Entrevistas

“Ficar em casa deve ser encarado como uma missão”

Marco Martins Bento em entrevista.

Esta é uma situação nova para todos, e por isso as perguntas são imensas, a ansiedade aumenta com os dias em confinamento. E com os números desta pandemia a aumentarem a cada 24h. No momento em que há tanto para entender, vamos tentar perceber como se deve lidar com as crianças, o que se espera dos adultos e como manter a esperança no futuro incerto. Marco Martins Bento, psicólogo clínico, responde a muitas dessas perguntas e garante que “ficar em casa, deve ser encarado como uma missão”

Texto: Andreia Gonçalves
Foto: DR

O planeta vive tempos difíceis. A humanidade está a travar uma forte batalha que condicionou a vida de milhões de pessoas. Como é que a psicologia e nomeadamente os psicólogos lidam com o momento?
É verdade que este é um tempo exigente que traz desafios novos e desconhecidos. Os psicólogos, embora preocupados e expectantes, julgo que olham para o futuro com otimismo e esperança. Nós, psicólogos, procuramos ver sempre para lá do problema, tentamos centrar mais na solução, e quanto a este momento, cremos que após a “tempestade virá a bonança”. Este é um tempo de reflexão, de transformação e de crescimento. E crescer dói!

No seu caso pessoal, como está a lidar com a situação? O que diz aos seus familiares, amigos…
Honestamente, de maneira muito serena. Estou confiante nas autoridades de saúde e convicto que estão a ser tomadas as medidas mais adequadas. Também tenho os portugueses como um povo consciente e informado, e, portanto, acredito que em breve iremos mitigar as consequências do vírus. Poderá tardar a recuperação económica, mas, a seu tempo, tudo se conseguirá. À minha família, amigos e pacientes tento passar uma mensagem de esperança, sem alarmismos e, sobretudo, reforçando a importância de se proteger a si e a outros, e estarem bem informados.

Na sua opinião qual será o impacto na saúde mental desta situação de alarmismo social e de medo?
É difícil prever o real impacto uma vez que para muitos de nós esta é uma situação nova. Ainda assim podemos antecipar que o alarme e preocupações instalados trazem medos, receios e inseguranças. Nós receamos o desconhecido e este vírus e o que ele trará são desconhecidos! Estou em crer que esta situação irá trazer mais problemas de ansiedade e depressão. Não só pelas preocupações de saúde ou medo de perder algum ente querido, mas também por não sabermos como será o futuro e como lidar com isso, com o imprevisível.
Se pensarmos que somos dos países europeus que mais padecem de perturbações mentais, sobretudo ansiedade e depressão, é natural que imagine que os próximos tempos serão exigentes para os psicólogos. Serão necessárias mais e melhores respostas para suprir as necessidades.

Que impacto poderá ter o isolamento social, principalmente de quem está em quarentena ou num hospital sem contacto pessoal durante vários dias?
Enquanto seres humanos somos seres sociais; enquanto portugueses somos um povo de afetos, de convívio. Diria que, por isso, é duplamente difícil ficarmos privados da expressão livre e espontânea dos afetos, da intimidade e da socialização. No entanto, como otimista não posso deixar de reforçar que estas medidas de distanciamento e isolamento social são temporárias. São necessárias por um bem maior: a saúde e vida de todos. Quanto ao impacto psicológico, reconheço que pode ser emocionalmente perturbador, sobretudo para pessoas com maior vulnerabilidade, maior dependência emocional, menor resiliência ou com psicopatologia prévia. Haverá situações de agravamento de doença mental, mas também prevejo que muitas pessoas terão que lidar com reações emocionais complicadas de gerir causadoras de stress agudo, por exemplo. É relativamente imprevisível a expressão de tudo isto… Também é na adversidade que nos desafiamos e descobrimos, poderá haver casos de pessoas que se “reinventam” e descobrem o melhor de si… Teremos que aguardar, serenamente.

Os medos relacionados com a saúde, com a morte, com o futuro são férteis em desencadear estados ansiosos”

Alguns especialistas defendem que o isolamento social vai levar ao aumento da ansiedade, stress e depressões na população. Como psicólogo de que forma é possível dar a volta a esta situação?
Com muita perserverança, resiliência e amor! Claro que não há uma única forma para superar a adversidade; nem há fórmulas ou receitas milagrosas! Cada pessoa encontrará os seus mecanismos para ultrapassar as dificuldades com que estamos confrontados. Vou-lhe dar um exemplo: para alguém com forte sentido espiritual ter de ficar em casa poderá ser encarado como uma oportunidade para melhor encontrar o seu propósito de vida ou sentido de missão; para outra pessoa, muito pragmática e racional, poderá ser a oportunidade para fazer umas arrumações ou reparações em casa. Em ambos os casos, este momento de crise foi encarado como uma oportunidade para fazer frente à dificuldade. Nenhuma das formas é mais ou menos correta. Ambas são válidas e dependem de mecanismos internos e individuais. Depende de cada um encontrar a melhor forma para lidar com isto. Haverá quem consiga encontrar mais facilmente um sentido para tudo o que estamos a passar e haverá quem tenha mais dificuldade…

Quer com isso dizer que há risco de desenvolverem perturbações de depressão ou ansiedade durante esta fase?
Sem dúvida! Os medos relacionados com a saúde, com a morte, com o futuro são férteis em desencadear estados ansiosos muito acentuados difíceis de gerir perante as circunstâncias em que as pessoas ficam privadas das suas rotinas ou relacionamentos. O isolamento a que estamos obrigados também nos priva de passear livremente, de conviver ou sair à noite, o que pode gerar sentimentos de tristeza e angústia. Eu diria que os tempos atuais e futuros trarão alguma desregulação emocional que se traduzirá em mais doença mental. E não podemos esquecer os profissionais de saúde e as suas famílias que, por mais fortes que sejam, não ficam imunes ao desgaste psicológico que este embate acarreta.

As consultas on-line com psicólogos são nesta altura uma alternativa. Sentiu um aumento no seu consultório?
Sim. Esta modalidade de intervenção psicológica foi a forma mais imediata de corresponder às necessidades dos nossos pacientes, tanto antigos como novos. É um período muito estressante e, por maior estabilidade emocional que tenhamos, todos nos ressentimos. Mal começaram as notícias de possíveis contágios em Portugal senti que a procura aumentou, sobretudo por pacientes com historial de ansiedade. Atualmente, diria que me procuram pacientes com muitas patologias, mas a ansiedade, depressão e stress agudo parecem-me prevalentes.

Mas em tempos de incerteza, receio e isolamento qual é a melhor forma de contornarmos este momento?
Focar no aqui e agora, centrando no autocuidado e confiando que tudo ficará bem. Todos estamos a fazer a nossa parte: ficar em casa, tomando conta de nós e dos outros. Se acreditarmos que, de momento, este é o nosso propósito de vida: protegermo-nos e proteger os outros, isso dá-nos um sentido de missão e competência de algo que, efetivamente, podemos fazer. Se ficarmos a pensar no futuro, tendo em conta que é tão incerto, ficaremos ansiosos e mais preocupados, com a sensação de que não controlamos o que está para chegar. Mas, ao invés, se centrarmos no presente e no quanto podemos fazer uns pelos outros, se ficarmos em casa, então, isso dá-nos um alento, um espírito de missão e de amor pelo próximo. Acho que é a isso que nos temos que agarrar, agora.

“Os pais devem cuidar-se, elogiar-se, valorizar-se”

Quem tem filhos pequenos e está com eles em casa neste momento de pandemia e isolamento encontra certamente vários desafios. O que recomenda a estes pais?
Recomendo muita paciência, criatividade e que descansem o suficiente. É que ficar em casa, manter teletrabalho, cuidar de casa, cuidar das crianças, apoiar nos estudos, cuidar de si, é um sem fim de tarefas só conseguidas por “super-heróis”! A estes pais só posso dizer: são uns autênticos heróis, e têm que ter orgulho nisso! Os pais devem cuidar-se, elogiar-se, valorizar-se. Se não estiverem bem, não conseguirão manter as crianças tranquilas. Se pensarmos em estratégias efetivas para assegurar a maior estabilidade possível não posso deixar de falar nas rotinas. Toda a gente fala de rotinas e não é por acaso: manter uma certa previsibilidade dá segurança. Se a criança acordar à mesma hora, organizar o seu estudo conforme o horário escolar e mantiver a rotina de final do dia e de sono, isso dá estrutura ao seu comportamento e favorece a estabilidade psíquica, tão importante agora. Perante tanta incerteza, pelo menos temos uma certeza: a criança sabe o que tem que fazer, o que esperam dela e como se deve comportar. Fazer isto é amar a criança e todos os pais desejam amar os seus filhos.

Como se explica o coronavírus aos miúdos, quando até para nós é difícil de entender…
Não sei se é assim tão difícil de entender… Se nós, adultos, complicarmos tão mais difícil será para explicar à criança e fazer com que esta entenda. As crianças simplificam tudo! Devemos saber aproveitar isso. Primeiro há que saber adequar a linguagem e o conteúdo à idade. Depois devemos selecionar bem a informação a passar, ou seja, não sermos demasiado vagos e abstratos, mas também não dar demasiada informação que deixe a criança confusa. Considero que o melhor é definir uma informação simples sobre o que é um vírus, porque motivo é natural que fiquemos preocupados com o vírus e de que forma evitamos ou impedimos o vírus de se propagar. Isto fará com que a criança entenda o porquê de estarmos em casa e de não poder ir ao parque brincar. Usar metáforas é uma ótima ajuda; por exemplo, “todos temos um “superpoder” para combater o vírus que é: ficar em casa. Se todos ficarmos em casa, o vírus não se consegue espalhar e fica muito fraquinho até desaparecer!” Depois dar oportunidade à criança para colocar as questões que entender e só dar mais informação conforme a necessidade ou curiosidade que a criança manifesta. Felizmente, encontramos na internet algumas narrativas e material útil para explicar isto às crianças. Mas o mais importante: estar tranquilo e seguro para que a criança perceba que não tem que temer pois está em segurança.

Há milhares de alunos e pais que agora estão em casa. Que tipo de repercussões negativas isto poderá ter a longo prazo? Embora haja o lado positivo que é o facto de os pais passarem mais tempo com os filhos…
Qualquer situação de isolamento pode ser encarada como adversa e desencadear reações emocionais mais difíceis de gerir. Por exemplo, ficar-se frustrado, sentir raiva ou tristeza. Isso é comum, é inerente à nossa condição humana e não tem que ser visto como problemático. Aliás, é desejável que permitamos a expressão das emoções como forma saudável para lidar com tudo o que estamos a passar. Posto isto, eu diria que não é o isolamento que poderá ser perturbador, mas sim, a forma como cada um encontra ou não estratégias adequadas para encarar este desafio. Se as famílias virem nesta situação uma oportunidade para estreitarem os laços familiares, se conhecerem melhor, fazer coisas em casa que nunca tinham feito, permitir-se a explorar os erros e aprender com isso, não vejo que dano significativo possa advir desta experiência. Até porque, este confinamento é temporário, não sabemos quando irá terminar, mas sabemos que terá um término. Algo fundamental é haver espaço para cada pessoa ter uma vivência individual, um tempo para se encontrar consigo mesmo, descansar e cuidar de si. Para mim, o principal problema poderá ser o desgaste físico e psicológico pela falta de autocuidado.

“Receio um aumento da violência e também a diminuição das denúncias”

Até que ponto a “crise anunciada” poderá afetar estas pessoas que temem o desemprego e a perda de rendimentos?
Não sei “até que ponto”, mas sei que, agora, já está a ser um motivo de preocupação e a induzir stress nas famílias. Este fenómeno pandémico não é somente um problema de saúde; ele afeta, transversalmente outras esferas da sociedade, nomeadamente a economia. Apesar de se desconhecerem as consequências de tudo isto, sabemos que a economia irá recuar e isso implica aumento do desemprego, perda de rendimentos e, como tal, descida do poder de compra, porventura o aumento da inflação. As pessoas não estão alheadas a isto; começam a imaginar como será o futuro, se terão emprego, se terão forma de fazer face às despesas… isso traz muita ansiedade, angústia. Não esqueçamos que estas perdas implicarão processos de luto, de aceitação da perda. Serão tempos exigentes e em que os psicólogos terão um papel determinante.

Que sugestões e medidas quer deixar para que todos possam ocupar o tempo, seja com crianças ou mesmo para adultos sem filhos…
Uma das recomendações passa por manter as rotinas e já expliquei o motivo. Outro aspeto fundamental é dar oportunidade à criança para colocar as suas dúvidas e falar abertamente sobre o que está a acontecer. É errado dizer a uma criança que não deve falar sobre o momento difícil que estamos a viver. É importante ouvir a criança e amenizar as suas angústias. Às vezes, os próprios pais estão angustiados e não sabem como gerir isto, mas para tal sugiro que mantenham uma rede de apoio à distância (videochamadas, redes sociais), que pesquisem como abordar estes temas com crianças, que peçam ajuda a um profissional se necessário; o que é fácil com as consultas online. O tempo que a criança passa no computador, telemóvel ou tablet deve ser reduzido. As famílias deverão privilegiar jogos de tabuleiro, de destreza física ou manualidades (há na internet imensas opções e dicas). Através da internet, a famílias poderão fazer visitas virtuais a museus, a zoos e tantas outros locais que deixarão as crianças a fantasiar. Fez pesquisas temáticas e construir histórias ou ilustrações também são boas opções. Outras opções: ler histórias, fazer vídeos, manter contacto virtual com amigo e familiares, ajudar em tarefas domésticas. Se os pais mantiverem contacto com a educadora ou professores das crianças certamente terão muitas dicas e orientações acerca do que mais se adequa a cada criança, pois depende muito da sua idade, competências e interesses. Também é importante assumir duas coisas: os pais necessitam de ter um tempo para si, praticar algum exercício ou meditar, e, por vezes, também temos o direito a não fazer nada, a, simplesmente, ficar no sofá e deixar o tempo fluir.

Receia o aumento de casos de violência doméstica?
Receio um aumento da violência e também a diminuição das denúncias. Sei que foram tomadas algumas medidas para proteger as vítimas, nomeadamente, possibilidade de denunciar por sms para uma linha de apoio nacional, mas temo que não baste. O confinamento, a pressão e stress decorrentes de uma situação tão extraordinária como a que vivemos, a convivência diária e permanente com um agressor ou agressora é muito perturbador. Acresce que agora, mais que nunca, a violência pode ser silenciada por quatro paredes. Embora seja crime público, pode ser mais difícil de observar. Resta-me deixar coragem e esperança para as vítimas e recomendar que mantenham contacto com alguém de confiança e encontrem formas de sinalizar a situação se estiverem em perigo eminente. Também é desejável que os vizinhos e familiares estejam mais atentos, da melhor forma possível.

 

 

 

 

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