Videos
Festa das Fogaceiras. “Muito mais do que a fogaça”
Mais de cinco séculos depois do voto a São Sebastião, a Festa das Fogaceiras volta esta terça-feira a marcar Santa Maria da Feira, numa celebração que muitos feirenses vivem de forma emotiva e que, para além da fogaça, mobiliza tradições familiares transmitidas de geração em geração, devoção religiosa, identidade local e memória coletiva.
20 de janeiro 2026

A cidade cumpre assim um dos rituais mais antigos do seu calendário simbólico, renovando o voto feito pelas antigas Terras de Santa Maria num gesto coletivo de fé que atravessou epidemias, mudanças sociais e sucessivas gerações.
Apesar da ameaça de chuva, o programa iniciou-se durante esta manhã com o Cortejo Cívico, com saída dos Paços do Concelho e destino à Igreja Matriz.
No Rossio, entre dezenas de moradores e visitantes, Ana Maria Silva aguardava a passagem do desfile com a família. Disse que faz questão de chegar cedo. “Venho sempre nesta altura. À tarde há milhares de pessoas”, afirmou, explicando que o dia começa, todos os anos, com o pequeno-almoço partilhado numa cafetaria da cidade, onde a fogaça é repartida pela família. Para a feirense, trata-se de uma celebração com forte valor identitário. “É uma festa maravilhosa, que diz muito aos feirenses e não só”.
Pouco depois das 11 horas teve início, na Igreja Matriz, a Missa Solene com Bênção das Fogaças, presidida por D. Roberto Rosmaninho Mariz, bispo auxiliar do Porto, com acompanhamento do coro das paróquias de São Nicolau da Feira, Escapães e Sanfins.
Junto à Igreja Matriz, Manuel Pinho observava a multidão a partir de um ponto elevado. Residente nas Caldas de São Jorge, sublinhou que a festa não se esgota no símbolo gastronómico. “É muito mais do que a fogaça”, disse, destacando a vertente religiosa e a união das famílias. O dia, acrescentou, prolonga-se para lá do momento central da procissão. “Reunimos a família ao almoço, vemos a procissão e depois o lanche e o jantar rematam o dia”, enfatizou.
A partir das 15h30, sai à rua a tradicional Procissão das Fogaceiras, na qual cerca de 250 meninas desfilam vestidas de branco, com faixas coloridas e a fogaça à cabeça, num ritual que conjuga devoção religiosa e afirmação identitária.
Entre os participantes vindos de fora do centro da cidade está Carla Fernandes, moradora em Mozelos, presença habitual na celebração. “Venho todos os anos, mesmo que seja só por umas horas”, referiu, sublinhando o ambiente vivido nas ruas. “Há um sentimento de pertença muito forte, sente-se que a cidade está toda aqui”.
Também Armando Pinho, natural da freguesia de Fornos, distinguida em maio de 2025 como a primeira Capital Concelhia da Cultura, marcou presença acompanhado pelos filhos e destacou a importância da transmissão da tradição. “Faço questão que eles vivam isto desde pequenos”, afirmou, considerando que é essa continuidade que sustenta a festa ao longo do tempo. “Não é apenas uma tradição antiga. Continua viva porque as pessoas acreditam nela e fazem questão de a manter”.
Para o presidente da Câmara de Santa Maria da Feira, o Cortejo Cívico assume um valor institucional e simbólico central nas Festas das Fogaceiras. “É um dia com muito simbolismo», sublinhou Amadeu Albergaria, ao explicar que este momento solene demonstra que «a organização da festa compete à câmara municipal”.
O autarca realçou que, para além do executivo, também a assembleia municipal marca presença no cortejo, assim como os presidentes das juntas de freguesia do concelho, que desfilam para vincar “a unidade do território”. Acrescentou que o movimento associativo se juntaria, durante a tarde, à sempre aguardada Procissão das Fogaceiras.
Amadeu Albergaria vincou ainda a vitalidade de uma tradição que se tem renovado ao longo do tempo e que faz com que esta seja “uma das mais antigas festividades de Portugal”, seguramente – disse – “uma das mais belas e mais simbólicas”.
Recordando o Voto feito em 1505 ao Mártir São Sebastião, para que “intercedesse junto de Deus pelo povo da Terra de Santa Maria”, então vítima da peste, o presidente da câmara sublinhou que se trata hoje de “uma tradição renovada”, condição que considerou bem expressa pela adesão das Meninas Fogaceiras, que foram 250 na edição deste ano.
Encerramento a 31 de janeiro com concerto no Europarque
A fogaça, elemento central da celebração, assume protagonismo para além do dia do voto. Ao longo do mês, o principal símbolo da gastronomia feirense estrutura parte do programa das Fogaceiras. Durante quatro dias, o Mercado Municipal associa-se às comemorações com o Mercado de São Sebastião, dedicado à valorização dos produtos locais e das tradições do concelho, com venda de fogaças, queijos, produtos agrícolas sazonais e artesanato.
A programação inclui ainda uma componente musical distribuída pelo território. O ciclo “3 Concertos, 3 Casas” apresenta propostas em diferentes espaços, incluindo a estreia do tema “O Mundo Vai Dar Certo”, criado pela banda Daguida para a festa. O encerramento das comemorações está marcado para 31 de janeiro, no Europarque, com um concerto que reúne mais de 200 músicos das quatro bandas filarmónicas do concelho, acompanhando Fernando Daniel, num espetáculo que cruza gerações e associações locais.



