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Em Espinho, agosto traz mais do que calor: traz a alma da feira
Milhares de pessoas passam pela Feira de Espinho em agosto, o mês de maior afluência. Emigrantes, turistas e locais juntam-se todas as segundas-feiras naquele que é considerado o maior mercado tradicional ao ar livre do país.
18 de agosto 2025

Por esta altura, não é só o sol que aperta em Espinho. As segundas-feiras de agosto tornam-se ainda mais intensas no coração da cidade, onde a feira semanal atrai milhares de visitantes. Com quase dois séculos de história, é considerada a maior feira tradicional ao ar livre do país – e, neste mês, o movimento multiplica-se.
Logo ao romper do dia, os corredores da feira enchem-se de movimento. Ouve-se uma mistura de vozes, sotaques que revelam regressos longos e reencontros fugazes. Emigrantes, turistas e locais cruzam-se entre bancas de fruta, queijo, vestuário e artesanato. “Era bom que fosse assim sempre e não só em agosto”, comenta Maria da Conceição, de 81 anos, à Agência de Informação Norte.
Há mais de 75 anos a vender nesta feira semanal, num negócio de família que passa gerações, Maria vende legumes colhidos de véspera nas suas hortas. “É tudo fresquinho e os meus clientes sabem disso. Basta olhar para perceber.” Chega às quatro da manhã para montar a banca com a ajuda do filho. Perto das sete, juntam-se-lhe a nora e a bisneta, num esforço familiar para dar resposta ao fluxo matinal de clientes.
Ana Carolina, bisneta de Maria da Conceição, começou a ajudar com apenas oito anos. “Venho para cá desde essa altura. Atualmente, é durante as férias que ajudo mais. O negocio da família tem de continuar”, sublinha.
Maria da Conceição nota ainda diferenças no perfil dos compradores: “Os estrangeiros sabem ao que vêm. Os portugueses são mais difíceis, querem tudo quase dado. É assim há muito tempo.”
As manhãs continuam a ser o ponto alto da feira. “À tarde não se vende nada. A feira é sempre de manhã. Os meus clientes já conhecem aquilo que vendo”, remata Maria da Conceição.
A rotina, aqui, é quase sagrada. É ponto de encontro, espaço de comércio e palco de tradições que resistem ao tempo. “Venho todas as semanas. Sou daqui e, para mim, isto faz parte da rotina. É melhor do que ir ao supermercado, sem comparação”, diz Afonso Pereira, morador em Espinho.
Mas é o mês de agosto que lhe dá outra dimensão. Muitos dos que emigraram regressam agora a casa. Luís Martins vive em França há 37 anos, mas não falha o regresso à feira. “Todos os anos, em agosto, venho cá. A feira é paragem obrigatória. Tenho memorias de infância e quero manter as mesmas vivas. É diferente dos mercados franceses. Aqui é tudo mais genuíno e com uma qualidade diferente”, diz, enquanto segura um queijo de cabra da Serra da Estrela. “Isto lá não há. Ou há, mas não é a mesma coisa”, graceja.
Entre os visitantes, também há quem descubra o espaço pela primeira vez. Joana e Miguel vieram da Suíça de férias e procuram fruta da época. “A diferença nos preços é enorme. Aqui compramos mais e melhor”, comenta Joana, impressionada com a frescura e a variedade. “Eu adoro maracujá. Levo um saco por pouco mais de 3 euros.”
Apesar do movimento, os comerciantes reconhecem que os tempos já foram mais prósperos. “Nota-se que há menos dinheiro. Muita gente só vem passear”, aponta Rosa Maria, que vende na feira há mais de 30 anos. “Mesmo os emigrantes… têm as dificuldades deles, tal como nós cá temos.” Também defende que as vendas são pela manhã. “Vende-se bem. À tarde abranda.”
Com o final do verão à vista, a feira mantém-se como um lugar onde o país cabe inteiro – entre produtos da terra, memórias partilhadas e tradições que resistem.
Ir à Feira de Espinho, em agosto, é mais do que comprar. É, para muitos, voltar a casa.



