Opinião

Mundo de Princesas IV/XV

Tivera eu a coragem de contigo lutar lado a lado, e perdidas deixara eu as minhas nas tuas mãos nos intervalos do teu olhar, e do teu pão: firmes e livres mãos entrelaçadas, quente e romântico modo de fitar o mundo, e suado o alvíssimo e duro pão lá onde se reuniam todos os cereais da nossa terra; que toda a luz que de ti provinha era inteiramente oiro, os raios que me serenavam, transparente e lindo oh meu astro maior: era o tempo onde a felicidade acontecia no teu colo e, no depois, às voltas nos carrocéis das livrarias matinais nos sábados da cidade grande: que saudades dos teus afagos de pai. Tu foste o meu poema maior, a minha maneira particular de ser.

As dívidas que todos temos agora de saldar.

Tenta ver-me com os olhos de ontem, que não suporto mais o teu olhar de hoje.

Não andarei eu iludida por este mundo de vãs licitudes e néscias virtudes, meros jogos de aparências fúteis, eu sei, a beber a beleza das vertigens no alto dos arranha céus, a ver o mar, e fincar-me toda arrepiada na curva das estradas quando o acelerador apetece, e tanto te apetece às vezes, a pôr-me nas miragens do fogo especado no céu rosa da minha remota crença num porvir primaveril, sendo tão manso quão cruel este dobrar do milénio, mas que eu teimo em abraçar ainda que rebeldemente: um mundo que não me pertence.

Sabê-lo-ás melhor que ninguém, meu prestimoso velho, meu amigo, meu velho confidente.

Não estarei eu sozinha à espera do derradeiro momento, aquele em que todos me abandonem e me deixem seguir o meu caminho, oh clássico destino, sabendo a priori que  agoirentas pareciam ser as ânsias com que sempre lutei pelo bem mais precioso, e que tu, meu querido, não deixaste de me outorgar em devido e convencionado tempo: a liberdade.

E com efeito exaraste a tua carta de alforria na aurora da minha adolescência, quando eu ainda brincava aos desejos de namorar para vir a ser mamã e me prendia enquanto levedava na minha tenra idade a alma ou o cérebro ou o espírito ou o buraco negro, que tanto faz ao caso e que de nada serviu ao fim filantrópico a que presidia: o passaporte da mais larga liberdade pessoal e cívica, antes pateteou os caminhos da minha servidão: que em mim despontou e medrou a vil cobardia em servas mil, e por velozes desatinos meus, cresceu e floresceu: hoje tenho clara consciência da minha escravidão.

Só tu, meu amo e meu senhor meu pai, alcançarás os meus ditos em toda a extensão.

Que forma de questionar o mundo, o meu mundo, o do hoje agora e urgente, egocêntrico na versão deles, esquizofrénico na maledicência de um dos psiquiatras cujo nome me sabe à bosta das velhas vacas do meu avô, da vacaria sábia do meu paizinho, que, em se despedindo por estados de pré desentendimento, oh pobrezinho avô, também te perdi naquele dia em que me interrogaste com um ar aparentemente sério mas derradeiro: mas o natal diz-me alguma coisa.

Souberas tu que no fim do século em que cresceste, cresceram multidões nos mais disparatados sítios do nosso éden, lugar que muito crias fora obra do criador, para quem as festas soam a uma profunda e global hipocrisia, mesmíssimo antes de terem início as pré-demências. Mas a partir desse dia, o teu colo era já do outro mundo, que não há, ou não quero, ou quero muito acima do querer.

Ficou de ti a lenda na memória da casa, dos colos à antiga, era eu menina: porque és a memória do que foste, ficou balsâmico o perfume da tua vacaria ao pé do hálito do meu psiquiatra de renome.

O natal também deixou de ser mágico para mim e estou muito crente de que na nossa família desarranjada apenas a primeira princesa, a feliz Catarina, sorve a quadra como quem acredita no pai natal, sabendo que és tu que compras e engendras todas as prendas que persistem na memória do teu antigo sapatinho: os pinhões metidos à socapa noite adentro pelo mago meu avô como se fora o menino em pessoa descendo a chaminé da tua casa nova, meu pai, da tua infância menina, foram subtilmente substituídos pelas mais belas e parvas histórias que já ouvimos mas onde todos entramos como personagens verosímeis e de primeira apanha. E a Catarina acredita, no seu peculiar modo de apanhar os teus ditos: a tua estirpe nobre fez de ti um plebeu pateta, um medíocre contador de estórias de gosto carcomido, mesmo assim desgosto, e, à falta de melhor, um herói a tempo inteiro, na pequena como na grande cidade: uma amostra cálida de pai.

Se ao menos ela pudesse entender a verdadeira história dos pinhões que o teu velho surripiava às pinhas do nosso pinheiro manso, para calar com afeto a simplicidade da quadra, o menino jesus desceu mesmo em pessoa de menino salvador a chaminé e veio ao ditoso soco dos meninos e à soca das meninas depositar um saquinho transparente de pinhões pérola; se ao lume primeiro brando depois intenso de faúlhas largas fosse dados menos detalhes mágicos que aqueloutros nascidos da velha cabeça alumiada pela candeia da nossa aldeia encavalitada na testa dele, eu esqueceria, que embora novíssimo de alma andava já mordido pela idade, e eu menina e a não poder perdê-lo; não fora eu escutar tristemente certo dia, que ele, o meu paizinho das histórias morreu de novo mas que já tinha enfim a sua idade, querendo a mãezinha se conformar e, em jeitos de mestra de catequese ensinar, que cada qual era detentor da sua hora de partir.

Fui poupada do cortejo negro das mulheres e dos homens, do choro livre a encher o rio, do padre e do sacristão, das beáticas benzeduras, da terra fria naquele dia solar, mas esqueceram de me anunciar as ausências que me foram servidas de repente a sangue frio: os pedaços de colo que perdi.

A luminosidade era clara e os dias contavam-se pelos dedos das mãos como as contas do rosário em cada noite de cada dia passado, entre os comeres da ceia e os adormeceres embalados pelos medos da noite; nessa outra vida tão presente de futuros aí estavas tu, meu belo pai, queimado de escuridões desvanecidas pela luz das eletrificações das casas e dos lugares de bruxarias, em fazeres de feiticeiro e projetando pueris encenações, fingindo que o terror não existe e verdade era que o homem do saco nunca fez aparições, emergindo de debaixo e trepando e imergindo na tua cama onde contigo se poderia sempre deitar quem sabe se para te violar e os teus suores mesclavam-se com a adrenalina do medo: o medo de maiores medos, subindo, subindo ao patamar do pavor; disseras que não conhecias então a palavra terror, menos ainda a terrorista, ou mais abreviadamente turra, aquelas que sendo balbuciadas serviam tão bem para mediar o bem e o mal deles, dos outros, dos que africanos eram, pelo que não podiam ser tão bons cidadãos deste mundo, breves e insignificantes gentios, e tu acreditavas que tudo era em nome de deus: a guerra colonial onde os homens iam a matar e a morrer era santa.

E tu acreditavas que angola era nossa, em sendo a lusa terra imperial um país que já diziam dos pequeninos: antes de mim, os de quem se dizia serem turras, e como sem eu o dizer disse, buscavam, também eles, a liberdade.

No entanto fiz-me prender, amordaçar e calar, perdi o rasto da liberdade deificada e abrigo nas minhas entranhas os desamores e desencantos de siddarta gautama, assim como assim não podia o buda bendizer-me as escarpas que em mim cresciam no ocidente judaico-cristão, muito menos as inquietações do escritor que fora alemão e volvera suíço em mim podiam faiscar apaziguamentos, se também ele em guerras de libertação esteve metido, mentindo depois sobre a serenidade buscada no oriente: pobre hermann hesse, terrífica heresia: pobre de mim.

Não sei quem dentro de mim manda, somente sei que vivo nesta inconstância do ser e do não ser, arredada de filosofias de meia ou tijela inteira. Pertenço talvez àquele grupo de suicidas que ama a morte, que se sente atraído por ela, mas que não é capaz de se aproximar: sou a cobardia anterior ao estado bruto, o valor do bloco marmóreo antes da glorificação da imagem, a escultura do vazio, sou a pedra antes da pedra.

Mas eu não sou capaz porque existe em mim o outro lado, covarde ou não, aquilo a que há míngua de melhores palavras designo de inércia que me entrega a um caminho quase sem saída, ou o caminho que sou pareço este: um muito comprido rego de dias por onde desfilam jacintos, sim, aqueles que plantam nos rios. Andam os homens, andam os médicos em demandas pelas águas claras. E não há meio de matarem o jacinto.

Uma das minhas sumidades chamou àquilo que penso e sou, a isso que dizes, perfeccionismo: a ele eu lhe chamei mentalmente preguiçoso, um senhor que nada sabe de doenças da mente, não basta investigar bastantemente, adensa-se frágil a cátedra deste mundo global, com todos os projetos em rede na busca do jacinto mental: viva o cano de esgoto da universidade google, lugar onde cada vez mais moram os doutores.

Isso, senhor doutor, aquilo a que chama isso é uma rocha do tamanho do mundo.

Egocentrismo, esquizofrenia, perfecionismo. Feito o diagnóstico triangular: trate-se o paciente. Não, o colete de forças não, este já foi testado nos outros países e não funciona em mentes medianamente adultas.

Aumenta-se a dose antidepressiva, agenda-se a terapia familiar, que nada não, que tudo. Haverá internamento, sim, na descida dos vinte e seis quilos, compulsivo se preciso for, não vá colapsar a vida. Nós defendemos a vida, senhor, a sua filha não está em risco. O internamento foi o que se viu.

Um poliedro tem tantas faces, senhor doutor. Sim, eu sei, todos os diagnósticos serão completados à medida que se vai morrendo. Crónica, eu sei, os estudos indicam que uma parcela da estatística resvala para uma segura cronicidade da perturbação. Declaremo-nos todos ignorantes: acabou a consulta.

De nada me vale o deambulatório pelos hospitais da urbe num país de prometidas liberdades, militar e cívica e nuamente dadas, um país que vendeu a revolução ao mundo e um dia virá que estará na moda aqui viver como se nele fosse o paraíso e deverá sê-lo, a nos fiarmos nas gentes que a revolução fizeram; desfilar pelas ruas e avenidas que em praças desaguam, hoje errante na cidade mais pequena que vivi, ontem destituído de sentido na cidade grande dos amores perdidos antes de verdadeiramente acontecerem, amanhã entregues os dias ao consumismo mais macilento da doença moderna que carrego, a quem me entrego, com o inevitável desejo de ser feliz; de nada me vale, dizia, se de antemão sou conhecedora da sua segura inviabilidade.

A felicidade tive-a nestas mãos, que agora teimam em segurar o nada e o vazio do mundo: o curso da felicidade ficou-se pela metade, ou foram-se os sentimentos que não tenho ou nunca tive ou talvez os tenha enterrado vivos num momento de loucura, quem sabe se num acaso ou ocaso de encantado namoramento.

Eu não tenho o complexo da culpa, isto aqui são só perguntas, era necessário um curso para namorar, de que não fui avisada da oferta formativa, era urgente aprender a ser mãe e pai: as mulheres sabem parir suas crias, os homens sabem emprenhá-las, tantas vezes raivosos e enlouquecidos, com violações e apedrejamentos bíblicos. A nossa natureza anda a enlouquecer.

E porque de loucura se deve tratar, aqui fica a promessa soletrada de que, um dia, entrarei consigo, belo leitor, no hospital da psiquiatria, de mãos dadas com a minha família, em peregrina revisitação dos medos e ânsias, a ver se não enlouquecemos todos, a ver se cada um de per si se firma no oásis da cidade grande, que eu não serei a peçonha que a todos arrasta para o fundo do poço: fica pois claro que este é e será um exercício de terapia familiar e social com eficácia não inferior às terapias grupais que servem para formar doutores.

Se não puder eu cumprir a promessa é porque morri antes do tempo, pelo que aqui fica registado o meu solene pedido de desculpas, antecipado e válido para o que faltar como o será igualmente para os silêncios que ficarem sepultados, consciente de que da enormidade do silêncio se ergue o mais ensurdecedor dos gritos.

Por ora, enquanto não regressar ao hospital, melhor dissera aos hospitais, sou toda dizeres de ditos, forçosamente comedidos, que também pode neles ver-se alguma terapia, estando estudado que falar das dores do corpo as das almas se vão curando, quiçá. Eu tenho que umas fazem parte das demais.

Amei o Jorginho, depois matei o nosso amor. Ou ambos o matámos. Era um amor insuportável e mais não digo de intimidades desprezíveis. Depois, emigrou para a terra que dizem europeia em busca de cidadania mais civilizada; em chão português ainda me visitou, olhou-me nos olhos visivelmente cansados, beijou-me e não me sentiu, o Jorge era inteligente, abriu os olhos e partiu, é hoje um migrante rico de coisas e gordo.

Eu sou a louca que vagueia entre as ruínas do mundo. Eu sou a apaixonada que ama as ruínas do mundo: este foi o comentário a textos do autor do lobo das estepes, que acabara de ler e que não lhe devolvera a tranquilidade dos e nos tempos idos, antes acrescentara desrazões agora cheias de vazio.

Ao ver-lhe no colo as lombadas das perturbadas leituras, com a seguinte verbal e inocente confirmação: devorei-os inteiros, bebi-os de um só trago: beberam-lhe a insanidade os livros, disse a voz arrastada do pai por pensamento.

Este tipo de livros devia ser proibidos, ou pelo menos desaconselhados a adolescentes, protestou o pai à mesa do café, em tertúlia informal de fim-de-semana entre os amigos que restaram. Havia desacordos, com música de piano ao fundo, clássica e linda, e nessa noite a segunda princesa partilhou ainda do círculo restrito de amigos, refilando com as suas opiniões ajuizadas, em estado de o já não serem. Era ainda tempo de muito siso, no entendimento geral dos circunstantes.

A Antonieta ainda não estava louca de todo nem morta de fome. Uma menina feita de lindezas subtis, com aparências de ajuizada, exemplaríssima, como gostava de se iludir ou exibir, iludindo a todos.

Uma leve faísca do olhar atravessou todo o salão do café fitando o cabelo solto do príncipe que escrevia com as mãos toda a poesia da noite. Ouvia-se um trecho de Chopin e a princesa Antonieta duvidou se era do músico que se enamorava, se do intérprete moreno e esguio que dominava o piano.

Mas esse tempo já lá ia: um tempo de felicidade: só lhe reconhecemos o nome quando fenece. Como era fresca e espelho limpo a água do rio cristalina que passava e eu não me resolvi nela nem nele mais que uma simples e bela nota musical: já me enojavam os homens, leitor.

Agora, neste depois sobressaltado, minguaram os amigos, poucos foram os que lhe suportavam o pai, em dissertações obcecadas sobre doenças do comportamento alimentar, nas tertúlias da sexta feira. Uns, ignorantes da matéria, imaginavam-no a finalizar-se e todo despido de interesse, por isso foram fazendo as despedidas, outros, porque se mudaram as psicologias e o estatuto social e cultural foi crescendo, e mais que tudo, tinham de acumular concertos e seus folhetos informativos, rendidos ao conservadorismo dos costumes, perenes conquistas de gavetas secundárias de um qualquer ministério, talvez o da educação, talvez o da segurança social, talvez o da economia.

Esquerda, direita, volver, desvaneceram-se as tertúlias sobre os anos sessenta, sobre a cultura hippy e o amor libertário, enfim sobre os ganhos de abril: o mundo pula e avança, deixou de se evocar o poeta, esmoreceu a candura dos horizontes, a vez de cada um não deixou de chegar, morreu o Zeca.

A literatura lusa ganhou o nobel: memorial do convento sentiu-se ostracizado: aqui me tens lanzarote.

Mas não se acabaram as ideologias e ele continuou de esquerda, desafinado com o mundo, cada vez mais inquieto, em estado pós hibernação. Acabou-se a fome no mundo, perguntava a si próprio. Apenas a Antonieta segue nas greves de fome, as outras famintas e ou outros famintos morrem aos milhares, as balas fazem o resto da mortandade. Viva a direita portuguesa, e o socialismo democrático. Xiu.

Ele não quis ofender os democratas, nem a sua Antonieta, é que um homem é obrigado a pensar, e a beber, e a berrar, e a entrar para a associação dos familiares e amigos da especialidade, uma titubeante emergência de autoentrega aos outros, a ver quem dá mais pela experiência que tem.

Ele não quis ofender, nem atormentar, tão só avisar das suas ilusões e perdições do seu coevo mundo: dos dentes apodrecidos, do olhar lânguido e terrivelmente destruidor, assustador, da degenerescência geral, da cor famélica embonecada nos negros trapos da moda e do nojo, dos panos lavados em orgias promíscuas de refeições limpas, despedaçadas.

Democrata de sempre e à séria, abandonou as manifestações contra a burguesia capitalista, furou a greve e discordou da luta de classes repetidamente apregoada, minúscula de mais ao pé da sua luta. Anticapitalista, deixou de ver, depois da perestroika soviética, razões para acreditar na queda do capitalismo: até os comunistas se deixaram corromper. O poder corrompe, dissera o historiador.

Mas mantinha ideais do velho e urgente progresso e pensava na democracia popular sem truques de centralismo democrático pervertido, julgando assim salvar uma réstia de dignidade, mas os antigos camaradas não lhe conheciam o degredo. Os colegas de trabalho invejavam-lhe a felicidade: ele era tão infeliz nas sombras do mundo.

Aos amigos do antes, nunca lho dissera, dedicou páginas de poemas soltos, avulsos, cheios de ternura e de um grande e reconhecido amor, ou gratidão. Uma gratidão ou um amor que lhe vinha da infância, do rapazinho com medos inenarráveis, neto do estado novo envelhecido. Insultou copiosamente o ditador nos anos que se fizeram de revolução, julgando que matava o medo e a memória do estado imperial e fascista, mas, desgraçadamente, descobriu que a memória do velho senhor permanecera nos gestos e nos medos que se haviam escondido nos recônditos da alma. Julgava-se um poeta impotente face ao passado e reconheceu, finalmente, que era prisioneiro de um complexo histórico-geográfico bem português: uma rã a bordejar as margens de um rio sem nome, longe dos oceanos onde a vida se desembaraçava livre e aportava no cais de cada amor: um marinheiro desprovido de bússola, à deriva em terra, sem a mínima verdade: com tudo por acontecer.

Um amigo de sazão restara, brilhante e europeísta, calculista e côncavo, postado na passadeira de delírios vermelhos tingidos de azul em noites de verão tórridas e cinzentas e aborrecidas, nos devaneios da desonra, libidinosos sem líbido, um quadro condizente à chateza da melancolia: um luso germanófilo, quase enlouquecido de solidão, recusara a ordem sacerdotal no dia da ordenação, e todos os pecados agora encomendava a deus numa prece fiada numa equação: pecarás sete vezes sete, setenta vezes setenta, sete milhões vezes sete triliões: muito poderia fornicar a pensar no perdão ao padre que não foi. Deus vivia para lhe perdoar e espargir livre arbítrios, deus era a cláusula pétrea da constituição mundial, a companhia de seguros que mais liberdades garantia, não para prevenir incestos ocultados, os filhos dos filhos dos filhos em muitos morrendo nas caixas do silêncio, nem pedofilias e outras violentas ninharias, deus era luz: uma luz em que se crê; esforçava-se por colorir o odor das noites quentes com o cromatismo dos cemitérios germânicos e portugueses: cemitério e sexo eram os assuntos prediletos.

Era de seu nome Ernesto, o Fodido, um nome a ilustrar o rosto estrangeiro que exibia e de que se orgulhava: visitei-o na Renânia e soube do raro orgulho português daquela alma pátria, com um fio húmido e luminoso nos olhos e na sociabilidade, despida de dignidade na vil autocensura, a dar-se aos alemães com a elegância de quem se submete às regras de uma orquestra berlinense, sem a qual e seu maestro ou maestrina, os outros, de povos venho falando, não emitem luz própria, porque a claridade nossa, povos do sul, é emanada de sua alteza imperial, ainda que o reich tenha ido a sepultar nos infinitos termos da guerra.

Desculpa Tónio, disse o meu amigo a gaguejar na cara do meu ensombramento, ter-lhes omitido a tua naturalidade, é que dos portugueses espanhóis magrebinos turcos etc., para não dizer dos pretos retintos, eles continuam com diminuída opinião e o pior é que têm razão, uma razão que nós os do sul não conhecemos; nem todos os vizinhos, nem todos os companheiros de trabalho, nem ainda os comparsas de eventos onde entro quase como penetra sabem que sou português, menos sabem que nasci numa ilha com retrete comum do condomínio, agora compreendes melhor o meu fácies germânico: há ainda resquícios do nazismo neste fabuloso povo, os outros continuam a ser importantes consumidores: eu sou um deles, tenho de ser e de parecer um deles.

Tenho orgulho, António, de ser lusíada de alma e meio de corpo e alemão nas entrelinhas do meu coração, não sei se me entendeste. Outra vez rogo tuas desculpas, meu escarnecido compatriota. Não sou como os camaleões, mas tenho de saber viver: tenho-me repartido.

Nas férias, a música do Ernesto derramava-se assídua e pontual na terra que o viu parir e o homenageou dignamente como a um herói civil, inteiro e afortunado: todo ele respirava portugalidade e sentia que não tinha culpa da sua compleição física, dos enigmáticos olhos azúis, se o seu coração era todo azul de céu e mar.

No bairro ilhota onde crescera, onde as pobrezas partilham a retrete comunitária, existe uma placa ao emigrante que nunca abandonou a mãe abandonada pelo pai, suspeito de submissão aos alemães, segredo que a vizinhança não sabe, e que em cada dezembro compra azeitonas pretas e camarões gigantes para grande regalo da descendente de antiquíssima menina de roda, sua querida mãezinha, que muito havia sofrido com os desamores do filho, descumpridor que prometera ser um exemplar sacerdote no caso que não lhe viessem a descobrir as necessidades da carne, mas vieram: chorou diurna e noturnamente durante três meses, cumprindo dona Ermelinda o luto da não tomada de posse do sacerdócio do filho que lhe aparecia pródigo em cada natal e em cada agosto, concomitante com o acidente de moto do único neto barão da família, naquele fatídico inverno, e com o crescente endividamento do país bem espelhado na pensão mensal que num esticão começara a minguar, fenómeno este observado pelo merceeiro que insistia em utópicas sobrevivências, e a escrever no rol miúdo e abundante dos endividados, e pela senhora que lhe deu trabalho a dias, estando a velha senhora, sem o saber, a enveredar por veredas cada vez mais céleres do fim do prazo de viver, fazendo prova material e espiritual do que dissera um parlamentar da república, que o governa andava a encurtar a vida às pessoas, devolvendo o primeiro ministro que assassino era o autor de tão graves acusações. Ecos do futuro.

Aqui impõe-se um parenteses para dar voz a algumas verdades que, não sendo novas, andam em desgastante enfraquecimento por via das mentiras que o desqualificado jornalismo vai espalhando, em réplicas dos centros económicos e financeiros de difusão: o neoliberalismo económico entende tão bem de desumana economia e de pessoas ajoelhadas, que, sempre em nome das liberdades, prognostica o engordamento e as sumptuosidades das elites, em sufrágios legitimados, com a penhorada humildade e tácito acordo dos cidadãos devotados, eleitores humildes e dedicados, e aqui há de descontar-se os abandonados do direito e do dever cívico cada vez mais descumpridos, senhoras e senhores, eles são tantos os filhos de dona Ermelinda que até apetece chorar: é bem verdade que, como disse o tal historiador, são necessários inúmeros pobres para produzir um rico e, agora, também se percebe melhor que são necessárias multidões de povos para consolidar uma Alemanha superior e obrigar uma América a permanecer no cume do mundo.

Finalmente, no final destas contas, tinha razão o parlamentar, a mãe entrou de facto na roda da morte, antes do tempo natural dela, e levaram pedaços da alma ao Ernesto, que de repente se viu em papos de aranha com o problema das promissórias; e uma mala onde reuniu e guardou as misérias todas, sobretudo as que não podiam ser repartidas. A história da mala dava um livro, António, sim, Ernesto, tu és fodido.

O pai finou-se, o estupor do pai. Há sempre um estupor nas famílias.

A tua filha como vai, é verdade, estou cá há quinze dias e ainda não falaste da Antonieta, nem das outras mulheres, da Madalena, da Catarina.

Tu ainda não mo havias perguntado. Vão como pode ser, a Antonieta vai assim-assim, como no ano passado, a morrer, respondia-lhe com os olhos rasos de angústia e brilhantes de solidão, a pedir urgências, a tentar escolher as melhores palavras que não ferissem a quadra festiva: é preciso sobreviver: no golfo pérsico andam a distribuir bombas telecomandadas e morre-se em barda: morrem pessoas civis, como se os militares o não sejam, diz a televisão que nem todas as mortes e destroços são contados, como se os soldados não fossem pessoas, repetimos nós, morrem mais do que nos diz a imprensa: eu sou um homem feliz, aos bocadinhos.

Deixa isso agora, argumentava com pressas o amigo Fodido, aonde vamos esta noite, eu convido-te. Estou com vontade. Hoje fui ao cemitério alindar a campa da minha mãe, o jazigo vai ficar, como se diz em português, um esplendoroso, muito calmoso. Sim, um esplendor, é muita a calma que se ganha nos cemitérios, obrigado por me emendares, mas o que eu sinto é muito intensivo.

A minha irmã já me fala, ainda não te disse, mas ela também quer parte das promissórias, falta falar ao meu Sebastião, o caralho do Remendos, mas a este não perdoo ter-me querido roubar a casa, a do empréstimo, ando eu a rebentar o couro, a dar no duro para o filho da puta do meu irmão, a minha mãe que me perdoe, querer negar-me a casa se, como tu sabes, fui eu que lhe paguei mais de metade das prestações, não tenho culpa que tenha perdido o emprego, ainda bem que eu tinha o contrato de compra-venda assinado.

Coisas de famílias: há mais que um estupor em cada família, se juntarmos os vivos e os mortos.

Vamos, hoje tenho que fazer amor, ou sexo, tanto faz, hoje convido-te, vamos, hoje pago-te a cerveja, o que quiseres, António. E o António ia, embalado e até embevecido, em busca sabe-se lá de quê, mas era invariavelmente traído pela imagética presença da sua princesa, obsessiva na ausência, na luz, no fogo alcoólico da noite. O Ernesto, ou simplesmente o Fodido engatava e fazia pela vida: até amanhã António.

O António ficava com as estrelas, a ver a lua: fogo estrelado de artifício, que se seguia.

Com o José Campos era diferente.

O assunto era sério demais para cair num bar em busca de mulheres mal-amadas e facilidades da carne. Tinham em comum um ror de coisas e o fantasma delas unia-os numa quase só vida. Conhecera por acaso o Campos no intervalo de um filme, quando ainda fazia o ritual de desenhar e ler o programa, escolher os filmes e as peças de teatro, comprar o bilhete e entrar, na crença de que estava a entrar num duche cultural.

Concluiu vezes sem conta que este era o único amigo que lhe restou: o último na ordem cronológica, o primeiro e único na ordem natural e social da vida. Precioso como o mel que se não lambe para que continue a sobrar mel, preciosidade de nível superior apenas produzido por um certo tipo de abelhas.

Da abelha mãe também se tratava, levada por deus prematuramente, o José Campos viu-se de repente cheio de medo do mundo. O zumbido do pai não podia dar-lhe o mel do crescimento: áspero e azedo com os outros e consigo, o pai de José nem podia sonhar com a revolta e a solidão do seu rebento mais novo dado na luz africana. Viu partir a esposa e acomodou-se, não podia saber que o brilho do olhar do José era um sol do índico casado com a lua atlântica, salpicado do sangue de escritores e que se recusava a escrever para não ter medo do futuro, nem ver que um dia havia de casar para fugir à solidão. Casou-se e fez filhos lindos, o José Campos.

Agora caminha pelo mundo, mede solidões, semeia princesas no mundo onde está que é a sua casa. O mundo.

Que tem o senhor, havia-lhe perguntado ao ver nele olhos de felino, ao reparar na forma incisiva com que riscava a sua silhueta: você está só e eu sozinho estou, no fim da aula de desenho quer beber um café. António parou e olhou a estátua de alto a baixo, fez um juízo certeiro e disse, cabisbaixo: vamos numa cerveja. Solidão.

Eu tenho medo do escuro. Eu estou quase sozinho no mundo. Podemos conversar sobre os dois pontos que nos unem. Assim, de repente, dois homens juntaram-se, não para falar de futebol, nem de outras fantasias, mas para dizerem um ao outro que tinham medo e que viviam na solidão.

E queriam ser amigos, como é costume nas exceções que remendam as regras. Acostumaram-se a ser amigos e hoje, no presente e no futuro, José Campos é o amigo que resta e de que se orgulha António. No ombro dele sentiu o campo fértil da amizade e do amor, a adocicada compartilha, a aceitação incondicional, tudo resumido: compaixão e empatia.

Razões de sobra para lhe escrever um texto como quem faz um filho a um amigo, onde a dado trecho se podia contar: tu continuas a sementeira da amizade e do amor, carente de uma e de outro, e a força que levas ao leme é uma energia que universalizas, mas que em simultâneo reclamas para ti, qual protetor de patentes: e, amigo, a ti te pertencem as patentes da amizade, do amor e da solidariedade: são a tua maior beleza; a tua nobreza admirável; âncoras de um destino humanista, especadas no deserto sombrio da urbe onde o sémen das gentes se vai disseminando, murmúrios de ausência.

A boneca de trapos da Catarina simboliza a poética bênção de José da casa nova na cidade grande, rasante simbologia da luta que tens de travar pela nossa Antonieta: eu estou aqui, António, para o que der e vier.

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