Opinião

Mundo de Princesas

I/XV

UM
Precisou de um apanhador para limpar a terra escura que lhe sobrara da última pequena árvore, transplantada nos acordes do mais recente e magnífico ritual. Entrara-lhe no recinto sagrado em busca desenfreada não sabia do quê, depois foi em busca do dito apanhador. A euforia inebriante e ansiosa, por estar no início de mais uma longa caminhada vegetal, de braço dado com a solidariedade humana, cuja paternidade podia um dia reclamar, quedou-se num abrir e fechar de olhos como por vezes se quedam as eufóricas alegrias tanto paternas como maternas. Não era pai nem mãe de árvore nenhuma, raquítica que fosse, muito menos viçosa e linda. Não passava de um péssimo podador de bonsais. E de pessoas, pelo menos era nisto que pensava, ainda remordido.
Desalinhado e por organizar, o quarto como a sua cabeça ficou em perfeito desalinho. Ímpia, ela. Imundo, ele. Cheirava a tudo: a rosas amorosas apodrecidas na solidão e no escuro, a cigarros por fumar de defunto morto, a sémen derramado em putrefação de um amor jamais amor, aborrecido e impúdico, pagão sem se fazer pagão, vilanias escondidas. Nenhum dos palavrões do pensamento se fez voz.
Ameaçou que um dia contaria ao mundo e que a título dar um dia ele seria histórias do era uma vez, que por enquanto as palavras procuradas não tinham eco nem dignidade para serem pronunciadas, no lugar das calmarias de nenúfares germinavam raivas de olhos rebentados, enchedores de lagos, a transbordar de medo, pavor e pânico, palavras de solidão a não pronunciar, expressionismo exagerado ainda que verdade, nem de todas as verdades merece o mundo escondê-las nem expô-las, viver com elas como urge e se pode até que a garganta rebente de dor do não reclamado dito, ou afirmado grito.
O desalinhamento bailava impiedosamente o rodopio da crueldade, o hálito atmosférico sabia a estrume húmido, a impiedade exibia-se impúdica. A cor do céu azulou-se para ver o deprimente quadro: a janela do quarto abriu-se e do desenho que riscou faiscava uma luz assimétrica de fim de tarde abafado e fresco. Umas gotículas caíram no parapeito de mármore, insuficientes e descontínuas, que continuamente caíam. Chorou sangue, mas ninguém viu, porque não era para se verem as lágrimas deste parir: há dores no parto antigo de que não se fala: queres saber, imagina, meu filho, é como se o indicador e o polegar tivessem de se afastar, afastar, afastar até que a pele e a carne se rasgassem, e depois, depois o polegar descansa ao dependuro, olhos rasos de água nem salgada nem doce, que esse dedo que então ficou pendurado é o menino que tu és hoje, forte e lindo, um macho para me dar descendências quando fores grande, aperta agora bem a ligadura, vês que não te doeu muito e a terra nesse corte tremendo havia de causar-te fortes temperaturas. Obrigado, mãe, és a parideira mais bela do mundo.
Era uma vez, voltava a ameaçar como se o recontamento das histórias pudesse redimir o passado, salvar o presente, estancar o futuro para mais uma vez e sempre acautelar a memória intacta nos e dos recantos da sanidade dos poetas, não, dos jornalistas não, dos professores nem pensar, dos historiadores talvez, se conseguissem não desvirtuar, façamos fé na isenção das ideologias parvamente idolatradas, ideologicamente assentes nos poderes de quem manda, não há isenção, há afirmação e lado, há impostos a pagar, milhões a obedecer às ideologias de quem elegemos para nos enganar; não há histórias isentas, as dos escombros não podem falar e a elas apenas devemos verdades ocultadas ou escondidas, o que vai dar ao mesmo, as mais da vezes enterradas de vez, a memória dos poetas e dos outros escritores pelo efeito máximo da estrondosa sensibilidade, sim, é a que conta. Poesia sim, crueldade sem tamanho nem idade não. Viva a Forbes, sempre tão aplicada na justificação de crimes contra a humanidade: os duzentos mais ricos do mundo vão calar esta voz, anular o efeito de todas as histórias do era uma vez. Não é cinismo, tão só um ligeiro toque de ironia em defesa estoica dos crimes contra a humanidade a ver se a humanidade inteira entra nos eixos e nos ditames da boa governança do mundo: do norte ao sul, flores brancas sobre os mais poderosos, eleitos pela Forbes para que os biliões de não poderosos possam aspirar a sê-lo e, sendo-o alguns, replicar o modelo, esta é a sua vez de ser opressor. Calemo-nos. Voltemos ao assunto original. Só mais uma: a organização das nações unidas anda a copiar o paradigma divino dos homens de deus: o esquecimento das nações desopressoras. Os deuses são americanos, alemães, franceses, ingleses, nipónicos, russos e chineses, e já são duas. O parlamento britânico mete-me nojo, a casa branca pinga sangue escurecido, não há duas sem três, mas ele há histórias que são de esconder de debaixo das tapeçarias de todos os continentes, isto foi o que me disseste, pai, e tu sabias que isso não me dizia nada, como nada me dizem o memorial do convento, os lusíadas, dom quixote de la mancha e o complexo de édipo que tu querias que eu lesse, lembras-te, isso não se faz a uma criança impreparada, perturbada, que vive sob a acusação de crimes tão pequenos como são os nossos. Repara bem, criminosa sou, criminoso és.
Não foi preciso vasculhar muito para deparar com os vestígios de uma arqueologia reinante, jacentes e húmidos, no canto da direita ao fundo de quem entra – seixos, sobretudo seixos e bifaces graníticos oriundos de um sonho utópico e racional, antídoto para a cura de enfermidades desta brilhante civilização (brincar com a terra dos nossos ente queridos e descobrir o cheiro a chão e a erva daninha, oh sonho de arqueólogos vilãos). O chão de madeira empapado de uma coisa desfeita, cheirosa, num estado muito pós-regurgitação, lembrava outras incursões sem regras, realizadas no ermo de noites frias e de grande solidão. Metia dó e doía muito. Íamos a esmo na escuridão da tarde, o sol a esconder-se de nós como que envergonhado do que presenciara e uma barra de fogo a atravessar o horizonte, meteu-se no mar adentro. Tem de atravessar o submundo dos oceanos para egipciamente nascer no amanhã de manhã resplandecente e puro como da tua primeira vez. Sol.
Transpirou, febril e aterrado, espantado com o que os olhos viam, boquiaberto com o próprio espanto. O quarto merecia uma investigação mais séria e sistemática, violadora dos direitos elementares da privacidade e da intimidade. Naquele reduto despojado de alma inteligível, subtraído ao reino dos verdadeiramente vivos, na mais pura absurdidade face à pobreza da realidade sensível, observou atentamente uns trapinhos pendurados aqui e ali, uns sujos outros rosados prontos a usar, condizentes com o bulício daquela atmosfera, depositados naquele pavimento sóbrio e austero, em estado de lamúria e transfiguração; toalhas de feltro secas e lavadas a varrer o chão viscoso, que, apesar do visco deixavam descobrir-lhe a palidez de um verniz quase ausente; uma rosa esquecida rente à moldura de uma foto abandonada, ruborizada e seca, comungava aflições inenarráveis; um ninho de fungos miudinhos a espreitar pelas fendas do parquet ofendido e maltratado, formava uma mancha verde-rosa esquálida; quatro sacos de plástico sacudidos do canto para o centro do dormitório, ora transformado num indiscreto vomitório, confrangia inconfidências despóticas; roupa diversa embrulhada na imundície, no interior de um dos sacos, só visto, gritou-lhe a alma inteira, incluindo um elegante lençol de flanela, legado da insensibilidade materna, e engelhado na ramagem verde do estampado dolorido, e sufocado pelo cheiro nauseabundo daquela pasta amarelada, pardacenta e alaranjada de sucessivas refeições regurgitadas, e parou de pensar. Doeram-lhos os ossos da alma e pensou não pensar, mas ele espreitava, atordoado, abalroado, mas ele queria cumprir-se como pensamento, num ápice pensou que a rocha de Sísifo se encontrava ainda no sopé do monte, era preciso pegar-lhe, ainda.
O mato duro e agreste e a sede da infância, as lágrimas do medo de ter medo nas intermináveis noites de Salazar adolescentes, a primeira vez que se deitara com uma mulher incrivelmente feia no chão de um monte e num colchão de palha nojento a condizer com a infeliz depravada, que recebia alegremente os primeiros fluidos dos imberbes das aldeia, a ignorância do perfume urbano e o temor dele aquando dos rituais de passagem acontecidos, não passavam disso mesmo: subir e descer a montanha grega, ininterruptamente. Por um momento pensou em Camus e quedou-se em respeitoso silêncio, convocou Kafka e o monstro nada mais mostrou que metamorfoses comuns e o inseto começou a esvoaçar contra as vidraças da casa de cristal. Agora a parada era mais exigente, a faixa etária é outra, sou um homem maduro, a querer ser culto e a não consegui-lo, comentou com os seus botões que o homem e a mulher são o que são com as suas circunstâncias apegadas a outras e ininterruptas circunstâncias geradas por cada um e por cada uma e por cada todos, que tudo parece estar em tudo, e neste existencialismo do aqui e do agora, do instante que está a passar e já passou, do amanhã que agora é sem ainda ter sido, no entanto a sê-lo, não cessou a sua pesquisa de pai e de homem deseducado, mais o pai que a falta de educação, Saramago tem razão.
Repentinamente, qual detetive intruso em risco de ser descoberto com a boca colada ao crime, escancarou o guarda-vestidos da segunda princesa e os seus olhos de pessoa ainda racional não queriam ver: uma garrafa de um litro e meio vazia escondia-se, envergonhada pela luz agora fria e natural que espreitava da janela cúmplice e lânguida, neste depois do escancarar; um litro e meio de nada testemunhava e encaminhava para a morbideza; o cheiro ardente e ácido, visto em fúria, em raiva, na dureza dos dentes cerrados. Os olhos da cara soltaram uma gota de sal. Outra e outra, contaram-se três, derramou-se todo um rio na cara, no tronco nu, no quarto. A árvore, na sua pequenez, adormeceu à espera da replantação. Que coisa feia, disse a pequena árvore podada, e ameaçou morrer. O tronco de bronze empalidecera. Fazia sol posto e um redemoinho de nuvens negras abeirava-se da cornija branca a dois palmos da janela desabrigada de luz, onde anualmente poisavam e procriavam andorinhas vindas do céu. Ardência e frio num casamento de fim de tarde proibido. O negrume do dia desceu sobre o breu da tarde e anoiteceu, a noite parece agora preta, agora a conversa seria com as estrelas caso as nuvens derramassem todas as lágrimas do condomínio: choveu copiosa e doidamente a noite toda.
Ardia o ambiente tornado subitamente fétido, cheirando a água de pias de igrejas, benta e choca, das mulheres que se lamentam de suas moradas abertas, cujo trabalho têm de fazer, as mulheres das ditas moradas. A dona Ana Maria poderá ajudar, quem dera, é uma mulher de morada diariamente aberta, tem de fazer o serviço, mal não faz à rapariga, e as consultas são em geral gratuitas, deixa o consultado e consolado um envelope branco fechado com o nome inscrito, a exemplo do que se vem praticando há décadas aquando da visita pascoal às casas dos fregueses, tudo sendo canónico e pio até, nada de roubos pecaminosos, que se pecado fosse seria roubo meu filho, nem só sair à estrada é que roubar é, meu amigo, não se recorda dos ensinamentos de sua mãe.
Mais um saco, enorme, saído da primeira gaveta, desliza para o monte, bem no centro do aposento. A segunda gaveta não foi objeto de revista. Fazia-lhe falta uma máscara, mas não se prevenira. Sussurrou um berro às alturas divinas, acusador, inquiridor, insultuoso face às criaturas celestes, atirado a todos os deuses que o homem inventou. Nenhum lhe respondeu, a não ser o sorriso cínico de buda, o espírito filosófico, todos os seres superiores aquietaram-se num silêncio de deuses. Que fazer. Se o filósofo oriental se limitou a sugerir meditação, medite-se, pois, logo se verá o resultado da transcendência do ato, mas será mais logo que dará livre curso à meditação, porquanto, neste entretanto, o pai detetive alguma ação concreta há de operar.
Uivar pelas ruas da cidade para que todas as terras da aldeia global conhecessem as suas condições de cão e de cadela ímpares. Mas ele há tantos cães e tantas cadelas singulares. Preparar à princesa segunda uma receção tranquila e amena, outra, depois de um laborioso desempenho de cão-de-limpeza, masoquista de masoquismos. Ou obrigar a coitada a uma primorosa desinfeção e alindamento do seu encantatório sítio de repouso. Ou ferir horrivelmente o seu ego com impropérios de feirante indisposto, arremessar punições e ameaças, chamar-lhe nomes impróprios de princesas dissimuladas, maníacas, porcas, indolentes, selvagens, ingratas e cruéis. Havia tanta interrogação no ar humedecido e quente. Não. A via dura, ofensiva e tirânica, ainda que doseada na aspereza fora experimentada vezes sem conta, mais do que um dia ousara imaginar. A via branda e permissiva parecia-lhe desajustada a uma situação tão infame e tão execrável. O anátema era desajustado, a passividade seria obscena e abria caminho livre à doença estertor. Deu um não a todos os nãos e ficou a dormir depois do sincero e descontrolado carpimento, de manhã o sim acordou-o de mansinho, era tarde ou estaria ainda a tempo de emendar o erro, Erro não foi porque houve comedimento, concluiu.
Havia decidido a justa medida, a brandura, talvez uma certa candura desafiadora de raivas, associada a um tom firme, austero e imperativo, como quem lembra à bela princesa educada na cidade que tem algumas regras de simples mulher terra e chã, e urbana, a considerar na sua sociabilidade doméstica. Vivemos a cinco e não a dois, e que a dois fosse, acabou por despachar na decisão final, sabemos todos muito bem que te é inevitável a purga, então, queres um balde com tampa para esvaziares as tuas aflições, eu não tenho que limpar a tua merda, ofendeu.
Entrou para jantar e trazia no côncavo dos ossos da mão direita três candidatos a bonsai. O ar tremeu e a segunda princesa cortou-o com o negrume da sua silhueta transparentemente escura. Os olhos filtraram a atmosfera num repente redondo: mortiços e quebrantados. A alegria inquieta que trazia quietou-se na frieza e na estreiteza gelada do momento e todos os rios pararam, estanques, numa recusa obstinada de dar de beber ao arvoredo frenético e viçoso da mão ainda em concha. Pousou os candidatos a pequenas grandes árvores no mosaico da cozinha e não queria terra, nem comer, nem beber, nem dormir, nem um cigarro que acalmasse, leu-se-lhe nos olhos. Dignou-se em silêncios soletrados, inaudíveis, próprios de uma mulher digna de dignidades principescas. Terrivelmente só e educada. Deitou mãos à obra, educada e obedientemente.
Num esforço estrangulado e costumeiro determinou-se na remoção do estrume que lhe era próprio, seu e peculiar. Era-lhe demasiado familiar e assustador, aparentava serenidades, mas tinha de concluir a tarefa indigna ao ritmo de um relógio que não parava e que se tornara instrumento de medição de um tempo fulminante e anacrónico. O jantar arrefecia sob os fios lumíneos da noite já desassombrada, dando lugar à florescência e aos suspiros de um anoitecer arrefecido, a contracenar com as nuvens pardacentas a derramar rios de todas as cores. Triturou uma pequena e comovente porção de peito de galinha enrolado numa alface frisada e, condoída e cabisbaixa como a situação impunha, desfilou, inabalável, inalterável pelas bermas de um ritual compassado e muito seu: regurgitou de novo os alimentos frescos, agarrados a algum suco gástrico, ela sabia-o.
No depois, boca refrescada e traje negro revestido, por alisar, mergulhou na noite clara e quente num amor que durou, durou miudinho no choro e no queixume até de madrugada. Só o amante soube tirar partido do acontecer. Amanhã há mais, intuiu certeiramente. Passa-lhe, é meu pai.

 

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