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IMAGINAURIUS: maior festival de artes performativas do país faz 25 anos e muda de nome

A arte como expressão de resistência e de evolução e como laboratório de experimentação. A arte como identidade de um território e de união multidisciplinar de gerações. É essa a matriz do Imaginarius, que vai decorrer no centro histórico de Santa Maria da Feira, entre 21 e 23 de maio. A comemorar bodas de prata, o evento muda de nome para Imaginarius - Festival de Artes Performativas em Espaço Público, mas mantém o ADN, tem orçamento reforçado, assume a sua capacidade de resistência e quer que a sua herança seja um futuro partilhado e um instrumento de pensamento. Este ano, há 39 espetáculos para questionar, porque é nas perguntas que começa toda a resistência e a longevidade.

No ano em que celebra 25 anos de existência, o Imaginarius assume-se como um evento de RESISTÊNCIA. A resistência entendida como “evolução e como força redobrada de celebração”, explica o Presidente da Câmara de Santa Maria da Feira, Amadeu Albergaria. A resistência de “questionar com outra voz e outro tom”, a resistência de “desafiar hábitos e abrir espaço para olhar com outra perspetiva”, a resistência do “pensamento livre e curioso”, a resistência de “emocionar e surpreender”, assume a organização.

Tratando-se do maior festival de artes performativas realizado em Portugal e envolvendo grandes produções internacionais com criações originais, que privilegiam a experimentação e a imaginação de artistas e do público, o Imaginarius muda de nome, a partir desta edição. Passa a chamar-se Imaginarius –  Festival de Artes Performativas em Espaço Público (e já não Imaginrius – Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira) e mantém a ambição de continuar a posicionar-se como uma referência no panorama de festivais do género “na Europa e no mundo”, diz o autarca, ao mesmo tempo que se mantém como um laboratório de criações e de artistas que, a partir de Santa Maria da Feira, ganham expressão e palco além fronteiras.

Para isso, contribui o aumento do orçamento que o município atribuiu à Cultura. Amadeu Albergaria fala num orçamento de “800 mil euros, o que representa um acréscimo de 200 mil, em relação ao ano anterior”. O autarca assume a medida como “uma afirmação política para o desenvolvimento do concelho e para o desenvolvimento territorial”.

Marca cultural consolidada, mas com alterações

Certo é que o Imaginarius “transformou profundamente a relação entre a criação artística e o espaço público em Santa Maria da Feira”, diz o Presidente da Câmara. Amadeu Albergaria acrescenta que “o que começou como uma aposta clara na ocupação artística da cidade tornou-se, ao longo do tempo, um projeto cultural estruturante, capaz de influenciar práticas, políticas e perceções”.

O autarca não tem dúvidas de que “não se trata apenas de um festival que acontece anualmente, mas de um processo continuado que foi moldando uma identidade territorial, criando referências e consolidando uma imagem reconhecível no panorama nacional e europeu da criação artística em espaço público”. O edil sublinha que, ao longo deste quarto de século, o Imaginarius construiu “um legado que vai muito além da memória dos espetáculos apresentados, construiu uma geração de artistas que encontraram no espaço público um campo de experimentação e risco, construiu uma geração de profissionais que se formou em contexto real e construiu uma geração de públicos que aprendeu a habitar o território de outra forma, reconhecendo o espaço comum como lugar de encontro e de descoberta”.

Por outro lado, a vocação internacional do Imaginarius tornou este projeto cultural multidisciplinar uma referência além fronteiras no circuito de festivais congéneres, posicionou  Santa Maria da Feira como “território de referência no domínio da arte em espaço público”, integrou o município em redes e debates europeus sobre cultura, democracia e cidade e ajudou a Feira a afirmar-se como Cidade Criativa. O festival tornou-se “um dispositivo estratégico de política cultural, capaz de articular artes performativas, arte urbana, criação contemporânea e desenvolvimento territorial”, sendo hoje uma “marca cultural consolidada”, acrescenta Amadeu Albergaria.

Sendo o Imaginarius uma “marca que já está consolidada”, o objetivo é que “evolua e cresça”, diz Amadeu Albergaria. O Vereador do Pelouro da Cultura, Turismo e Património, Paulo Marcelo, acrescenta que, nesse sentido, foram “introduzidas alterações”, que vão desde o nome do evento, à sua compoente gráfica e à visão conceptual do certame, que passa pela ideia de um “festival visível durante todo o ano e não apenas durante três dias”, explica o vereador. Para isso, estão a ser pensadas várias iniciativas que se estenderão ao longo de todo o ano, como é o caso das “conversas Imaginarius”, com palestras sobre Arte e envolvendo artistas.

“Em 3 dias, o mundo cabe aqui”

Enquanto expressão de resistência e espaço de criação artística e de experimentação, a edição deste ano volta a apresentar uma diversidade de propostas irreverentes, inesperadas, esteticamente diferentes e multiculturais. De 21 a 23 de maio, as ruas do centro histórico da cidade são palco de mais de duzentos artistas de 42 companhias, de 16 países, que vão protagonizar 39 espetáculos e uma instalação artística. Das 125 apresentações que serão feitas, cinco são estreias absolutas e 23 são estreias nacionais. A organização resume esta edição comemorativa ao chavão “em 3 dias, o mundo cabe aqui”, em Santa Maria da Feira.

Entre os destaques deste 25º Imaginarius está o espetáculo “THAW”, da companhia austríaca Legs on the Wall, em que uma figura isolada procura equilíbrio sobre uma estrutura de gelo, suspensa no ar, que pesa toneladas e que se desfaz lentamente, ao longo de 8 horas, à vista de todos. O esforço, o risco, o processo irreversível do gelo que derrete são uma metáfora do presente que habitamos e um gesto de resistência silenciosa que convoca responsabilidade coletiva e atenção partilhada para a ideia de que não há tempo a perder. O boco de gelo dessa performance recria o gelo do Ártico, mas vai ser produzido em Santa Maria da Feira e pretende chamar à atenção para as alterações climáticas.

Por sua vez, o teatro aéreo “ADN, Odyssée Verticale”, da companhia francesa Transe Express, é uma ópera eletrónica que narra a epopeia de indivíduos confrontados com o seu próprio percurso. Nesta odisseia vertical, apresentada numa estrutura de 40 metros de altura, há desafios coletivos e provas individuais em que o subir implica construir, desconstruir, colaborar e arriscar. Ao longo da ascensão, os intérpretes reconfiguram o espaço, à medida que se transformam a si próprios. Entre canto, música, teatro aéreo e acrobacia, a escalada torna-se coreografia e a verticalidade revela-se impulso e vertigem. A estrutura cresce a partir do solo e liga o espaço urbano ao céu, convocando mitos antigos e perguntas profundamente atuais. “ADN, Odyssée Verticale” propõe um gesto de elevação que coloca o humano perante o desejo recorrente de ultrapassar limites e lembra-nos que imaginar o futuro passa também por enfrentar o risco, a instabilidade e as consequências de construir sempre mais alto.

Já “Mirage (un jour de fête)” constrói uma experiência imersiva onde a dança surge como força coletiva, capaz de expor tensões, injustiças e desejos de libertação sem recorrer a uma narrativa linear. O movimento circula, propaga-se e regressa, criando um campo vivo, onde festa e revolta coexistem. Inspirado por contextos de crise e resistência, o espetáculo cruza danças tradicionais, como a Dabkeh, com linguagens urbanas e contemporâneas. Ritmos, vozes e passos sobrepõem-se, revelando contradições profundas entre intimidade e exposição, celebração e violência, memória e presente. A tradição não surge como herança fixa, mas como matéria em transformação, atravessada por dor, pela alegria e pela afirmação coletiva.

Todo o programa do Imaginarius pode ser consultado em https://www.imaginarius.pt/. Sendo certo que, ao longo de três dias, o espaço público de Santa Maria da Feira transforma-se numa dimensão conceptual que põe a arte ao serviço da relação entre território e cidadãos, “criando experiências que abrem espaço à reflexão e ao encontro”, diz o Vereador do Pelouro da Cultura, Turismo e Património, Paulo Marcelo. “Reforçar o compromisso do evento com o território, com o futuro” e com a necessidade de resistir aos tempos conturbados e imprevisíveis que vivemos é o caminho do Imaginarius, baluarte da arte urbana e do património artístico contemporâneo.

 

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2 Comments

  1. Vou a Santa Maria da Feira todos os anos ver o Imaginarius e, na edição que assinala 25 anos, a curiosidade é ainda maior. Ao ler a programação nesta reportagem, confesso que um dos espetáculos me despertou particular interesse – o do gelo.
    Santa Maria da Feira está de parabéns. O Imaginarius nasceu na cidade, tem identidade feirense, mas há muito que ultrapassou fronteiras. É um festival da Feira que acolhe artistas de outras cidades e de vários países, transformando as ruas num verdadeiro encontro de culturas.

  2. A minha cidade pelo mundo fora. É tão confortante estar na Suíça e saber que a minha Feira, a minha terra onde cresci está sempre ao mais alto nível. Que orgulho…que orgulho.

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