pelos números 234 732 045 ou 916 482 226 ou pelo email aqui.

Essas visitas para, no mínimo duas pessoas, duram hora e meia, têm acompanhamento de um guia e podem ser feitas de segunda-feira a domingo, às 10 horas, 11.30 horas, 14.30 horas e 16 horas. O bilhete de entrada custa seis euros. As crianças até aos 12 anos, inclusive, não pagam. O Aliança Underground Museum também disponibiliza salas para a realização de diversos eventos, como festas de aniversário, de casamento, batizados, comunhões ou jantares.

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3 Comments

  1. Que Museu lindo. Desconhecia totalmente e vivo em Aveiro. Como é possivel? Vou já reservar visita. Que sonho de espaço. Obrigado pela magnífica reportagem.

  2. Partilho da mesma opinião. Desconhecia e sou de Coimbra. Mas que mundo fantastico é este? Entendo que o passar a palavra pode não ser suficiente. Não encontrei notícias, redes sociais. Nada. Quero muito conhecer a arte e envolvência do vinho.

  3. Acho que a direção está a dar prioridade ao Vinho e não ao Museu. O vinho passa a palavra de copo a copo. O Museu não é bem assim. Desconhecida. Obrigado pela informação.

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